Craque do Dia | Como De Bruyne virou um jogo do avesso 🙃

-

Quando o Dinamarca-Bélgica começou, poucos imaginariam que a grande figura do sétimo dia de EURO 2020 seria Kevin De Bruyne. O médio belga começou a partida no banco e não entrou sequer na primeira parte de um jogo marcado por homenagens a Christian Eriksen. A Dinamarca chegou ao intervalo a ganhar e a dominar completamente… até que entrou o jogador do Manchester City e tudo mudou. O que se seguiu faz já parte da História deste Europeu, com uma exibição portentosa que tudo virou do avesso. E os GoalPointers sabem reconhecer um desempenho acima da média, elegendo De Bruyne como Craque  do Dia, com 83,3% dos votos.

Os dados essenciais da partida mostram desde logo o impacto que o criativo teve nos acontecimentos. A sua clarividência, inteligência e forma como antecipa as jogadas fazem dele, provavelmente, o melhor “10” do Mundo, e esse facto notou-se de imediato, não só na forma como tratou a bola e decidiu, como também pelo posicionamento que adoptou.

GoalPoint-Denmark-Belgium-EURO-2020-MVP
Clique para ampliar

Com a entrada de De Bruyne, a Bélgica passou a ter um homem em zonas que antes não tinha, e praticamente livre de marcação, uma vez que os dinamarqueses nunca se conseguiram adaptar a essa circunstância. Resultado? Critério com bola, decisões perfeitas, um golo em dois remates (ambos enquadrados), uma assistência em dois passes para finalização, duas ocasiões flagrantes criadas e cinco dribles completos em cinco tentativas (mapa em baixo, à direita).

[ À esquerda todos os 26 passes de De Bruyne, à direita os drible, todos completos ]

A eficácia global de passe de Kevin não foi extraordinária – não passou dos 73% -, em grande medida devido à sua apetência para tentar passes longos (falhou apenas um de quatro) e de risco (falhou dois), mas como se pode constatar no mapa de cima, à esquerda, quando o passe “entra”, o perigo acontece, e a única entrega que fez na grande área, ali bem destacada, foi consequência de uma simulação de remate, seguida de um passe mortífero para o 1-1.

[ A extraordinária jogada do 1-1 ]

E nota-se também que o médio tinha a lição bem estudada: muitos passes a partir da zona central quando no seu próprio meio-campo, muitos a partir das alas, para onde descaía já no meio-terreno contrário. Voltamos então ao tema do posicionamento.

[ À esquerda o “heatmap” de De Bruyne, à direita as 36 acções com bola ]

Como se confirma pelo “heatmap”, mas também pelo mapa das acções com bola (ambos em cima), De Bruyne sabia claramente quais os terrenos que devia pisar. Nos momentos sem bola, no meio-campo belga, Kevin posicionou-se quase sempre no eixo central, preparado para ser mais um elemento de pressão sobre a construção dinamarquesa, ocupando espaços vazios, entre linhas, para receber de imediato passes de colegas aquando da recuperação de posse.

[ O lance do 1-2 ]

E em posse, já no meio-campo contrário, o médio do City tornou-se uma espécie de vagabundo, sempre fugindo às “multidões”, dando linhas de passe, inclusive nas alas, onde tão bem sabe jogar. A Dinamarca nunca o compreendeu e deixou o “diabo vermelho” andar à solta e pagou um preço alto por isso. Kevin aproveitou e virou por completo um jogo que estava a ser um desastre para os belgas, e acabou por ser de satisfação e apuramento para os oitavos-de-final. Parece tão simples…

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.