Guimarães 3 – Sporting 0: Dupla de luxo anula “leão”

O Sporting perdeu de forma esclarecedora na visita ao V. Guimarães, ficando para a história as fantásticas prestações de dois médios vimaranenses.

Jonathan Silva, juntamente com Cédric, foram protagonistas de uma das tendências leoninas na visita a Guimarães: a entrega da posse ao adversário (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Jonathan Silva, juntamente com Cédric, foram protagonistas de uma das tendências leoninas na visita a Guimarães: a entrega da posse ao adversário (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

O V. Guimarães venceu de forma categórica na recepção ao Sporting CP. Poucos foram, certamente, os que vaticinaram um 3-0 para os minhotos neste jogo da nona jornada da Liga portuguesa, mas no final fica uma sensação de justiça e de que se o desfecho tivesse sido mais desnivelado não escandalizaria ninguém.

Para a história fica o resultado, a superioridade táctica dos homens da casa – Rui Vitória ganhou em toda a linha a Marco Silva – e a exibição de dois médios vimaranenses: André André e Bernard Mensah. Outros jogadores, como Hernâni, Bruno Gaspar ou Bakary Saré, tiveram uma prestação muito acima da média, mas os dois centro-campistas personificaram a vontade e a qualidade com que os vitorianos bateram os lisboetas.

Rui Vitória vs. Marco Silva

Comecemos pela estratégia. Ambas as equipas apresentaram-se em 4-3-3, como é hábito, com nuances posicionais que definiram o rumo dos acontecimentos. Em primeiro lugar a missão de Bernard. O ganês posicionou-se no vértice mais adiantado do triângulo intermédio dos homens da casa, praticamente colado ao ponta-de-lança Tomané, com ordens claras para pressionar o primeiro momento de construção leonino – com ajuda de Tomané, Alex (fechava muitas vezes no meio) e Hernâni. Bernard foi um quebra-cabeças constante nas suas deambulações, tornando-se difícil de marcar devido à versatilidade e movimentações nos espaços vazios (William Carvalho nunca o conseguiu manietar).

Mais atrás, Saré e André André anularam completamente a manobra de João Mário. O médio saiu aos 45 minutos com 32 passes e óptimos 87,5% de acerto, como é seu hábito, mas com registo totalmente nulo a nível ofensivo, sete perdas de bola e duas recuperações no momento defensivo, para além de três faltas fruto do duelo interessantíssimo com André André. Este último, porém, não se limitava a defender, apoiando Bernard nas acções ofensivas. Bernard que chegou ao intervalo com 11 passes e 91% de eficácia, caindo neste valor no segundo tempo, quando o jogo se partiu e tornou-se frenético.

Quanto aos “leões”, o meio-campo praticamente não funcionou, o que prejudicou a sua reconhecida capacidade ofensiva e deixou a nu as debilidades do quarteto defensivo. William Carvalho foi o mais regular, acabando a partida com 89 toques na bola, 71 passes (ambos valores máximos no Sporting) e valorosos 84,5% de passes certos (47 – 76,6% no meio-campo adversário). Mas não chegou, pois ao seu lado teve um Adrien Silva que conseguiu 60 passes e 81,7% de acerto (40 – 77,5% no meio terreno contrário), mas que teve registo a zero a atacar. O influente jogador passou ao lado do jogo neste capítulo, falhando na ligação entre os sectores intermédio e ofensivo, mesmo quando Marco Silva mexeu e colocou Slimani ao lado de Montero e Capel na esquerda. Adrien actuou numa espécie de “terra de ninguém”, sem adversário para marcar e sem linhas de passe para João Mário no meio, ou Nani e André Carrillo nas alas.

Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)

Laterais fechadas

Aliás, Bruno Gaspar e Adama Traoré foram imperiais nas laterais, nunca dando o interior do seu corredor aos habituais passes a rasgar na zona – estratégia habitual dos de Alvalade -, o que anulou o jogo de Nani e Carrillo, obrigados a muitos passes para trás (o internacional português teve mesmo uns pouco habituais 89,2% de passes certos, mas muitos deles para o lado ou para trás). Ao invés, Gaspar acabou a partida com 90% dos dez duelos ganhos com quem apareceu no seu flanco direito – na maior parte das vezes Nani -, teve quatro desarmes, cinco alívios e cinco intercepções, recorrendo a apenas uma falta. Assinalável! Traoré, do outro lado, ganhou 80% dos dez duelos que teve (a maioria com Carrillo), conseguiu também quatro desarmes, três intercepções e quatro recuperações de bola, e sem recorrer a qualquer falta! Em jeito de comparação de sectores, Cédric (20) e Jonathan Silva (24) foram os “reis” das perdas de bola da sua equipa.

Os dois primeiros golos vitorianos foram o espelho do desacerto defensivo leonino, pois ambos surgiram de centros da direita do ataque para o segundo poste, onde Carrillo e Cédric não souberam contrariar o jogo aéreo adversário, terminando no fundo das redes em emendas de Bakary Saré e Maurício na própria baliza (o segundo precedido de um fora de jogo no momento da “assistência” de João Afonso).

Mário Silva tentou mudar o rumo da partida ao intervalo, lançando Diego Capel e Slimani para os lugares dos apagados João Mário e André Carrillo, mas o máximo que conseguiu foi melhorar os números de posse de bola e eficácia de passe da sua equipa (e de Adrien), abrindo, contudo, espaços para passes a rasgar de André André e Bernard Mensah para os velozes Hernâni e Alex, que só não deram em mais perigo por precipitação no momento do remate. O terceiro golo, de penalty, por André André (após falta sobre este), surgiu como natural para o rumo dos acontecimentos.

Números “estranhos”

Os números pouco habituais do resultado foram acompanhados por uma certa incoerência de alguns outros valores em relação ao que é hábito em equipas que ganham com esta naturalidade. O Vitória terminou com pobres 35,7% de posse de bola (64,3% do Sporting) e 57,1% de acerto nos 252 passes que efectuou (contra os 469 dos “leões” e 77,8% de eficácia). Olhando apenas para estes números é difícil acreditar na naturalidade do desfecho, mas olhando para outros, começamos a perceber onde esteve o desequilíbrio.

O Guimarães terminou com 16 remates à baliza (contra nove dos lisboetas), sendo que 50% saíram ao lado, seis foram enquadrados e dois bloqueados (Sporting apenas acertou dois). Mais importante, os da casa efectuaram 11 remates já dentro da grande área leonina (Sporting apenas três no outro extremo do campo), oito deles no segundo tempo, quando conseguiu que os extremos fossem à linha e colocassem a bola na área. Tendo em conta que na anterior jornada o Marítimo já conseguira efectuar 19 remates à baliza de Rui Patrício, e em Alvalade, Marco Silva tem aqui muito que reflectir e corrigir.

Palavra final, mais uma vez, para André André e Bernard Mensah. O primeiro somou 57 toques na bola e ganhou 70% dos seus duelos, conseguiu quatro desarmes, e seis recuperações de bola, para além de dois passes para ocasião entre os 38 que efectuou. Bernard teve 76,2% de passes certos (de 21), 16 deles (com 75% de precisão) no meio-campo adversário, e conseguiu dois remates, dois passes para ocasião e recuperou sete bolas. Não são números espantosos, reflectem a forma como a equipa vimaranense jogou, mas na retina fica o empenho e a qualidade que colocaram em cada momento de jogo.