Uma das questões de maior debate entre os adeptos do Sporting nesta altura é a forma que Bruno Fernandes tem patenteado esta temporada. A fasquia foi colocada num patamar muito elevado pelo médio, mercê do desempenho global que registou em 2017/18, tornando-o no melhor médio da Liga NOS. Porém, a situação está diferente em 2018/19, ao ponto de o próprio jogador já ter vindo a público falar em “frustração” pela “falta de qualidade” que tem vindo a apresentar.

A questão não pode ser contornada: Bruno Fernandes não se está a exibir como na época passada, mas estará assim tão em baixo de forma? Será justo afirmar que o médio está a ter um percurso assim tão abaixo das suas possibilidade? Em que pormenores o seu futebol perdeu qualidades? A sua influência no futebol leonino perdeu peso?

Os números mostram, de facto, um Bruno Fernandes diferente. Porém, há factos ligados ao colectivo sportinguista que explicam este menor fulgor do médio. Menor, mas não ao ponto de se poder afirmar que está a fazer uma má época. Não está. Só que ninguém joga sozinho e há questões de estilo colectivo a afectarem o que o jogador faz nas quatro linhas.

VariáveisB. Fernandes 17/18B. Fernandes 17/18 7ªJB. Fernandes 18/19 7ªJ
Jogos3377
Golos1152
Assistências801
Passes para finalização p/90m2,32,13,2
Passes p/ finalização bola corrida p/90m1.040.182.06
Ocasiões flagrantes criadas p/90m0,40,20,3
Remates p/90m2,93,23,2
% Remates convertidos12,1%27,8%9,1%
Remates área bola corrida p/90m1,10,90,7
% Remates enquad. área51,5%80,0%60,0%
Remates fora área bola corrida p/90m1,61,81,9
% Remates enquad. fora área26,5%30,0%23,1%
% Remates colocados54,3%88,9%50,0%
% Remates colocados ângulo superior22,9%55,6%0,0%
Passes p/90m49,845,738,5
Passes curtos para desmarcação p/90m2,11,80,1
Mau controlo de bola p/90m1,81,23,4
Tentativas de desarme3,23,72,4
Desarmes2,02,31,8
Intercepções1,00,70,3

Fonte: GoalPoint/Opta

Para já, um olhar sobre os principais números de Bruno Fernandes nestas primeiras sete jornadas, em comparação com os das primeiras sete de 2017/18 e os totais da temporada passada.

O médio acaba por ser “vítima” da forma de jogar do Sporting, necessariamente diferente com José Peseiro em relação ao que era com Jorge Jesus, por diversos factores, como a filosofia de jogo do treinador e os jogadores que tem à sua disposição. Ao internacional português é pedido que seja uma espécie de “patrão” de toda a manobra ofensiva da equipa, perdendo, no processo, a liberdade de ocupar espaços mais à frente no terreno, numa clara ligação ao ponta-de-lança que parece perder-se neste momento – algo que abordarei mais à frente.

Importante, para já, perceber onde Bruno está diferente e, analisando a tabela acima, o cenário começa a ganhar forma. Por esta altura de 2017/18, o jogador já levava cinco golos, contra os dois desta temporada, é certo, mas a principal diferença nem é essa. O médio já conta uma assistência, faz mais passes para finalização do que anteriormente e até o número de ocasiões flagrantes é semelhante à média da época passada. O problema parece estar nas expectativas criadas com o arranque de campeonato passado, no qual o jogador arrasou em golos, remates, taxa de conversão dos mesmos, a forma fácil como os enquadrava (de dentro ou de fora da área) e como os colocava longe do alcance dos guarda-redes. Isto tudo advinha do facto de Bruno jogar bem mais próximo da baliza adversária, ainda que ao longo da prova esses números tenham “normalizado”.

A “frustração” do internacional português, e dos adeptos, tem sustentação na menor inspiração do atleta no momento do remate – muito por culpa de jogar um pouco mais longe da baliza contrária -, não pela quantidade, mas pela qualidade. Bruno tenta o remate praticamente com a mesma frequência de outros momentos, mas com menor eficácia, com especial destaque para os disparos colocados aos ângulos superiores, que se cifram em… 0%, ou na taxa de conversão dos remates (9,1%, em comparação, por exemplo, com os quase 28% das primeira sete rondas de 2017/18).

O aumento dos maus controlos de bola apontam para uma menor confiança do jogador e o facto de terem diminuído bastante os passes curtos para desmarcação sustenta a ideia de que Bruno Fernandes integra-se bem menos nas acções ofensivas junto às áreas contrárias.

“Órfão” de Bas Dost

Ninguém joga sozinho e a qualidade de quem o acompanha ou está ausente, neste caso nos momentos de finalização, acaba por afectar o rendimento do português. Falo de Bas Dost, que apenas completou duas jornadas até ao momento no campeonato, com dois golos marcados. Deste então, o desempenho do próprio Bruno Fernandes tem vindo a cair. Coincidência? Não creio.

GoalPoint-Tops-Parzinhos-LigaNOS-1718-Assistencias
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No final de 2017/18, olhámos para os “parzinhos” da Liga NOS, nos diversos momentos de jogo em que pares de jogadores mais interagiram durante a época em variáveis fundamentais. Numa dessas análises, relativamente às assistências, e como pode constatar na infografia acima, Bruno Fernandes ofereceu a Bas Dost seis dos golos que este apontou, sendo a interacção mais elevada no campeonato passado, a par de Ricardo Horta – Paulinho, no Sp. Braga.

Tal ganha mais relevo pelo facto de, à sétima jornada, Bruno Fernandes ser o terceiro jogador na Liga com mais passes para finalização por 90 minutos, nada menos que 3,2 – apenas atrás de Pizzi e Alex Telles -, mais do que registava por esta altura de 2017/18 (2,1) e que no total da temporada passada (2,3). A variável “passe para finalização” define o acto de proporcionar a um colega uma situação de finalização, pelo que a transformação deste movimento em “assistência” depende muito da qualidade com que o colega de equipa finaliza. E aqui, a ausência de Bas Dost por lesão assume um peso relevante e explica em grande medida o facto de Bruno Fernandes registar apenas uma assistência para golo nesta fase. Golo, aliás, apontado por… Bas Dost na primeira jornada, no triunfo por 3-1 em casa do Moreirense – onde Fernandes também facturou.

Em suma, Bruno Fernandes está diferente, sim, mas a meu ver devido à diferente missão que a si lhe é atribuída por José Peseiro e à ausência de Bas Dost como “parceiro” ideal para concluir com qualidade a boa quantidade de passes para finalização que o médio produz por partida. A falta de confiança de Bruno na altura do disparo, consequência de todos os factores expostos acima, acaba por afectar bastante a sua eficácia de remate, pormenor que, esse sim, justifica os reparos dos adeptos e dos próprios. Acredito que, com o regresso do holandês, o desempenho do português sofrerá um “boost” considerável. Porque um jogador com a qualidade de Bruno Fernandes não desaprende simplesmente de jogar.