Renato Sanches ainda não acendeu o rastilho do meio-campo do Swansea, como muitos esperavam no arranque da temporada. Aliás, um ano e meio após deixar o Benfica, o jovem ainda não conseguiu impressionar e mostrar o futebol que o catapultou para a fama. Neste artigo vamos evitar rótulos como “flop” ou “espantoso” para o analisarmos de forma rigorosa, como jogador, mas também a carreira que conseguiu até ao momento.

Após aproveitar uma vaga em aberto no meio-campo do Benfica, Renato foi promovido da equipa B dos “encarnados” para o plantel principal, já com a temporada de 2015/16 em curso. Estabeleceu-se como o “box-to-box”, ou “carregador de piano” como se diz por cá, no 4-4-2 de Rui Vitória, e acabaria com quase 1900 minutos até ao final dessa primeira época.

Por que era Renato especial?

Aos 18 anos, Renato Sanches já era fisicamente possante. Ao combinar força, velocidade e capacidade técnica, mostrava as suas melhores qualidades ao ultrapassar adversários em drible, a transportar a bola desde zonas mais recuadas. O médio registava 1,9 dribles por cada 90 minutos – valor máximo na Liga NOS para jogadores na sua posição –, ao mesmo tempo que mostrava estatísticas sólidas de desarme e recuperação de posse. A jogar na Liga interna, o Benfica registava a maior parte da posse de bola nos seus jogos, mas, ao mesmo tempo que destacava a qualidade de Renato, a equipa encorajava o jovem a correr riscos e a envolver-se na construção ofensiva.

#JogadorClubeDribles completos
1Renato SanchesBenfica1,9
2Filipe AugustoRio Ave | Braga1,5
3Andreas SamarisBenfica1,3
4PeléP. Ferreira1,2
5Luiz CarlosBraga1,1

Médios com mais dribles completos na Liga NOS 15/16
Fonte: GoalPoint / Opta

Por outro lado, o médio registava uma taxa de conversão de 7,7% dos seus 1,3 remates por cada 90 minutos (92% deles de fora da área). Renato é um bom executante de remates de longa distância, mas essa seria sempre uma taxa difícil de manter. Em termos de passe, Renato sempre foi um jogador de valores médios e, com um máximo na carreira de 0,8 passes para finalização por 90 minutos no Benfica, a derradeira entrega não era, de todo, a sua forma preferida de criar oportunidades de golo.

Excesso de entusiasmo

Portanto, estávamos perante um jogador a realizar exibições impressionantes para um jovem de 18 anos, tanto pelo Benfica quanto pela Selecção Nacional, num papel semelhante (talvez ainda mais favorável, visto que jogava muitas vezes após saltar do banco, para defrontar adversários já desgastados). Infelizmente, tal como acontece a muitos jovens talentos, foi diversas vezes descrito pela comunicação social como um jogador sem fraquezas quando, na verdade, tratava-se sobretudo de um diamante em bruto.

A pressão que recaía sobre o jogador era imensa e o passo seguinte na carreira teria de ser equacionado de forma cuidadosa, por ele e por todos os que o rodeavam. As suas exibições na Liga dos Campeões (jogador com a mais elevada média de recuperações de posse por 90 minutos) e no EURO deram a ideia, junto dos clubes, de que o jovem estava preparado para actuar numa grande Liga, mas seria pouco sensato pensar que dar a volta à vida de um jogador de 18 anos não afectaria os seus desempenhos. Em jeito de retrospectiva, muitos dirão que Renato deveria ter continuado no Benfica mais uma temporada, mas o clube não poderia ignorar a magnitude dos números apresentados para a transferência. Porém, a mudança para o Bayern acabou por ser uma decisão questionável.

GoalPoint-Renato-Sanches-picture1Muitos clubes fizeram perguntas e, embora a escolha pelo Bayern tenha sido justificada pelo jogador pela “cultura de clube semelhante” à do Benfica, em termos de estilo de jogo as coisas não eram bem assim. Em transição desde a era de Pep Guardiola, o Bayern era uma formação que mantinha muito a posse de bola. Uma equipa que exigia aos seus jogadores de meio-campo uma grande capacidade de passe e uma qualidade elevada de posicionamento. O Benfica tinha muita bola, mas era uma formação que jogava um futebol mais directo quando na posse da mesma, permitindo a Renato correr os riscos que o transformaram no jogador que é. Fora dos relvados, o choque cultural entre Portugal e a Alemanha foi também duro.

E o tempo de utilização? Bom, no total de seis jogos a titular na Liga, nenhum aconteceu consecutivamente. Disputou algumas partidas após saltar do banco, mas apenas somou dez minutos ou menos em sete dessas ocasiões. Para uma equipa que ganhou a Bundesliga com 15 pontos de vantagem, é caso para dizer que o emblema bávaro poderia ter apostado mais no jovem. Se é possível avançar com o argumento de que Renato aprendia através do treino, as recentes críticas de jogadores do Bayern sobre as sessões de trabalho de Ancelotti colocam um ponto de interrogação sobre essa ideia.

