Até perto do Natal, o Swansea parecia ser a equipa da Premier League mais perto para uma descida de divisão. Em vinte partidas, os homens do País de Gales tinham apenas 13 pontos – cerca de 0,65 pontos por jogo –, para além de apenas 11 golos marcados. No entanto, tudo mudou quando aterrou no Liberty Stadium o presente Natalício dos “Swans”: Carlos Carvalhal.

Acabado de sair do Sheffield Wednesday, onde tinha passado os últimos dois anos e meio, o técnico Português revolucionou por completo o ambiente que por terras galesas se ia vivendo, ao trazer o Swansea das profundezas da zona de descida para um impressionante 14º lugar, tendo acumulado 18 pontos em apenas dez partidas. Os golos foram 14, mais três do que os técnicos anteriores tinham conseguido extrair da equipa no dobro dos jogos. Vamos então tentar descobrir que alterações trouxe Carvalhal à equipa para conseguir tão drástica mudança de resultados.

Tendo em conta que a melhoria mais drástica não está nos golos sofridos – que mesmo assim foram reduzidos de 1,6 para 1,1 por jogo –, mas sim nos marcados, poderíamos pensar que o português talhou a equipa para um futebol expansivo e ofensivo, mas tal não podia estar mais longe da verdade. Para optimizar a produção ofensiva dos “Cisnes” de 0,6 para 1,3 golos por partida, a equipa técnica de Carvalhal investiu no solidificar do seu momento defensivo.

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A onze-tipo de Carlos Carvalhal, à excepção de Tom Carroll no lugar de Leroy Fer

 

Na grande maioria das partidas, projectou a sua equipa com uma linha de cinco defesas, tentando defender em número, de forma bastante recuada, e partir em transição com perigo. Se o Swansea já tinha a pior média de remates das cinco principais Ligas europeias, com Carvalhal ao comando este desceu ainda mais – de 8,6 para 7,7 por jogo – e atingiu o seu expoente máximo no fim-de-semana passado, com o empate a 0-0 no terreno do Huddersfield sem qualquer tentativa de remate.

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Os zero remates do Swansea em Huddersfield foram recorde da época a nível europeu

 

Em vez de tentar revolucionar por completo o jogo da equipa a meio da temporada, o treinador alinhou e tornou mais eficiente aquele que já estava em vigor. Há menos remates, mas os poucos que são feitos são mais bem executados e em melhores posições. As ocasiões flagrantes quase duplicaram, de 1,0 para 1,6 por jogo, e agora só sete equipas no campeonato criam mais ocasiões claras de golo que os galeses de Carvalhal.

No entanto, mais do que criar estas situações, o Swansea passou a finalizá-las como ninguém. Desde a jornada 21, quando Carvalhal entrou, os “Swans” converteram 63% das ocasiões flagrantes que tiveram disponíveis – não só é um aumento enorme dos 26% que a equipa tinha anteriormente, como é de longe a melhor equipa da Premier League nesta estatística.

EquipaOcasiões Flagrantes Criadas% Conversão
Swansea (com CC)1,663%
Bournemouth1,050%
Everton1,349%
West Ham1,348%
Man City3,547%
Swansea (pré CC)1,026%
Crystal Palace1,823%
Southampton1,321%

Médias por jogo (Fonte: GoalPoint/Opta)

A explicação para tal estará relacionada com vários factores, alguns deles difíceis de medir, como a sorte e o nível motivational, mas, tendo em conta que quase triplicaram os seus remates convertidos e elevaram substancialmente as suas percentagens de remates enquadrados (de 32% para 48% dentro da área, e de 15% para 23% fora da área), parece-me provável que o momento de finalização tenha sido trabalhado por Carvalhal. Por a amostra de jogos ainda ser relativamente pequena, acredito que os números mais impressionantes irão cair para níveis mais normais, mas estará aqui uma das grandes chaves do sucesso do novo treinador.

De uma perspetiva individual, o avançado Jordan Ayew foi quem mais beneficiou com a mudança. Tal como o resto da equipa, afinou a sua pontaria à baliza, com os números a indicarem ainda uma maior participação no jogo coletivo.

Jordan AyewPré CarvalhalCom Carvalhal
Minutos1497793
Golos24
Remates na área0,91,0
% Enquadrados20%78%
Duelos aéreos ofensivos2,96,5
% Ganhos22%33%
Passes para finalização0,20,6
Dribles eficazes1,93,0
GoalPoint Rating5,406,13

Médias a cada 90 minutos jogados (excep. Minutos e Golos)
Fonte: GoalPoint/Opta

Ao analisar as estatísticas de passe do Swansea, notamos a distinção entre o sistema de construção lenta e com muito foco no passe de Clement, e o jogo mais directo e vertical instituído por Carvalhal. Diminuiu drasticamente a quantidade de passes que executam por jogo (menos 52 com Carvalhal), mas a quantidade de passes para a frente mantém-se similar, tendo cortado maioritariamente nos passes laterais. Aumentou a percentagem de passes longos (de 15% para 20%), de modo a chegar o mais rapidamente possível ao meio campo contrário, e a eficácia de passe caiu um pouco como seria de esperar, já que a equipa tenta agora passes mais arriscados com maior frequência.

No miolo, Ki Sung-Yueng tem estado em destaque. Após um período de lesão, o sul-coreano tornou-se pedra basilar do meio-campo de Carvalhal, tendo sido outro dos jogadores que mais beneficiou com a chegada do novo técnico. Para além de ter contribuído com dois golos e duas assistências em 2018, o médio é o grande coordenador do jogo com bola da equipa. Destacando-se pela sua eficácia de passe, ainda mais à medida que se avança no terreno: os seus 83% de eficácia de passe no último terço são números impressionantes. Com o Mundial à porta e Ki a ficar sem contrato no Verão, acertar a sua renovação seria um grande passo fora-de-campo por parte da equipa técnica portuguesa, mas o Milan está na corrida.

Por fim, no que toca ao momento defensivo, as maiores diferenças nos números encontram-se não nos números mais relacionadas ao jogo físico e individual, mas sim nas que envolvem um entendimento colectivo e posicional. Intercepções (15% a mais), foras-de-jogo provocados (o dobro) e passes bloqueados (42% a mais) foram as variáveis nas quais surgiu um maior aumento, mas o mais impressionante é mesmo a quantidade de dribles consentidos ter caído quase para metade (de 10,2 para 5,9 por jogo). Para se ter noção, a melhor equipa da Premier League neste aspecto (Tottenham) consente 8,3 dribles por jogo.

Em menos de três meses, Carlos Carvalhal virou do avesso aos resultados do Swansea ao ajustar os seus processos à sua qualidade e à dos seus adversários e, ao contrário do que o próprio possa pensar, é possível “contar a história” com estatística. O português organizou a sua linha defensiva, tornou objectiva a equipa com bola e viu os golos começarem a aparecer lá na frente. Porque não ficava bem terminar um artigo sobre Carvalhal sem uma analogia, podemos dizer que o português percebeu que não tinha cães e foi caçar com gatos, e o que é certo é que tem “mordido” muito mais pontos.