Devaneios tácticos

foto: João Trindade
foto: João Trindade

Esta época temos assistido a alguma inconsistência táctica por parte de treinadores que no passado demonstravam ser autênticos estrategas nas suas equipas, quer na sua capacidade para explorar as fraquezas dos adversários em contra-ataque, quer no potenciamento das características dos seus jogadores ao máximo, ou simplesmente por ter um futebol adequado e bem delineado.

Entre os visados há vários nomes, quer a nível de Liga portuguesa, quer internacional: Marco Silva, Jorge Jesus, Jürgen Klopp ou até mesmo Brendan Rodgers.

Mais do que algum desapontamento em relação a estes senhores do futebol, sinto uma desilusão profunda por estarem a ser obstinados e irrealistas quanto ao futebol que as suas equipas praticam. Será por factores simplesmente ligados ao treino e dinâmica pedida, será por factores externos à equipa? Só eles poderão responder. Mas vamos então analisar cada caso:

Marco Silva, o apagão da mobilidade

Quanto ao timoneiro do Sporting, na minha opinião o problema é claro: vemos um Adrien cansado que erra demasiado, um João Mário que destila classe mas está em baixo de forma e um William perdido no mapa táctico da equipa. Analisando o momento actual dos “leões”, podemos observar que estes estão a voltar à dinâmica de jogo pobre que exibiam nos primeiros tempos da época… Um futebol lento e previsível que pecava em relação ao futebol posicional de Leonardo Jardim, pelo envolvimento dos médios-centro nos corredores laterais. A meio desta época deu-se um click em Marco Silva, começámos a ver um Adrien sempre a dar uma linha de passe na ala, João Mário a fazer movimentos de rotura nos corredores laterais, um ponta-de-lança a jogar bem no apoio como jogador-alvo e os extremos a desequilibrar fazendo diagonais mortíferas. Contudo, nos últimos jogos houve um desaparecimento de toda esta mobilidade, e vemos um futebol em posse sem magia nem trabalho de fundo.

Jorge Jesus, embirração sempre “directa”

Jorge Jesus é, sem dúvida, um dos bons treinadores da Liga portuguesa, consegue tirar o melhor dos seus jogadores mesmo em posições que não eram as suas de raiz e demonstrou em diversas épocas um futebol ofensivo infalível. Contudo, esta época por vezes vê-se uma fixação em demasia pelo futebol directo para Talisca e outros avançados, e uma fé desmensurada nas qualidades individuais dos seus jogadores. Uma equipa como o SL Benfica, que já vimos ter grandes momentos de futebol atacante, não pode ser uma formação  de kick and rush que se baseie tanto nos desequilíbrios do mágico Gaitán ou do imprevisível Salvio, já para não falar nos momentos de epifania do grande pontapé-canhão de Talisca. A fraca aposta em jogadores como Gonçalo Guedes, João Teixeira, João Nunes ou até mesmo Nélson Oliveira é outra embirração e irritação que não compreendo de todo deste experiente treinador português.

Jurgen Klopp, a regressão do “mestre”

Um dos casos que mais me surpreende nesta análise táctica é o de Klopp.
A meu ver um dos melhores treinadores a nível mundial e que esta época luta por não descer de divisão na Bundesliga. Penso que, contudo, o problema é até bastante simples e tem como pilar duas justificações. A primeira é a grande quantidade de lesões que o plantel do Dortmund sofreu esta época, jogadores influentes como Hummels, Gundogan, Reus, entre outros, apresentaram lesões graves desfalcando a equipa por bastante tempo.

Mas claramente o problema maior reside na mudança do estilo da equipa. O Dortmund de épocas passadas, com este treinador carismático, baseava a sua dinâmica num método defensivo à zona em 4x5x1, que era muito agressivo e organizado no pressing. Era uma equipa perfeitamente rotinada e equilibrada que era uma autêntica muralha defensiva e que originou o famoso termo gegenpressing, e que no momento ofensivo dinamitava os adversários com um contra-ataques fulminantes e perfeitamente coordenados. Hoje em dia, o Dortmund insiste em jogar um futebol mais apoiado, em ataque posicional, que é completamente desvirtuado e mal executado.

Brendan Rodgers, confusão milionária

Um dos treinadores-sensação das últimas épocas na Liga inglesa e dos que mais subiu a pulso foi Brendan Rodgers, o treinador do Liverpool. Após épocas de sucesso no Watford, Reading e Swansea chegou ao Liverpool e desde logo fez um upgrade, quer na dinâmica da equipa, quer mesmo na filosofia da mesma. Um futebol muito atractivo e móvel, onde Gerrard, com toda a sua experiencia, comandava o meio-campo, Coutinho brilhava com toda a sua técnica e criatividade na construção alta e Luis Suárez emparelhava com Daniel Sturridge numa dupla atacante de fazer tremer qualquer oponente. Contudo, em 2014/2015, após ter gasto centenas de milhões de euros em transferências como Llalana, Markovic, Lambert ou Lovren, vemos um Liverpool apático e pouco agressivo, que demonstra estar uma confusão de equipa. Falta claramente uma ideia de jogo bem definida e sobretudo adaptada aos seus jogadores, vemos individualidades perdidas nesta enciclopédia de futebol que é Brendan Rodgers, que parece estar perdido no meio de tantas transferências e caras novas… Assim se perde uma identidade e cultura de equipa.