Entre o modelo e o abismo

(foto: L. Szirtesi/Shutterstock)
(foto: L. Szirtesi/Shutterstock)

A 18 de Outubro de 2003, há quase 11 anos, o FC Porto foi ao Restelo ganhar ao Belenenses por 4-1. Questionado no final da partida pelo jornalista sobre os motivos de triunfo tão tranquilo sobre os comandados de Manuel José, o técnico portista José Mourinho disse: “Fácil. Sabíamos que eles jogavam com três centrais, então jogámos em 4-3-3.” O jornalista insistiu, notando então que o Porto tinha mudado de sistema de jogo, ao que Mourinho atirou: “Uma coisa é o sistema, outra é o modelo. E o modelo de jogo é o mesmo, só alterámos o sistema.”

Pode parecer forçado, mas este episódio surge neste artigo de opinião a propósito da selecção nacional, para ilustrar o que para muitos é um erro e um mito: a utilização quase exclusiva do 4-3-3 como sistema, modelo, ideia, estratégia – todas as denominações que podemos pensar -, como pedra basilar das selecções nacionais, dos mais novos até aos seniores. A ideia é antiga, em grande parte baseada na filosofia holandesa, que aplica os mesmos conceitos do seu futebol nos vários escalões de formação. O Ajax é disso exemplo. Mas será esta receita aplicável a todas as realidades como se de uma fórmula mágica para o sucesso se tratasse? Longe disso.

O caso alemão

“Pedimos aos treinadores e jogadores alemães para escreverem três coisas: como queriam jogar, como queriam ser vistos pelo resto do Mundo a jogar, como queriam que os adeptos alemães nos vissem jogar”, explicou Jürgen Klinsmann quando questionado sobre o início da revolução operada no futebol alemão. A ideia era simples, a de criar uma identidade futebolística na selecção germânica, um pouco como acontecia na Holanda, mas numa óptica de modelo de jogo (criando assim a tal identidade). A Alemanha criou, de facto, essa impressão digital, um ADN que deu frutos em 2014 e que se vê nos escalões jovens nas fases finais onde os germânicos vão brilhando. Mas será que usam sempre o mesmo sistema?

Desde Klinsmann a Joachim Löw, e inclusive no reinado deste, a abordagem alemã aos jogos tem mudado e altera-se conforme as necessidades. Ao longo de mais de uma década a Alemanha já apostou no sistema de 4-4-2, mudou depois para o 4-2-3-1, assumiu o 4-1-4-1 e brilhou no Brasil com um 4-3-3 extremamente maleável. O que não mudou nunca? O modelo de jogo, a forma de actuar, a sua identidade. Sempre de olho na Bundesliga, adaptando-se às tendências de sucesso, como a do Bayern de Munique. E os talentos florescem em todas as posições.

O caso espanhol

Desde que o falecido Luis Aragonés aproveitou da melhor forma o crescente potencial do modelo do Barcelona, a “la roja” viveu um período de sucesso sem precedentes, terminando, precisamente, quando os catalães entraram em declínio. O “tiki-taka” passou a ser a identidade do futebol espanhol, o seu ADN em todos os escalões de formação, com resultados visíveis. O modelo manteve-se. O sistema, em certa medida, também, pois não é um estilo de jogo que funcione em sistemas diversos. Espanha está, agora, numa espécie de limbo futebolístico, em que se notam os efeitos da adopção do “tiki-taka” como futebol único: um deles, o mais visível, é a fraca aposta em pontas-de-lança, pelo menos fixos. Com o “desaparecimento” de Fernando Torres e David Villa, Espanha está de certa forma órfã de pontas-de-lança de topo (apesar de nomes como Fernando Llorente, Álvaro Negredo ainda garantirem algumas soluções). Dá a ideia de que Espanha deixou de se preocupar em formar homens de área de nível desde que o “tiki-taka” vingou.

À beira-mar plantado

E Portugal? Onde se encaixa? Portugal abraçou o mito do sistema de jogo imutável. Desde há muitos anos que foi assumido pelos responsáveis federativos que o 4-3-3 era o sistema a usar desde as mais tenras idades até aos seniores. Esta opção tinha uma certa lógica perante o surgimento de alguns extremos como Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, Nani, no fundo beber da escola do Sporting CP. Mas quais as consequências desta opção?

Olhando para os casos descritos anteriormente, e para as sábias palavras de Mourinho, em Portugal apostou-se no sistema e não no modelo. Perante desafios e adversários diferentes, Portugal tem vivido do grande talento e inspiração das suas estrelas, criando expectativas que, em última análise, nunca foram concretizadas. Isto porque quando as individualidades não resolveram, por uma miríade de motivos, o modelo colectivo nunca soube solucionar os problemas, simplesmente porque não existia efectivamente. Quando Luiz Felipe Scolari ou Paulo Bento tentaram mudar para, por exemplo, um 4-4-2, simplesmente o colectivo não funcionou, pois não sabe jogar de forma que não seja o 4-3-3.

Pior, esta opção está a atingir fortemente a própria formação de jogadores. Em Portugal continua a haver uma procura quase obsessiva por extremos, pelo próximo ala que desequilibre e resolva, e eventualmente por um médio que transporte o jogo e dê a bola aos extremos. Os pontas-de-lança estão em vias de extinção, e os que existem não servem os interesses da equipa. Tal como em Espanha, dá ideia de que já não há a preocupação de os formar, porque simplesmente não são precisos. Os segundos pontas-de-lança de grande nível, como um João Vieira Pinto ou um Sá Pinto, já não pisam os relvados lusos, pelo menos com nacionalidade portuguesa, pois são jogadores de posições que não cabem no 4-3-3. Os números 10 à antiga, como um Rui Costa, ou um médio de fino recorte, como Luís Figo, desapareceram dos escalões de formação, pois a exigência é para ter três “todo-o-terreno” no meio-campo do… 4-3-3.

Ou Portugal faz uma inflexão drástica nesta sua visão estratégica e diversifica as valências dos seus futebolistas a formar, ou dificilmente teremos de novo uma “geração de ouro” que dê continuidade ao que de bom tivemos nos últimos 20 anos.