Como podem os adeptos revolucionar o futebol?

 

Adeptos do Legia protestam contra a UEFA (foto: LW oficial)
Adeptos do Legia protestam contra a UEFA (foto: LW oficial)

Petições. Abaixo-assinados pela verdade desportiva. Movimentos de contestação. Vários modelos já foram seguidos, uns mais estruturados, outros mais independentes, outros ainda mais associados a iniciativas tácticas do momento e menos a objectivos estruturados tendo em vista o futuro. Uns versando mais a alteração dos regulamentos ou introdução de novas tecnologias, outros buscando algo mais difícil de definir ao qual chamamos a “verdade desportiva”. Pesem as diferenças, todos partilham um denominador comum: resultados nulos ou perto disso.

É necessário compreender o futebol

Porque não atingem estas iniciativas qualquer resultado? O principal erro assenta no facto de ignorarem quase por completo a forma como o futebol se organiza. O futebol não é democrático, não é eleito e não é nacional. Logo qualquer iniciativa “local” que vise alterações profundas nos principais problemas do futebol ganha, logo à partida, uma elevada probabilidade de total insucesso. Quanto mais depressa os promotores de desejadas alterações no futebol compreenderem o carácter corporativo e internacional que preside às (raríssimas) transformações no futebol melhor preparados estarão para as promover.

O poder dos adeptos

E os adeptos, os que pagam e no fundo corporizam a dimensão global do desporto-rei, o que podem eles fazer? A resposta é… tudo. Mais até do que os dirigentes envolvidos no fenómeno. Basta que se organizem, formando grupos de pressão cuja agenda esteja devidamente definida e organizada. E para tal não é sequer necessário uma grande complexidade e recursos que não os que derivem da necessária existência de um grupo que “puxe a carroça” e promova a identificação dos demais em redor de uma “wishlist” de alterações.

As ferramentas

A (rara) utilidade construtiva das redes sociais ganha, neste contexto, um propósito. As mesmas permitem não só a reunião de indivíduos que partilham as mesmas convicções como também a difusão rápida de ideias, planos e iniciativas. As redes socais constituem também uma das mais eficazes armas na defesa dos interesses do cidadão perante marcas, instituições ou organizações. Quem já experimentou fazer valer, de forma fundamentada, as suas reclamações/reparos junto de marcas de referência usando as redes sociais conhece perfeitamente a sua eficácia e o respeito que elas imprimem hoje na agenda de marketing das grandes marcas. As ferramentas existem e não são complexas, inacessíveis ou sequer caras.

E por fim… o foco

Uma vez definido o objectivo, a agenda e conquistada a dimensão, é necessário definir a acção, onde deverá o “lobby” fazer valer a sua visão para o futebol. E aqui reside outro erro clássico deste tipo de iniciativas, que aponta erradamente e de forma directa às instituições que corporizam os pontos de discórdia (FIFA, UEFA, Ligas Nacionais, Associações de intervenientes no fenómeno, etc). A solução não passa por lançar petardos à porta da sede da FIFA mas sim dirigir uma pressão organizada, coerente, estruturada junto da fonte da qual bebe todo e qualquer organismo que detém o poder de nos entregar o futebol que desejamos: os patrocinadores, os mesmos que no desempenho da sua actividade já respeitam suficientemente o poder dos cidadãos, individuais ou organizados, manifestado através das redes sociais.

Recentemente, e (ainda) sem qualquer influência organizada por parte dos adeptos, foi dado conhecimento mediático das preocupações dos patrocinadores para com as “turvas” questões de transparência que rodeiam a FIFA. Nenhum patrocinador quer estar associado a questões nebulosas (nem mesmo as mais comezinhas, como o exemplo de Tiger Woods pode ilustrar). Os patrocinadores estão alerta e sensíveis ao tema.

Por outro lado, conforme artigo aqui publicado, 35% das receitas da FIFA advêm directamente dos patrocinadores. O mesmo sucede (por vezes em maior percentagem, quanto menor é o valor dos direitos televisivos e/ou outras receitas angariadas) por parte da UEFA, Ligas e federações locais, etc. Esta é a dimensão exacta do poder dos adeptos. Saibam estes organizar-se, definir agenda, veiculá-la de forma séria e pressionante sobre quem financia boa parte dos organismos capazes de transformar o futebol e não haja dúvida que nada será igual.

O futuro do futebol depende de nós. Basta que saibamos o que queremos, o que me parece o desafio maior de todos, maior ainda do que o de provocar alterações no futebol que hoje conhecemos, toldados que somos pelas agendas particulares dos nossos clubes em prejuízo do que realmente faz falta para que o futebol seja não só o maior mas também o melhor desporto do Mundo.