O futebol português há muito que está longe de ser um paraíso de civilidade e discurso positivo. Mas mesmo os mais “antigos” adeptos terão dificuldade em recordar uma fase tão conturbada, no que toca ao discurso fora das quatro linhas. O reconhecimento do mérito do adversário nunca foi um forte dos protagonistas do futebol nacional nas últimas décadas, mas nunca foi tão grande a facilidade como, perante as adversidades, se coloca em causa a honorabilidade daqueles que, dentro de campo, disputam a bola.

Dois dias após aflorarmos o tema num artigo de opinião que visava sensibilizar consciências, surgiu mais um episódio que ilustra o que afirmamos. O presidente do Marítimo (Carlos Pereira), agastado com a pesada derrota da sua equipa frente ao Benfica (num jogo onde os insulares até entraram bem “atrevidos”), disparou sobre treinador e jogadores, conforme reportado na comunicação social, com destaque para a seguinte frase:

“(…) Não foram muitos, mas existiram jogadores que não deram tudo. Os 90 por cento que lutaram foram traídos pelos 10 por cento que não lutaram! (…)”

No dia seguinte, o médio Fábio Pacheco era impedido de treinar com o plantel maritimista, desencadeando uma sequência de notícias e reacções. À falta de um comunicado oficial do clube sobre o tema, a imprensa noticiou que a ordem foi dada pelo presidente, insatisfeito com o desempenho do jogador, em particular no segundo golo “encarnado”, no qual falhou a intercepção de um passe de Zivkovic para Grimaldo.

Quando a coisa envolve desempenho, tocam-se as “sinetas” no “quartel” GoalPoint, pelo que decidimos esmiuçar o jogo de Fábio Pacheco na Luz. Eis os resultados:

  • Nenhum jogador interceptou mais passes neste jogo do que Fábio Pacheco. Só Ricardo Valente somou tantas intercepções como Fábio, mas, curiosamente, foi o primeiro a ser substituído.
  • Nos 17 jogos em que foi titular esta época, este foi o terceiro jogo em que Fábio Pacheco interceptou mais passes. Só contra Rio Ave (6) e Braga (5) fez mais.
  • Antes deste jogo, Fábio Pacheco tinha uma média de 2,8 passes interceptados a cada 90 minutos. Contra o Benfica foram 4, ou seja, 43% a mais que o seu normal.
  • Para além de ter sido o melhor neste aspecto defensivo, Fábio Pacheco foi ainda o segundo jogador do Marítimo com mais desarmes (2), faltas cometidas (3) e aquele que mais passes acertou (16).
  • Como resultado deste desempenho, o médio fez parte do grupo de três jogadores do Marítimo com GoalPoint Rating positivo no jogo em análise.
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Não conhecemos o Fábio Pacheco de parte alguma. Este caso é apenas mais um exemplo de algo que devia terminar, este clima em que semanalmente se põe em causa a seriedade de uma das únicas classes que ainda traz algo de bom ao jogo que todos gostamos. Se tal não for possível, então que ao menos quem questiona o desempenho daqueles que pisam a relva em busca de um sonho o faça sabendo do que falam e munidos de toda a informação.