Aos 23 anos, após vários empréstimos não muito bem sucedidos (Académica, Olympiacos e Rio Ave), Gonçalo Paciência estará a fazer a melhor época da sua carreira enquanto sénior, e isso valeu-lhe a chamada de regresso ao Dragão.

Com 11 golos apontados na presente temporada, divididos por Liga NOS (cinco) e Taças (seis), o ponta-de-lança foi recentemente eleito o melhor jogador em campo na final da Taça da Liga, e tem dado nas vistas, sobretudo a partir de Outubro.

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Os GoalPoint Ratings de Gonçalo Paciência na Liga NOS 17/18

Até aí, a temporada de Gonçalo estava a ser marcada por altos e baixos e, ao passar da Jornada 4, num jogo em que marcou um autogolo ao Belenenses, equipa treinada pelo seu pai, o ponta-de-lança registou um GoalPoint Rating que ainda é, até à data, o pior da Liga NOS 17/18. Ultrapassado esse período mais “traumático”, o jovem arrancou, a partir da Jornada 9, para uma fase em que conseguiu vários registos acima de 6.0, e até um excelente 8.1 na derrota em casa contra o Vitória de Guimarães.

Mas o rating de 2.7 não é o único recorde negativo que Gonçalo ostenta esta época. Ainda recentemente, nos 68 minutos contra o Moreirense em que até somou duas assistências, Gonçalo foi desarmado um total de 12 vezes, batendo o pior registo anterior que era de oito desarmes sofridos.

Por trás destes registos do ex-Vitória, está uma característica que tem sido obstáculo na progressão da sua carreira: o seu individualismo. Num dia inspirado, isso pode resultar a seu favor, como mostram os 2,4 dribles eficazes a cada 90 minutos – melhor registo do campeonato entre os pontas-de-lança -, mas se considerarmos as vezes que Gonçalo Paciência tenta resolver uma jogada por si próprio, seja através de uma tentativa de drible ou de um remate de fora da área, a percentagem é de 16,2%, também superior à de qualquer outro jogador da Liga NOS. Só Rochinha (14,9%) e Brahimi (13,6%) se aproximam, mas acresce a essa tendência de Gonçalo outro problema, que é o facto de não ser particularmente eficaz nessas tentativas. Apenas 44% das suas 5,5 tentativas de drible por jogo são eficazes e 19% dos seus remates saem muito desenquadrados, o pior registo entre os 20 jogadores que mais rematam na Liga Portuguesa.

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Tido como um jogador desenvolvido tecnicamente, talvez por esses mesmo riscos que toma com frequência, há outro dado que preocupa quando vasculhamos os números. Gonçalo Paciência é o segundo jogador que mais controlos de bola deficientes tem, a nível europeu. Só Firmin Mubele, avançado congolês do Rennes, perde mais vezes a posse de bola a cada jogo devido a más recepções da mesma. Tudo somado, chegamos à conclusão que, no caso de Gonçalo Paciência, o risco compensa pouco. É que se neste ranking o português aparece em segundo, há um que é liderado por ele.

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Nenhum outro jogador, entre os seis principais campeonatos europeus, perde mais vezes a posse de bola em relação às vezes que a tem. Quase 50% das acções de Gonçalo resultam numa perda de posse para a sua equipa, neste caso o Vitória de Setúbal, e esse é um número consistente com as suas épocas anteriores na Académica (47,7%) e Rio Ave (47,6%), por isso há poucas razões para acreditar que vai mudar muito no FC Porto.

Resumindo, Gonçalo Paciência aporta uma tendência para o risco e uma falta de eficácia nas suas acções que, pelo menos para já, não se coadunam com as de um titular de uma equipa “grande”. A fase de maior confiança que atravessa poderia até vir a minorar isso mesmo, mas tendo em conta que dificilmente terá muitos minutos nesta altura da época, o mais provável é que Gonçalo volte a ser aquilo que nos tem habituado em épocas anteriores: um jogador pouco consistente nas suas acções e decisões. É claro que aos 23 anos a margem para melhorar ainda é grande, mas convém ter a noção de que há muitas “arestas” por limar em Gonçalo, e que este está longe de ser um produto acabado.