A notícia da operação conjunta entre o FBI e a polícia suíça, que resultou na detenção de nove dirigentes da FIFA e quatro executivos de empresas ligadas ao desporto-rei, foi recebida com optimismo pela generalidade dos adeptos do futebol. Um optimismo justificado, mas que deveria ser acompanhado de proporcional vergonha por parte de quase todos os que se incluem como parte do chamado mundo futebolístico tradicional, mas já lá iremos.

Independentemente do desfecho deste processo, nada será como dantes. No dia em que escrevo este editorial surgem já notícias de pressões dos patrocinadores da FIFA que podem levar ao abandono de Sepp Blatter (que procura resistir às sepulcrais evidências), mesmo que o emblemático líder não venha a ser “tocado” pelos procedimentos legais. Em devido tempo opinei que a falta de transparência evidente no seio da FIFA e até da UEFA só podia ser combatida precisamente onde mais lhes podia doer: no bolso. A FIFA e UEFA dependem significativamente dos patrocínios que acumulam e, após a perda de alguns desses ao longo do último ano, terão de existir sinais claros de mudança, para não suceder uma debandada geral das gandes marcas ao longo do tempo e uma quebra generalizada do valor de mercado do produto “futebol” aos olhos das grandes marcas que o suportaram durante décadas, um efeito que não afligirá apenas a FIFA, ao contrário do que agora se possa pensar. O futebol terá sempre patrocínios, resta saber se premium, como até hoje, ou de “mercearia de esquina”. Revisitar o descrédito a que chegou, em dada altura, a NBA norte-americana pode ser uma boa lição histórica para os mais autistas, um segmento que parece proliferar em Zurique há muitos anos.

Pelos pecados de poucos sofrerão muitos? Nem por isso. A culpa é de todos, não apenas de um organismo há muito corrompido mas que nunca foi devidamente confrontado pelos seus interlocutores: patrocinadores, associações, clubes e até adeptos. E se por um lado é razoável (embora não desculpável) imaginar que todo o sector associativo estaria demasiado dependente do “sistema” para agir, aos adeptos não sobram grandes desculpas para não se “mexerem” perante as evidências. A imobilidade parece alimentar a ideia de que o futebol é, de facto, o “ópio” do povo.

A realização de acções concertadas que tivessem levado junto dos patrocinadores sinais claros do descontentamento global para com o rumo que o futebol levava teriam certamente tido consequências mais rápidas, menos humilhantes e provavelmente menos gravosas no futuro do que o cenário que hoje vivemos. Ferramentas e instrumentos de pressão digitais e verdadeiramente globais não nos faltaram nos últimos anos. Ficámos quietos, encolhendo os ombros, porque em boa verdade andamos demasiado entretidos a discutir “colinhos” regionais e “tricas” clubísticas irrelevantes, como se quiséssemos esquecer que os problemas de falta de transparência, modernidade e seriedade emanam do núcleo e não das zonas limítrofes de um futebol viciado.

Tiveram de ser os norte-americanos a meter ordem no futebol, os “imperialistas” cuja fácil intromissão fora de portas gera (justificadas) antipatias noutras áreas, mas que neste caso fizeram o que o “velho” mundo tradicional do futebol nunca foi capaz de fazer, de Federações a adeptos, passando por governos e polícias. Shame on us, thanks Uncle Sam.

 

PS: Em jeito de reflexão interessa recordar que a FIFA que surge hoje sob escrutínio e suspeita por actos cometidos durante mais de duas décadas é a mesma que recentemente decidiu o término súbito (resta saber se legal) do chamado “third party ownership“, para aplauso precipitado dos que preferem sucumbir facilmente às lógicas “paroquiais” já aqui referidas a compreender o impacto total e consequências da decisão. Essa decisão, recente, foi tomada pelo mesmíssimo organismo do qual já ninguém conseguirá recordar a última decisão positiva para o futebol.