Wendel é, para já, o reforço mais sonante do mercado de Inverno em Portugal. Após ser insistentemente apontado ao Paris SG, que até poderia vir a emprestá-lo ao FC Porto, o negócio ficou sem efeito e o Sporting antecipou-se à restante concorrência, pagando cerca de sete milhões de Euros pelo passe do médio de 20 anos. Mas a história podia ter sido bem diferente.

Os testes falhados no Benfica

A ainda curta carreira de Wendel é um pouco atípica. Aos 17 anos ainda nem era federado no Brasil e apareceu em Portugal para fazer testes no Caixa Futebol Campus. Não se sabe muito sobre a avaliação que lhe foi feita no Seixal, mas certo é que acabou por não ficar e regressou ao Brasil.

Aí assinou pelo Tigres do Brasil, mas não demorou a chamar a atenção dos olheiros do Fluminense, onde teve o seu primeiro contrato com um clube grande. Mas a vida de Wendel começou a mudar verdadeiramente no início de 2017. Abel Braga, treinador com passagem por Portugal e agora no Fluminense, viu muitas qualidades no “menino” quando decorria a pré-época, e integrou-o definitivamente no plantel principal. Ao longo da época acabaria por fazer 56 jogos com a “tricolor” vestida, 31 deles no Brasileirão, tudo isto no seu ano de estreia como profissional.

GoalPoint-Wendel-FluminensePelo meio houve ainda tempo para um caso de indisciplina, que até levou Wendel a ser afastado de um Fla-Flu. Pelo que foi contado, o mesmo Abel Braga que viu nele todo o seu talento, também decidiu punir os seus atrasos e falta de comprometimento nos treinos com um afastamento temporário do plantel. As coisas acabariam por se resolver e a mudança radical de vida acabou por servir como atenuante para o comportamento errático do jovem.

Dentro do campo

Mas afinal, o que faz de Wendel um jogador tão especial? Conhecido por ser um box-to-box, o brasileiro destaca-se sobretudo pela segurança que mostra quando tem a bola. Em posse, o jovem apresenta um futebol baseado em passes curtos e com pouco grau de risco, o que faz com que, aliando isso à sua boa capacidade técnica, perca muito poucas vezes a posse de bola.

WendelB. FernandesBattagliaAdrien
Acções com bola67,375,664,779,6
Passes52,551,348,561,0
Passes para finalização (bola corrida)1,11,10,50,7
% Passes no MC contrário59%83%53%69%
% Passes certos no MC contrário86%64%78%80%
% Passes certos no últ. terço80%60%72%76%
% Passes verticais21%31%31%32%
% Passes longos4%12%7%7%
% Posses perdidas14%30%16%19%

Médias por 90 minutos, ao serviço de Sporting/Fluminense
Fonte: GoalPoint / Opta

Como se pode ver, Wendel raramente arrisca no passe longo e só um quinto das suas tentativas de passe são no sentido de ganhar terreno, algo muito diferente dos três “leões” em comparação. Em compensação, a certeza de passe que apresenta, mesmo em zonas complicadas, acaba por ser encorajadora. Algo que faz lembrar os números de João Mário na primeira época de Jorge Jesus.

Se através do passe Wendel tem algumas dificuldades em levar a equipa para a frente, é em condução de bola que surge outra das suas grandes características. Não é raro ver o brasileiro acelerar com a bola nos pés e “queimar linhas” em condução. A sua eficácia no drible (66%) é digna de grandes craques e – apesar do futebol se jogar de forma diferente no Brasil – promessa de um jogador desequilibrador.

Se a isso juntarmos a sua capacidade de remate, estamos claramente na presença de um jogador especial, sobretudo a nível ofensivo.

WendelB. FernandesBattagliaAdrien
Remates na área (bola corrida)0,51,00,60,5
        % Enquadrados53%73%50%67%
Remates fora da área (bola corrida)0,81,30,00,8
        % Enquadrados33%32%25%
% Remates muito desenquadrados12%5%17%0%

Médias por 90 minutos, ao serviço de Sporting/Fluminense
Fonte: GoalPoint / Opta

Não tendo a mesma chegada à área de Bruno Fernandes, pode-se esperar que, ao serviço de uma equipa como o Sporting – o Fluminense é uma formação de meio da tabela no Brasil -, Wendel tire partido da sua boa meia distância com frequência e a consiga converter em golos, não raras vezes.

Muito para evoluir sem bola

Agora a parte menos boa. Se, com bola, Wendel é um jogador com características muito interessantes, para se afirmar como um grande box-to-box e, eventualmente, ocupar o lugar que foi de Adrien Silva, Wendel ainda tem que comer algum “Cerelac”. O brasileiro foge muito dos duelos e, quando é colocado nessa situação, falha com bastante frequência.

WendelB. FernandesBattagliaAdrien
Tentativas de desarme2,03,64,34,3
        % Falhados44%35%36%19%
Intercepções1,11,00,71,8
Bloqueios de passe1,00,91,40,8
Alívios0,51,01,50,2
Duelos aéreos defensivos0,50,33,00,7
        % Ganhos50%20%63%53%
Recuperações de posse6,25,34,75,7
Faltas cometidas1,21,13,72,5

Médias por 90 minutos, ao serviço de Sporting/Fluminense
Fonte: GoalPoint / Opta

Coloca-se a velha questão que já se tinha colocado aquando da chegada de Bruno Fernandes. Com um jogador tão pouco agressivo como William Carvalho na “posição 6”, e jogando num sistema com apenas dois médios-centro, o dono da “posição 8” precisa de compensar essa “moleza” de William. Daí a importância que tinha Adrien, e daí a insistência em Battaglia, o único no plantel que, apesar de ser globalmente mediano, dá esse “morder de calcanhares” que qualquer equipa precisa em momentos exigentes.

Wendel dificilmente é, para já, esse jogador que pode fazer companhia a William. O brasileiro tem um grande “pulmão” e ocupa um raio de acção grande, mas não é homem para andar a correr atrás de ninguém quando o Sporting não tem a bola, algo que esta época tem acontecido muito mais do que o habitual.

Conclusão

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Wendel ainda não é o “oito completo” que Jorge Jesus precisa. O talento do brasileiro em posse é indiscutível, mas custa acreditar que possa, numa primeira fase, fazer parelha com William Carvalho num meio-campo a dois, dada a sua falta de agressividade a nível defensivo.

Das duas uma: ou Wendel é uma aposta a médio/longo prazo, e Jesus tem em vista trabalhar as características que lhe faltam de maneira a poder entrar no “onze”, ou esta é uma contratação já a pensar num meio-campo sem William e com um “trinco” mais “puro”, ao estilo do que Jesus tinha no Benfica com Javi García ou Fejsa, por exemplo. Com alguém com essas características nas costas – o Sporting tem João Palhinha -, Wendel teria todas as condições para tirar o melhor do seu futebol sem sentir responsabilidades para as quais ainda não está preparado. Para já, estará provavelmente destinado a jogar em posições mais adiantadas ou em jogos de menor grau dificuldade, enquanto vai, em treino, evoluindo naquilo que lhe falta.

Seja como for, e se a indisciplina não voltar a surgir, é uma questão de tempo até todo o talento de Wendel vir ao de cima. Com apenas 20 anos, não há muitos jogadores a nível mundial que já apresentem tantas qualidades como a pérola ex-Flu. Tirar partido delas e colocá-las ao serviço do colectivo é agora um excelente projecto para Jorge Jesus.