A chegada de Iker Casillas (34 anos) ao FC Porto e a posterior notícia de que os “dragões” poderiam estar interessados em Didier Drogba motivou naturais reacções de depreciação e humor em alguns adeptos, não só rivais (mais compreensível) como também no seio dos “azuis-e-brancos”.

O desdém para com jogadores “veteranos” (ou apenas vistos como tal) é mais uma característica muito própria do futebol português, um canto de futebol onde ainda há muita gente que parece acreditar que alguém ganha títulos apenas com “crianças” no plantel ou que a partir dos 29 anos todo o futebolista se devia reformar… caso jogue cá, claro. Buffon (37 anos) ainda há pouco mais de um mês disputou uma final da Liga dos Campeões e, residente no futebol italiano, será merecedor da admiração dos demais adeptos. Por cá Iker Casillas com 34 está, para alguns, “acabado”.

O próprio Didier Drogba, com 37 anos, é encarado como uma opção de segunda linha de um Vincent Aboubakar que apenas merecerá desconfiança de “turistas do comentário” que pouco informados (ou curiosos) sobre o futebol rapidamente avaliam negativamente atletas ao sabor do vento. Curiosamente o mesmo Drogba ainda ofereceu, aos 36 anos, 1148 minutos de futebol a José Mourinho, distribuídos por 33 aparições oficiais, coroadas com sete golos e duas assistências em provas como a Premier League, Liga dos Campeões e Taça da Liga inglesa.

Estes casos não são virgens, logo o que surpreende não é a crítica que, quando vinda de fora, é sustentada sobretudo no “wishful thinking” de que pouco corra bem mas sim a ignorância do passado e dos muitos casos, cá dentro e lá fora, de clubes que atingiram os seus objectivos apostando precisamente em jogadores cuja idade mereceu o franzir de sobrolho aos adeptos com menor noção histórica: um exemplo recente foi Jonas, não só “velho” como “desempregado”, no final fundamental a um bicampeonato “encarnado”. No passado identificamos o caso de Alberto Acosta, “trucidado” durante uma época pelos próprios adeptos, para nas seguintes silenciar todos os que duvidaram dos resultados que a qualidade cruzada com a experiência e aquilo que os britânicos apelidam de “work ethic” podem oferecer a uma equipa. Lá fora encontramos um caso paralelo ao de Drogba, quando o Manchester United, então ainda no seu auge, encontrou motivos para solicitar o empréstimo do avançado Henrik Larsson ao Helsinborgs quando este acumulava já 36 primaveras, estadia que apenas não se prolongou devido à vontade do jogador, que ainda assim contribuiu para a conquista da Premier por parte dos “red devils”.

O golo de Larsson (na altura com 36 anos) na estreia pelo Manchester United, ao lado de… Cristiano Ronaldo.

 

Por cá não há lugar na mente dos adeptos (e pior, de muitos “especialistas”) para Zanettis, Larssons e Drogbas. Somos um país futebolístico peculiar, no qual nunca esqueço aquela vez em que li (e reli, para ter a certeza) a crítica de Miguel Sousa Tavares à contratação de Jackson Martínez devido à sua… fealdade. Da mesma forma não parece pensar quem neste momento comanda os destinos do FC Porto, que confirmando-se apenas um ou dois dos negócios referidos, vende de imediato a aposta comercial e cria condições para implementar, no plano desportivo, uma opção estratégica que há muito demonstra ser vencedora, quando os atletas são bem escolhidos.