A festa de campeão do SL Benfica parecia organizada como nunca um evento semelhante o havia sido cá no “burgo”. Momentos antes do deflagrar da violência dizia a amigos, em jeito de brincadeira, que dava ares de festa germânica, até um pouco monótona face a casos anteriores, tanta a organização que transparecia. Afinal, de germânica a festa teve pouco.

O GoalPointer Pedro Sousa haveria de afirmar horas mais tarde, no programa ContraGolpe (TVI), que a conclusão a retirar é a de que não é possível realizar eventos deste tipo em locais públicos urbanos e que celebrações deste tipo deveriam suceder em estádios. Tendo a discordar, embora a referência aos estádios como locais indicados para “festas” dê bons indícios para a discussão de como eventos deste tipo podem ser realizados em maior segurança.

Regressando aos germânicos. A Alemanha sagrou-se campeã mundial em Julho de 2014 e festejou o momento perante uma multidão de cerca de 400 mil adeptos (sensivelmente o dobro do número de benfiquistas reunidos ontem), precisamente num espaço público berlinense. Não houve registo de qualquer incidente. Poderia referir outros exemplos semelhantes, com multidões até maiores e perfis sociológicos diferenciados, nos quais não se registaram tumultos minimamente comparáveis com os que se verificaram em Lisboa. Em boa verdade, e abordando um exemplo de uma sociedade que, por motivos políticos, tem de lidar não só com o corriqueiro vandalismo mas também com o terrorismo organizado, não há notícia de, nos EUA, os “festins” desportivos serem remetidos para recintos por motivos de segurança. Nos sítios organizados sucede isso mesmo: organização e prevenção.

Recuperando a sugestão dos estádios (onde infelizmente também sucedem problemas suficientes e inclusive cargas polícias violentas que levam tudo a eito, como sucedeu, por exemplo, no Estádio José Alvalade em 2011), existem logo três medidas de segurança que, mais do que o recinto em si, motivam a noção de maior segurança: a realização de revistas, a proibição de recipientes de líquidos como garrafas e latas e ainda, pelo menos nos torneios UEFA/FIFA, a proibição de venda de álcool no interior do recinto. Ao observarmos as imagens do caos que concluiu a festa benfiquista no Marquês de Pombal na noite de ontem rapidamente percebemos que pelo menos duas das três medidas referidas poderiam ter minorado a gravidade dos acontecimentos, ainda que não os evitassem por completo. Até mesmo a medida aparentemente menos fácil de aplicar, o controlo e revista, poderia (e devia) ser implementado em ajuntamentos relativamente previsíveis como este, até porque caso ontem um qualquer tresloucado tivesse decidido rebentar-se em plena multidão a polícia encolheria certamente os ombros. “Em Portugal não temos disso” dirão alguns, e a polícia dirá o mesmo, provavelmente. Até ao dia.

As horas vividas na madrugada de domingo para segunda levantam diversas questões, tendo em conta até a aparente organização da festa: de onde vieram os milhares de latas e garrafas que sobrevoaram a polícia e a multidão na noite de ontem? Foram vendidas nas roulotes e quiosques de uma conhecida marca patrocinadora? Se o foram quem supervisionou os critérios de segurança associados ao licenciamento? Se não o foram, como é possível a polícia ter permitido um ajuntamento desta dimensão sem realizar qualquer tipo de monitorização?

As imagens não deixam dúvidas de que, entre os muito milhares de adeptos desejosos de apenas festejar, militavam também os habituais elementos problemáticos disponíveis para o confronto e desafio à autoridade caso o ambiente seja propício. Mas isso não será novidade para quem tem a responsabilidade de superintender a segurança de um ajuntamento desta dimensão num espaço público nem serve de resposta às muitas questões que ficam por responder e que, até respondidas, vão dando a ideia de que, de germânicos, temos de facto muito pouco.

A estas questões somam-se ainda as levantadas pelas intervenções policiais ocorridas ainda durante a tarde, nas imediações do Estádio D. Afonso Henriques. Que todas elas tenham resposta, de modo a que continuemos a ter confiança em quem tem a missão de nos proteger, até na hora de celebração, e que possamos continuar a festejar sucessos desportivos sem ficarmos à eventual mercê do vandalismo de uns e da incompetência de outros.

PS – Já após a redacção deste artigo fui informado por adeptos benfiquistas presentes que foram efectivamente vendidas latas, garrafas e bebidas alcoólicas no local sem qualquer limitação aparente. Que as óbvias falhas de organização e prevenção sirvam já de lição para preparar melhor outro clássico da péssima organização nacional neste tipo de eventos, a Taça de Portugal, disputada no Jamor, onde certa vez vi falecer um pai de família a poucos metros precisamente pelos mesmos indícios de incúria que pelos vistos identifiquei acertadamente ontem, pela televisão.