Em 2016 a GoalPoint teve a oportunidade de trabalhar em televisão com a SIC Notícias. O mérito da nossa estreia e de como a aproveitámos foi quase todo para Ricardo Costa. O director-geral de Informação da SIC deu-nos total liberdade para criar uma agenda de conteúdos centrada no EURO 2016, que permitisse à SIC Notícias diferenciar-se, num contexto que não permitia à então estação de Carnaxide apresentar quaisquer imagens do torneio, nem sequer golos.

Abraçámos o desafio com “unhas e dentes”, em parceria com a GoTV (parceira da GoalPoint desde então), e durante cerca de um mês entregámos diariamente informação e grafismos prontos a ir para o ar, desde as estatísticas imediatas pós-jogo aos melhores em campo, passando por rankings, tops, comparativos, factos do dia, recordes e análises diversas. Aos cerca de 15 temas diários enviados para a SIC Notícias somavam-se as sinopses contextuais que permitiam aos diversos pivots entender e escolher o que queriam lançar em emissão, sem necessitarem de qualquer ajuda da GoalPoint. E quando a estação colocava os seus comentadores em debate, lá estavam os oráculos “à Bloomberg”, que em vez de cotações mostravam rostos, nomes e feitos dos artistas individuais do torneio, em inúmeros rankings rotativos que demoravam longas dezenas de minutos a repetirem-se. O serviço funcionou na perfeição, nada falhou, e somando isso à importância que aquele Euro teve para todos nós, a nossa convicção de que aquele era apenas o começo era total. Mas não foi bem assim e hoje em dia só lamento não ter guardado mais “screenshots” desse projecto.

Findo o Euro, e pese o reconhecimento da qualidade e diferença que havíamos feito em conjunto, Ricardo Costa deixou claro que se nos deparava um obstáculo que se viria a revelar intransponível: a SIC Notícias apresentava uma grelha demasiado preenchida com programas fixos “de Futebol”, muitos deles demasiado parecidos. O homem-forte da SIC não queria, compreensivelmente, sobrecarregar ainda mais o canal com conteúdos futebolísticos, ao mesmo tempo que deixava claro nas suas palavras não ter condições para os trocar por novas abordagens. O tempo foi passando e nunca mais, na SIC ou noutro canal, surgiu algo semelhante ao que foi feito nesse inesquecível verão. Não voltámos a ter a oportunidade de mostrar que há espaço para algo mais, pese alguns “ameaços” e a boa relação que mantemos com praticamente todas as estações.

Há tanto para dizer e fazer, em redor do Futebol, na televisão

Quatro anos volvidos, foi o próprio Ricardo Costa a anunciar que a SIC Notícias irá descontinuar os “programas com comentadores que representam clubes de Futebol”, associando-os até ao clima de “toxicidade” que se vive no futebol português. A decisão pode ter sido demorada e, aos olhos de alguns, tardia, mas não deixa de ser um sinal muito positivo para quem gosta realmente de Futebol. Com todo o respeito pelos muitos intervenientes que participaram neste tipo de programas, muitos deles mais vítimas que culpados do formato, a existência destes programas estava assentes em praticamente tudo o que não interessa a quem realmente gosta do desporto-rei e gostaria de o ver tratado, ao nível mediático, como o é noutras culturas que, ou nunca tiveram formatos semelhantes, ou já os enterraram há muito.

A decisão da SIC é corajosa e, sobretudo, promissora. Tenham os formatos substitutos de sucesso, trazendo quiçá audiências há muito divorciadas do futebol televisivo que não o transmitido em directo, e isso poderá inspirar os canais que persistam em insistir num conteúdo defunto. Mas neste momento é justo relembrar que a SIC não é propriamente a primeira a abrir este caminho. O rumo que o Canal 11 segue, desde o seu aparecimento, foi certamente a primeira chama (que sei intencional e planeada) nesta “queimada” construtiva do que não interessa ao Futebol, ao nível do conteúdo.

Por tudo isto, e porque sempre fomos frontalmente críticos da forma como os media portugueses, em especial os televisivos, promoveram a depreciação da essência do Futebol, é por demais justo aplaudir, elogiar e até agradecer o caminho que primeiro o Canal 11 e agora a SIC Notícias decidiram trilhar, em defesa do Futebol. Para lá de aplauso, os dois projectos merecem sobretudo a atenção e audiência de todos os que querem ver o Futebol como verdadeiro tema central do conteúdo televisivo que nele encontre razão para existir. Que este seja mais um passo rumo a um Futebol português melhor.