Das “cruzadas” jornalísticas contra clubes

Também existe intolerância imbecil no futebol
Também existe intolerância imbecil no futebol

O mundo (civilizado) ainda recupera, em choque, dos acontecimentos de Paris. Um pouco por todo o lado espalham-se as iniciativas e mensagens de solidariedade, por um lado, e as manifestações de revolta e inconformismo, por outro. A liberdade de expressão, num contexto lato, e a imprensa livre, num sentido estrito, foram atacadas de forma violenta, selvagem e inexplicável. No entanto, no meio da perplexidade para com estes acontecimentos, recordei-me de algumas mensagens em redes sociais que li recentemente, de cidadãos anónimos, portugueses e, supostamente civilizados, e uma delas em particular abriu as portas da minha memória: “esses jornalistas desportivos deviam ser pendurados no próximo jogo à porta do estádio”.

Ao relembrar e partilhar este paradoxo não pretendo com isso enunciar a irracionalidade e incoerência humana pois sobre isso existem especialistas e literatura bem mais fundamentada que qualquer artigo que eu pudesse escrever. Mas pretendo com isto abrir um tema que ciclicamente vai tendo a sua manifestação, ora com este clube ora com aquele, no contexto do futebol que, talvez atrás da religião, raça e política mais propenso é à estimulação da estupidez e radicalismo do homem enquanto ser social.

Não tenho especial carinho por jornais desportivos e nunca trabalhei ou colaborei com um, embora saúde a riqueza de opções e conteúdos que temos nesse domínio em Portugal. Reconheço e identifico até os problemas graves do jornalismo desportivo, que decorrem de uma dependência óbvia (que ao contrário do que se imagina funciona nos dois sentidos) de clubes, competições e intervenientes diversos no fenómeno, o que por vezes pode constituir um obstáculo ao exercício de uma maior objectividade e independência. E se o futebol exerce sobre o cidadão comum desatento uma incontrolável sedução de estupidificação da realidade é por demais natural que, por vezes, editores, jornalistas e colunistas (estes com maior justificação) se deixem afectar com a mesma facilidade pelas suas paixões, opções e simpatias.

Mas há uma coisa que sei não acontecer num jornal desportivo cujo nível mínimo de credibilidade lhe tenha valido a sobrevivência em tempos difíceis para os media, como os de hoje: os jornais desportivos não mentem, não inventam, nem fabricam notícias sem qualquer ligação à realidade. Quem já passou pelo futebol ou pelos media sabe que só existe uma razão pela qual um jornal desportivo noticia informação teoricamente indisponível por mera observação dos factos ao adepto comum: porque alguém lhes “oferece” uma informação. Esse alguém pode ser o departamento de comunicação de um clube, um treinador, um jogador ou um dirigente que, mesmo desalinhado, decide partilhar informação. Todos eles o fazem com um objectivo, e ao jornalista cabe, no cumprimento da sua obrigação, validar o melhor possível a veracidade dos factos que lhe são confiados. Na nossa imaginação clubística, podemos recorrer ao JRR Tolkien que há dentro de nós e imaginar fantasiosas campanhas, acertadas em reuniões de redacção, com o objectivo de destruir o emblema que tanto amamos, ignorando em toda a nossa imbecilidade momentânea que tal desígnio colocaria em causa o negócio de quem o congeminasse. Mas essas teorias da conspiração não passam, garanto (por experiência própria), de fantasias. Não que não existam campanhas, teorias e estratégias na base da divulgação de informação aos media. Claro que existem. Mas essas são definidas pelas fontes, no cumprimento dos seus objectivos, e não pelas redacções que, em toda a sua imperfeição, procuram cumprir a sua missão, dando sequência à informação recebida.

Enquanto meros adeptos e apaixonados pelo futebol, mesmo que o coração nos bata mais forte por um determinado símbolo, devíamos olhar qualquer informação que nos pareça incómoda com o espírito crítico que exigimos precisamente aos jornalistas, questionando-nos “porquê?”, “a quem interessa esta notícia?”, “porque estou a saber disto neste momento e não noutro?” e tantas outras questões que, num processo de eliminação, nos ajudarão mais facilmente a perceber o mundo que nos comunicam e a origem dessa comunicação do que, quais trogloditas, exigirmos genericamente a “forca” para os jornalistas para passados uns dias, desavergonhadamente publicarmos no nosso mural a mensagem “Je suis Charlie”.