Após 14 jornadas, a Liga russa parece já estar longe das mãos do vice-campeão CSKA. O Zenit lidera com seis pontos de vantagem em relação ao segundo, o Krasnodar, sendo estes seguidos de Lokomotiv e Rostov – o CSKA aparece só em quinto na tabela, a oito pontos dos líderes, que bateram na última jornada.

Mas nem por isso os homens de Moscovo, agora comandados por Viktor Goncharenko, deixam de ser uma equipa de interesse. Para além de já terem batido o Real Madrid na Champions esta época, possuem uma particularidade relevante: 14 dos 21 jogadores utilizados no campeonato até agora têm 23 anos ou menos. A equipa, cujo nome em anos recentes invoca imediatamente imagens dos “velhinhos” Berezutsky, tornou-se agora num terreno fértil para o crescimento de jovens talentos e já mereciam o foco na nossa secção de scouting.

GoalPoint-CSKA-Real-Madrid-Champions-League-201819-RatingsGoncharenko tem-se dividido entre o 3-5-2 e o 4-2-3-1, mas, independentemente da forma como a equipa se dispõe em campo, vai mantendo sempre a ideia de que os laterais são os elementos que oferecem largura com bola, deixando os criativos tomar conta do corredor central. E é bem pelo centro do terreno que têm brilhado quase todos os jovens craques que neste artigo vamos focar.

Defesa de Becão

A análise começa a partir de trás, onde está Rodrigo Becão, um defesa-central de potencial muito interessante. Com 22 anos está a fazer a sua primeira temporada fora do Brasil, emprestado pelo Bahia, clube que, após esta temporada, irá certamente fazer um lucro interessante com o atleta. A actuar a central do lado direito – seja com um ou dois parceiros de posição –, destaca-se de forma impetuosa no momento defensivo: com uma combinação de 2,9 tentativas de desarme por 90 minutos, apenas 18% de desarmes falhados e 2,3 intercepções, mostrando ainda solidez no jogo aéreo (65% de duelos aéreos defensivos ganhos). Arrisca por vezes um pouco demais, com a tendência para ver cartões amarelos (0,4) e mais perdas de posse em “zona proibida” (1,5 no primeiro terço) do que qualquer treinador gostaria, mas são arestas naturais a limar para um jovem defesa na sua primeira época na Europa.

Bem perto do brasileiro encontra-se Hordur Magnússon que, com 25 anos, é o único da nossa lista a sair da definição de “jovem talento”, mas cujos números são demasiado interessantes para não serem mencionados. Oriundo do Bristol City após jogar o Mundial pela Islândia, mostra-se como o elemento que joga tanto a central-esquerdo no trio como a lateral-esquerdo numa defesa a quatro. O canhoto de 1,90m, que passou pela formação da Juventus, junta à capacidade aérea (73% duelos aéreos defensivos ganhos) a números de passe longo do “outro mundo” em quantidade e qualidade: 30% dos seus passes são longos e acerta 47% dos 8,3 para o último terço, um autêntico especialista a lançar colegas a partir de trás.

“Miolo” promissor

Até pela rotatividade do meio-campo, é nesta zona do terreno que encontramos mais jogadores merecedores de reconhecimento, mas o destaque maior vai para Ilzat Akhmetov e Nikola Vlasic. Azhmetov, internacional russo por seis vezes aos 20 anos, é um talento especial que se evidencia no momento de construção da equipa – na altura de verticalizar através do passe, mantém eficácia elevada em passes para a frente (67%), passes no meio-campo adversário (78%) e passes longos (70%). Mostra ainda uma elevada qualidade na progressão, completando 80% das suas 1,5 tentativas de drible – um rácio óptimo para quem joga “no trânsito” do meio-campo. E, uma vez que já jogou como médio mais recuado da equipa, não deixa de se mostrar sem bola – com muitas recuperações de posse e poucos desarmes falhados.

Já Vlasic está emprestado pelo Everton, de Marco Silva e, apesar de não ter conseguido impressionar na Premier League, tem tido tanto destaque na capital russa que já terá Roma e Inter prontos para avançar para a sua contratação. A actuar agora mais no corredor central, maioritariamente como médio-ofensivo, soma três golos e uma assistência, números que não são o cartão de visita mais apelativo. Porém, ao mergulhar nos seus dados, entendemos rapidamente a facilidade que tem em criar situações para si e para os colegas de equipa. Aos seus 2,7 remates de bola corrida junta 2,2 passes para finalização, também de bola corrida, e 76% de eficácia de passe mesmo no último terço. Tudo para além de uma capacidade drible bem acima da média – completando 69% das suas 3,3 tentativas, sucesso que desce apenas para 68% no último terço –, que já era demonstrada no campeonato inglês.

Ainda no “miolo” da equipa, o esloveno Jaka Bijol (19 anos) mostra ser um pouco mais limitado que os seus colegas de posição, mas vai-se impondo como um recuperador de bolas puro que ainda carrega enorme poderio no jogo aéreo. Já Kristijan Bistrovic entra na linhagem criativa do seu compatriota, já com dois golos e outras tantas assistências, para além de números de interesse – mas a menor quantidade de minutos jogados torna mais difícil a sua avaliação.

Chalov, o “atirador furtivo”

Por fim, saltamos até ao sector mais avançado para falar do melhor marcador do campeonato: Fedor Chalov. O jovem de 20 anos da formação do CSKA esteve na pré-convocatória para o Mundial 2018 mas ainda não é internacional pela principal selecção do seu país. Já ultrapassou o seu total de golos e minutos da temporada passada e faz quase metade (47%) dos golos do seu clube no campeonato. Um autêntico “atirador furtivo”, Chalov enquadra 52% dos seus remates com os pés na área e 56% dos seus disparos de fora de área.

Com um volume de 3,6 remates (2,5 na área) e grande capacidade de chegar a ocasiões de qualidade – lidera o campeonato em expected goals por 90 minutos, com 0,63 –, é um “pacote completo” no momento do remate. Mostrando dificuldades claras no jogo aéreo (12% duelos aéreos ofensivos ganhos), compensa com 1,7 passes para finalização de bola corrida para os seus colegas – um avançado de bola no pé.

Com um modelo de jogo interessante, inserido numa Liga competitiva, Goncharenko está a moldar uma fornada de talento cada vez mais preparada para voar para outras Ligas. Um projecto a manter debaixo de olho.