Futebol português numa encruzilhada

O desaparecimento do BES tem consequências óbvias no futebol português mas representa também uma oportunidade
O desaparecimento do BES tem consequências óbvias no futebol português mas representa também uma oportunidade

A falência do Banco Espírito Santo (BES) tem sido escalpelizada ao longo das últimas semanas em diversas vertentes, incluindo a do futebol. Esta entidade bancária era um dos sustentáculos do futebol português, e com a sua queda abrupta não há forma de fugir à questão: onde se vai agora financiar o futebol português?

Bruno de Carvalho acabou de garantir à comunicação social não estar preocupado, na qualidade de presidente do Sporting, com o problema do BES (“…apenas como cidadão…”, frisou). O FC Porto continua imparável no reforço do plantel, enquanto o Benfica surge neste defeso como o “elo mais fraco” nesta eventual relação conturbada da bola com aquele banco. Sem explicações oficiais até ao momento, a venda desenfreada de jogadores aponta para que o emblema da Luz seja o mais penalizado com a queda do BES.

Há que fazer, porém, um exercício mais abrangente e tentar perceber de que forma esta situação poderá mudar a face do futebol indígena. E o cenário não parece muito animador. O Benfica foi, claramente, o primeiro afectado por esta crise bancária. Se há cerca de duas épocas Luís Filipe Vieira disse que viriam aí “tempos difíceis”, a verdade é que estes demoraram a surgir e agora, ao aparecerem, o líder “encarnado” não deixa de reflectir a imagem de quem foi apanhado totalmente desprevenido, e com ele Jorge Jesus – duvidamos que o treinador tivesse permanecido na Luz de adivinhasse o que se iria passar. Sporting e Porto parecem, para já, imunes aos que se passa, mas será mesmo assim?

A exposição de ambos ao BES é, aparentemente, menor que a do rival da Luz, por motivos vários – de valores, ou de proximidade de vencimento de empréstimos, etc. –, o que lhes tem permitido uma situação desafogada. Mas a questão do futuro surge, exactamente, por aqui. Mesmo que Sporting e Porto saiam ilesos da questão do BES, será possível aos clubes portugueses manterem a sua filosofia de altos investimentos, em paralelo com elevados passivos e endividamento?

O Banco Comercial Português (BCP) e o Banco Português de Investimento (BPI) afastaram-se um pouco do futebol, diminuindo as suas contribuições, pelo que no futuro os três grandes não vão ter três parceiros bancários “mãos largas” para os financiar da mesma forma que até aqui. Sobram os empréstimos obrigacionistas, mas estes não podem ser usados de forma arbitrária. A implementação do fair play financeiro por parte da UEFA e a luta contra a propriedade de jogadores por terceiros vêm tornar mais urgente a questão. Mas como resolvê-la? Ou através da venda de activos (o que o Benfica se viu obrigado a fazer) ou de “mecenas”.

A primeira opção vai provocar um empobrecimento dos clubes, um diminuir na capacidade competitiva e qualidade do futebol, um pouco como sucedeu em finais dos anos 90, princípios deste século, antes de as “engenharias” financeiras darem uma mão. Se o caminho for a chegada de capitais privados, entraremos em uma de duas situações: os clubes regressam aos modelos dos anos 70 e 80, em que destacados sócios e adeptos injectavam dinheiro próprio nos clubes; ou rendem-se à moda actual dos grandes magnatas vindos de países longínquos, os Abramovich e Peter Lim – que esbanjam dinheiro no futebol por motivos que nos escusamos a referir aqui.

Esta última solução é, para quem escreve estas linhas, a menos atraente, a que remete para um futebol individualizado, de valores obscuros, contrário aos espírito de colectividades desportivas, de equilíbrio competitivo, que fizeram do futebol o que é hoje. Mas por mais amargos de boca que este caminho possa provocar, infelizmente começa a ser uma das poucas saídas para o futebol luso.

Ou então, se nos entregarmos a uma solução de certa forma mais romântica, esperar que se aproveite a “dica” e se proceda, finalmente, a uma verdadeira revolução no futebol português. Uma reestruturação a todos os níveis, que passe por um novo modelo competitivo, económico, de imagem (como aconteceu em Inglaterra com a criação da Premier League em 1992), de forma a que economicamente se torne viável per si; uma mudança nos regulamentos, para que os jogadores portugueses e a formação dos mesmos sejam protegidos e os clubes sejam obrigados a voltar a aproveitar a “prata da casa”; para que as guerras intestinas terminem, e que para fora a bola lusa passe a ser encarada com seriedade, confiança e credibilidade. Mas para tal é preciso uma mudança de mentalidades, ou mesmo, uma mudança total de actores decisórios, nos clubes, Liga e federação. Seja como for, esperemos que a imaginação e capacidade de liderança dos dirigentes portugueses nos salvem da “Abramovitização” do nosso futebol.