Editorial | O Real Madrid já acordou, falta o futebol português

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O Real Madrid decidiu não fazer contratações no verão de 2020. Segundo a imprensa espanhola, o director-geral dos “blancos” José Ángel Sánchez, comunicou ao plantel uma decisão que só não surpreende quem já havia percebido, nas palavras recentes de Florentino Pérez, o reconhecimento da grave situação (financeira) que os acontecimentos de 2020 trouxeram, também ao mundo do Futebol.

Em Barcelona o cenário não é muito diferente. Os catalães apresentam-se, neste momento, com um suposto investimento total de 103 milhões de euros que, na realidade, são pouco mais de 12, no pós-COVID, se descontarmos a venda cruzada Arthur – Pjanic. As dificuldades financeiras catalãs pós-COVID são há muito comentadas, sendo agravadas pelas regras estatutárias que podem obrigar os dirigentes em exercício a responder pessoalmente por resultados financeiros negativos acima do limiar definido.

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Só em Griezmann, Félix e Hazard, os “grandes” da La Liga gastaram 361 milhões na última época

Entre Real e Barça falamos de um investimento conjunto em contratações de 625 milhões na última época, que este ano se desvanece. Perante este cenário, estaremos finalmente prontos a encarar o impacto brutal que o contexto actual terá no mundo do Futebol como o conhecemos?

Pelo que vou ouvindo e lendo, aqui neste frágil mercado vendedor, concluo que não. Desde especialistas televisivos que projectam o mercado sem referir o “elefante na sala”, a adeptos que avaliam e questionam a actividade dos seus clubes no mercado como se a vida seguisse normal, o alheamento parece ser regra, resta saber se por negação ou ignorância.

Num futebol português que há muito deixou de olhar para vendas de jogadores como “receitas extraordinárias”, temo que o impacto desta negação venha a ser brutal, sobretudo junto dos clubes, dirigentes e adeptos incluídos, que se mostram incapazes de identificar rapidamente o desafio de sobrevivência que irão enfrentar, após anos de habituação à umbilical, mas não garantida, dependência das mega-transferências europeias e consequentes efeitos-dominó.

A decisão do Real Madrid é, por tudo isto, não só um alerta como, sobretudo, um exemplo. O Real que opta por este caminho (ou a ele é obrigado) é o mesmo que nos habituou a um nível de exigência e ambição tão elevados que se tornam por vezes autofágicos. E se o detentor de 13 títulos de campeão europeu toma esta decisão, isso é um toque de alvorada útil ao resto do mundo do Futebol, nomeadamente o português. O ano de 2020 não é ano de “contratar para a bancada” ou de investir no pressuposto infundado de que tudo voltará à normalidade em 2021. O dirigente e o adepto “blanco” já compreenderam isto. E o dirigente, comentador, analista e adepto português, quanto tempo mais vai precisar até o perceber, agir, avaliar e comunicar em conformidade?

Pedro Ferreira
Pedro Ferreirahttps://goalpoint.pt
Co-fundador da GoalPoint Partners, em 2014. Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting.
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