Brasil 2014: O melhor Mundial de sempre?

Alguns indicadores assim o sugerem, bem como a quantidade de surpresas registadas. Mas manda a História aguardar pelo desfecho antes de tomar uma decisão.

“…Apenas para aqueles que têm verdadeira paixão pelo futebol”, repetem por estes dias os comentadores televisivos de forma insistente aquando das transmissões do maior evento futebolístico (e provavelmente desportivo) do mundo. A frase não será talvez muito avisada quando repetida num canal de televisão que busca audiências. Até porque o Campeonato do Mundo é talvez o evento futebolístico de interesse mais alargado que existe, atraindo franjas de audiência que normalmente não acompanham as competições de clubes, mesmo as internacionais. O Mundial é a verdadeira expressão universal do futebol e serve muitas vezes de porta de entrada dos mais novos, bem como dos late adopters, à paixão pelo desporto-rei.

Posto isto, a qualidade de um Mundial, e deste em particular, é importante. Num contexto de crescente descredibilização da FIFA aos olhos do adepto do futebol e após todos os problemas sociais que o antecederam, o Brasil 2014 pode definir, em parte, o que sucederá no futebol nos próximos anos, pois a cada torneio é produzido um relatório técnico detalhado que motiva reflexão interna no órgão máximo do futebol, ainda que infelizmente resulte em escassas e lentas melhorias.

Na hora de comparar torneios havia que encontrar um critério uniforme e coerente. Decidimos assim comparar dados com base nos Mundiais que podem ser considerados como integrantes do “futebol moderno”. O conceito de modernidade escolhido assentou, ainda que subjectivamente, no momento da introdução da regra do atraso ao guarda-redes, provavelmente a alteração às regras com influência mais profunda no futebol deste a introdução em 1970 do uso de cartões na acção disciplinar. Esta alteração deu-se em 1992 e afectaria já o Mundial de 1994 nos Estados Unidos, o último também a ser disputado por apenas 24 equipas. O critério é subjectivo mas é um critério. Passemos então à análise do Brasil 2014 à luz dos Campeonatos do Mundo dos últimos dez anos, com os dados intercalares relativos ao término da fase de grupos.

Clique na imagem para ler em detalhe (foto: Shutterstock/ / Infografia: GoalPoint)

 A essência do futebol

Começamos pela essência do futebol: o golo. O Mundial do Brasil apresenta neste momento uma média de 2,83 golos por jogo, um número impressionante ainda que já inferior ao registo acima dos três golos registado durante alguns dias. Ainda assim esta média situa-se neste momento com a melhor desde 1994 (2,71) e do que França (torneio já com 32 equipas) com 2,67. A média actual de golos é, no entanto, passível de maior valorização por incluir até agora apenas nove grandes penalidades (o registo mais baixo é precisamente de 9 em 2010), longe das 15 assinaladas nos Estados Unidos e 17 apitadas em França, ainda que contemple também o número mais elevado de autogolos (quatro), igualando já o número atingido em 1998. Poderá este número melhorar? A História diz-nos que não pois a média de golos costuma cair duas a três décimas até final do torneio, em virtude dos jogos teoricamente mais equilibrados e cautelosos que caracterizam as fases a eliminar, raramente marcadas por goleadas significativas. É razoável esperar que a média de golos marcados no Brasil se situe em definitivo entre os 2,6 e 2,75 quando soar o apito final no Rio de Janeiro.

Para lá dos golos, o torneio de 2014 “brilha” também por um menor número de cartões mostrados, com uma média de 2,7 amarelos e 0,2 vermelhos por jogo, a mais baixa de sempre caso os valores se mantenham nas eliminatórias (em 2010 o número médio de amarelos cresceu pouco mais de uma décima, enquanto a média de cartões vermelhos decresceu). No capítulo disciplinar o Campeonato do Mundo 2014 está muito longe dos números elevados de anteriores edições, como os 5,05 amarelos por jogo mostrados em 2006 na Alemanha e os 0,33 vermelhos exibidos em França. Menor rigor ou futebol menos violento e com melhor qualidade? A opinião geral aponta para a segunda explicação, pese embora algumas situações graves que passaram em claro sendo a mais evidente a “dentada” de Luis Suarez a Chiellini no Itália – Uruguai.

A era do “tiki-taka”

Outro indicador positivo é o número médio de passes por equipa, que subiu de 353 em 2010 para 384 na edição em curso. Se a isto aliarmos por um lado a eliminação da Espanha e Itália, duas das selecções que teoricamente melhor representavam o futebol de posse e controlo do ritmo de jogo e, por outro, a ascensão de equipas como a Costa Rica e o Chile, fica a noção de que algumas surpresas emergentes deste Mundial não só não abdicaram de um futebol de circulação na persecução dos seus objectivos como o fizeram precisamente batendo os seus adversários com o seu próprio “veneno”.

No meio de todos os indicadores promissores acerca do Brasil 2014 sobra a excepção: o tempo útil de jogo caiu de 69,8 minutos em 2010 para 55,5 em 2014. Alguns jogos com maior número de faltas poderão ter contribuído para este registo, sendo que a introdução nos últimos jogos de pausas de jogo tornam esta quebra compreensível e pouco visível na ideia generalizada, e sujeita a confirmação, em meados de Julho, de que poderemos estar a assistir ao melhor Mundial de sempre do futebol moderno.