Numa altura em que deveria estar a acumular minutos, para o ajudar a recuperar a confiança, assinou um contrato de empréstimo com o Swansea. Paul Clement, agora treinador do Swansea e anteriormente ligado ao Bayern, foi a principal influência por detrás da transferência, com a promessa de minutos na Premier League para o jovem português. Mas reduzir a questão somente a minutos de jogo é demasiado simplista: nesta altura, Renato necessitava sim de estabilidade, mais do que qualquer outra coisa.

Ao invés, mudou-se para outro país, onde se está a adaptar a uma nova cultura – em oposição a ser emprestado a outro emblema da Alemanha, país onde já se encontrava, ou a um clube com semelhanças ao seu –, numa formação sob uma enorme pressão para obter resultados. No meio da mais valiosa luta pela manutenção do Mundo, nunca é fácil integrar um jogador numa equipa – o jovem precisa de mostrar bom desempenho, e no Swansea espera-se que o faça de imediato. Por outro lado, passar de duas equipas que vencem 90% dos seus jogos nas respectivas Ligas, para outro que regista o mais baixo número de remates por jogo na sua Liga, não deixa de ter um impacto no que toca a estilo de jogo.

Os números que contam a história

@ Benfica@ Bayern@ Swansea
Minutos jogados1897623511
GoalPoint Rating5.775.455.22
Golos + Assistências2 + 10 + 00 + 0
Remates1,31,71,9
Passes p/ finalização0,80,60,7
% Eficácia passe (meio-campo adversário)80%86%71%
% Passes para a frente29%24%20%
Dribles tentados4,54,55,5
Dribles completos1,92,73,0
Desarmes permitidos1,51,94,0
% Perdas de posse20%16%27%
Desarmes1,61,31,6
% Eficácia de desarme67%64%53%
Intercepções1,11,61,2
Recuperações de posse6,74,86,7

Médias por 90 minutos nas Ligas Nacionais
Fonte: GoalPoint / Opta

Este é o cenário actual: Renato está rematar mais do que nunca (1,9 em comparação com os 1,3 no Benfica), tenta mais dribles do que nunca (5,5), mas, em última análise está a conseguir muito pouco. Perde muitas vezes a posse de bola (21 vezes por cada 90 minutos, em comparação com as 16 no Benfica), é desarmado mais vezes (quatro, para as 1,5 em Lisboa) e os dribles que completa ocorrem mais longe da baliza do que em anos passados.

A sua eficácia de passe está ainda mais baixa, apesar de tentar menos entregas para a frente. E, sendo no passado um médio que arriscava bastante, mas também “petiscava”, esta temporada as estatísticas mostram muito menos frutos dos riscos que corre. Diga-se, em abono da verdade, que está a tentar fazer mais, o que o leva a tomar decisões erradas e a enveredar por demasiadas acções individuais.

Embora os seus números defensivos sejam naturalmente mais altos, por estar numa equipa com menos posse de bola, Renato está a falhar mais desarmes (1,4 por 90 minutos, contra os 0,8 no Benfica), e está a fazer uma cada vez menor quantidade dos seus desarmes no meio-campo adversário.

Porém, os problemas do Swansea são bem mais profundos. Em último na tabela da Premier League, a equipa sente grandes dificuldades para criar o que quer que seja a nível ofensivo, e demonstra deficiências gritantes no plantel. Se o Swansea chegar alguma vez a um ponto de uma relativa eficácia e equilíbrio no seu sistema, certamente não será por Renato que tal não acontecerá. É muito difícil, no entanto, imaginar que tal aconteça brevemente.

Um clube da primeira metade da tabela da Bundesliga poderia dar ao jovem internacional português mais tempo de jogo, ao mesmo tempo que o mantinha na Alemanha. Ou então, se fosse o caso de continuar na Premier League, um clube mais sólido, como o Southampton (que contratou o transportador de jogo Neals Lemina, no último Verão), poderia beneficiar Renato e a sua recuperação.

Concluindo, não acredito que Renato Sanches se torne, no futuro, um vencedor do Balon D’Or – nem nunca acreditei, apesar da ridícula cláusula no seu contrato aquando da transferência para o Bayern –, mas tal não significa que não possa ter uma carreira de grande nível. Com uma combinação de maturidade, sorte e treinadores capazes de o influenciar na forma como interpreta o jogo, o jovem poderá ainda atingir um elevado nível de consistência.

  • Paulo Vieira

    Vamos esperar para ver o seu desempenho quando for emprestado ao Águias da Musgueira.