Se utilizam as redes sociais para acompanhar e tentar saber mais sobre a análise futebolística, por certo já se depararam com uma estatística muito popular entre analistas estrangeiros denominada de “Expected Goals” ou “xG”. Esta métrica tem ganho bastante tracção, ao ponto de já ser utilizada por clubes, mas também chegou recentemente às transmissões televisivas. Por cá, ainda não são muitos os exemplos de utilização desta metodologia, por isso tentarei com este artigo explicar o conceito e dar a entender a sua utilidade.

Nos anos 90 começámos por olhar os remates como uma das principais estatísticas para interpretação ofensiva do jogo. Essa análise começou por ficar mais subtil com a popularização do conceito de “remates enquadrados”, e hoje já é habitual encontrar os “remates dentro da área” nos habituais quadros-resumo de cada jogo. Os “Expected Goals” são o passo em frente natural nesta procura por métricas de auxílio que caracterizem com mais clareza a produção ofensiva de uma equipa. O xG (abreviatura habitualmente utilizada) atribui um valor de 0 a 1 a cada remate, consoante a probabilidade de este se transformar em golo. Então, como funciona? A Opta recolhe dados de jogo específicos há anos suficientes para podermos pegar em todos os milhares de remates executados em todos os pontos do campo, em todo o tipo de situações diferentes, e dizer que um remate de certo tipo em certo local do campo irá transformar-se em golo “x” vezes.

Um remate de longe terá obviamente menor probabilidade de entrar do que um mais próximo, tal como um remate de uma zona central será melhor que um de ângulo mais apertado, mas não só o local tem influência. A parte do corpo com que é executado (remate de cabeça tem menor margem de sucesso que um com o pé do mesmo local, por exemplo), o tipo de passe que o precede (um cruzamento ou um remate em “volley” será mais difícil do que com a bola no chão, por exemplo), a situação (há grandes diferenças entre “open play” e bolas paradas) ou a pressão defensiva sobre o avançado no momento de remate.

Expected-Goals-pic1

Diferentes modelos abrangem diferentes factores, calculando, por exemplo, a pressão defensiva de forma distinta uns dos outros, e alguns até podem diferir de Liga para Liga, de modo a se obterem resultados mais específicos. Grande parte dos modelos separa ainda os autogolos e os penáltis, por serem situações de golo muito particulares, mencionando-os à parte. Mas é este o conceito geral: mostrar efectivamente quanto cria uma equipa e quanto deixa o adversário criar, não só em quantidade, mas também em qualidade. Não só é um conceito que desmistifica frases feitas sem grande sentido como o “nesta situação o avançado tem de fazer golo”, ou o incentivo ao remate de longe devido à sua espectacularidade, por oposição ao incentivo a chegar a boas zonas de finalização, como também nos ajuda a entender as performances das equipas e jogadores com maior certeza.

Tal como os treinadores dizem, é escasso olhar só aos golos ou aos resultados. É escasso pois não encapsula o processo e porque os golos são, na maioria dos casos, dois ou três momentos de um jogo que dura 90 minutos e podem ter estado relacionados com factores incontroláveis. Os “Expected Goals” são então importantes para avaliar os resultados do processo ofensivo e defensivo de uma equipa – a criação de chances e o negar de ocasiões ao adversário –, especialmente a médio-longo prazo. É um indicador de performance de maior precisão, que também mais facilmente ajuda a prever resultados futuros. As marés de “sorte”, o “estar de pé quente”, as “hot finishing streaks” – o que queiramos chamar-lhes – são normais, mas os golos tendem a nivelar com os “Expected Goals” ao longo de períodos mais alargados de tempo, daí ser tão importante criar com qualidade. Algo que depois pode ser transferido para o processo de treino.

Na próxima página: Exemplos de Benfica, Sporting e Porto