Pode não dar em nada e não passar de uma iniciativa perdida na história do futebol mundial. Ou pode dar em tudo e tornar-se algo tão importante para o mundo do futebol como o foi a “lei Bosman”. Falo de algo que (como era previsível) os media portugueses não atribuíram suficiente relevância, mas que tem o poder de alterar por completo o panorama do futebol europeu como o conhecemos nas últimas décadas. Falo da acção submetida pela FIFPro (A associação/sindicato internacional dos jogadores profissionais de futebol) contra a UEFA e FIFA na Comissão Europeia no dia 18 de Setembro de 2015, exigindo apenas e só:

1. O fim dos pagamentos por transferências de jogadores
2. O fim dos empréstimos de jogadores entre clubes
3. A instauração de restrições quanto ao número máximo de jogadores inscritos nos plantéis (profissionais)
4 . Regulamentação/estabelecimento de limites de pagamentos a agentes intermediários (de jogadores)
5. Regulamentação/estabelecimento de limites de duração dos contratos entre jogadores e clubes

“Isso nunca vai suceder, seria a morte do futebol” dirão os mais cépticos. Talvez tenham razão. Mas recordando a última “guerra” desta dimensão em que a FIFPro se envolveu (cujo desfecho redundou na popularmente conhecida “Lei Bosman”) recomenda-se atenção, cautela e reflexão.

O FUTEBOL ESTÁ PREPARADO?

O primeiro fundamento apresentado pela FIFPro é dificilmente rebatível. Afirma a Federação Internacional de Jogadores que o actual sistema é anti-competitivo. Não restam grandes dúvidas disso e o desequilíbrio foi-se acentuado à medida que os anos foram passando, com meia dúzia de clubes europeus a destacarem-se dos demais em termos financeiros e de cujo o poder de compra todos dependem, em sistema “dominó” (um clube grande faz uma grande transacção e activa a possibilidade de ocorrerem inúmeras transacções de dimensão média/baixa como consequência). Já sobre o segundo argumento (a incompatibilidade entre o sistema actual e a lei da União Europeia) apenas os especialistas poderão opinar.

À primeira vista a alteração do sistema pode parecer dolorosa, mas benéfica no longo prazo, se sobretudo atentarmos no exemplo de Ligas/desportos onde não existem transfer fees, como sucede nos competitivos e financeiramente proveitosos desportos profissionais norte-americanos. Por lá todos os “clubes” têm o mesmo orçamento, pagam e negoceiam salários com os jogadores disponíveis, sem a existência de “transferências” como as conhecemos.

Mas ao referirmos a realidade norte-americana falamos também de uma realidade nacional, com um contexto económico suficientemente forte e uniforme q.b., que possibilita a exequibilidade do sistema. Falamos também de clubes-empresa, franchises que compram o seu direito de participação na maior competição do desporto a que concorrem, sem correrem o risco desportivo (e financeiro) de, por exemplo, “cair na segunda divisão”. Será este o caminho do futebol europeu? E será esse caminho mais equilibrado, democrático e concorrencial que o actual? O tema merece, no mínimo, algum debate.

Chelsea Manchester City
Manchester City e Chelsea são exemplos para a FIFPro de clubes com “legiões” de jogadores sob contrato e que beneficiam do sistema actual de transferências/empréstimos adulterando a competitividade

E PORTUGAL…

Portugal seria certamente afectado negativamente por esta alteração, sobretudo caso ela suceda sem o devido enquadramento internacional. Os maiores clubes portugueses, e até já os que se lhes seguem como Braga, Vitória de Guimarães, Marítimo entre outros, dependem como nunca da realização de receitas extraordinárias para fazer face aos seus orçamentos. Receitas essas possibilitadas quase exclusivamente pelas transferências, mesmo que partilhadas.

Nada como exemplificar: caso esta alteração já estivesse em vigor os “grandes” deixariam de contar com vendas milionárias e de renovar contratos com chorudas cláusulas de protecção que nada mais visam do que lançar as bases de negociação futura. O Sporting não teria, neste momento, qualquer hipótese de vender Carrillo em Janeiro. O Benfica poderia esquecer qualquer encaixe futuro com Gaitán. O Porto diria “adeus” a qualquer rentabilização de Brahimi e companhia. Os restantes clubes da 1ª e 2ª Liga deixariam de contar com os (muitos) empréstimos de jogadores que os “grandes” lhes concedem e não veriam qualquer retribuição sempre que um André André, Fábio Coentrâo ou Jefferson quisesse rumar a outras paragens, findo o seu (mais curto) contrato.

Provavelmente Portugal continuaria a receber talentos em processo de afirmação europeia, antes de prosseguirem rumo a outras paragens mais competitivas, mas acabaria por completo o retorno financeiro desse autêntico processo de formação/preparação levado a cabo pelos clubes da Liga NOS e que a coloca, actualmente, como a “melhor vendedora”, a nível mundial. E se mesmo assim as “contas” do futebol português são o que são, o que acontecerá caso a FIFPro vença mais esta batalha?

Que o sistema actual exige revisão é inquestionável. Que a solução seja a que a FIFPro preconiza, sem o devido enquadramento, período transitório e revisão, duvido muito.

Prevejo que muito em breve deixemos as “guerras de alecrim e manjerona” habituais no futebol português, para nos preocuparmos (e deitarmos mãos à cabeça) com uma ameaça bem mais cataclísmica para o (já ténue) equilíbrio económico e até sobrevivência da “bola nacional”.