Gato fedorento? Prefiro o futebol português

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Começa a ser perigoso (e cómico) o caminho que o futebol português está a traçar. Perigoso na credibilidade, na verdade desportiva, sobretudo. Assisto aos últimos acontecimentos e vejo pontos de contacto com o flagelo das combinações de resultados, ainda sem se chegar a tal ponto.

Depois de Deyverson e Miguel Rosa, jogadores sem qualquer vínculo com o Benfica mas com o passe repartido entre Belenenses e Benfica, terem ficado de fora do clássico da Luz entre as duas equipas estamos num ponto do campeonato em que se percebe que nenhuma equipa quer influenciar, mesmo que em benefício próprio, a luta pelo título. Do estilo “entendam-se vocês, que nós não queremos problemas”.

Seria fastidioso enumerar todos os jogadores com problemas físicos de última hora antes de enfrentar os clubes que os emprestaram.

Tiago Rodrigues, cedido pelo FC Porto ao Nacional, viu um amarelo a pensar que limpava com os “dragões”. Afinal, era só o quarto amarelo. Infelizmente, para ele e para o seu organismo, contraiu uma gastroenterite que não deixou de ser conveniente.

Tozé, que tinha sido apertado no jogo da primeira volta por ter marcado um penálti contra os azuis e brancos, só entrou durante o FC Porto-Estoril numa altura em que o vice-líder da Liga já vencia robustamente e não havia qualquer hipótese de a partida levar outro rumo. Kléber, esse, nem se deslocou à Invicta; deve ter ficado a estudar os centrais do Paços de Ferreira, clube que vai enfrentar, já refeito do seu problema clínico, na jornada que se aproxima. Aceita-se.

José Viterbo, o carismático treinador da Académica, assumiu nas entrelinhas que Nuno Piloto e Rui Pedro completaram uma série de amarelos com o Rio Ave porque o jogo seguinte é com o Benfica.

Depois, claro, isto tudo adensa a suspeição sobre outras coisas que até podem ser normais mas que deixam a imaginação do mais atento a trabalhar. Sabe-se agora que Marçal não vai ser jogador do Sporting… mas do Benfica. No jogo do passado sábado, entre o campeão e o Nacional causou estranheza o facto de o lateral ter ficado no banco. Fiquemo-nos pela estranheza.

E ainda podíamos recuperar o tal amarelo do moreirense André Simões que o impediu de defrontar o clube do coração ou o caso de Kayembe que desde que foi emprestado pelo FC Porto ao Arouca o único jogo em que não somou qualquer minuto foi, precisamente, diante do… FC Porto

Enfim, é este futebol que nós queremos? É este futebol que esperamos ver reconhecido ao mais alto nível?

Este é o futebol que projectou um dos melhores treinadores do mundo, José Mourinho, o actual Bola de Ouro, Cristiano Ronaldo, um candidato à presidência da FIFA, Luís Figo, e o melhor árbitro do planeta em 2012.

E a culpa, senhores, não é dos ditos “grandes” do futebol português, mas sim de quem acata, de quem é subserviente, de quem ainda não percebeu que quem tiver espinha vai ser mais facilmente respeitado do que quem recebe instruções e as cumpre.

Os clubes de menor dimensão preferem colar-se aos grandes do que reivindicarem os seus direitos. Ainda não compreenderam a sua importância e que só há grandes se existirem pequenos, pois os grandes, para além de não jogarem sozinhos, têm tudo a ganhar com concorrência de qualidade.

A verdade é que se eu fosse Ricardo Araújo Pereira, Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela ficava muito preocupado. Os Gato Fedorento só podem aspirar, com alguma generosidade, a fazer a primeira parte do show que o futebol português nos concede semanalmente.

Ao menos isso. Vamos rindo.

Bruno Pires
Bruno Pires
Jornalista desde 1997, passou pelos jornais O Jogo, A Bola e Expresso entre outros. É actualmente editor adjunto de Desporto no Diário de Notícias.
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