Isto de ser Charlie é quando dá jeito

Jorge Costa, seleccionador do Gabão
Jorge Costa, seleccionador do Gabão

Acompanhei a uma distância relativa os acontecimentos passados recentemente em França, desencadeados na sede do jornal satírico Charlie Hebdo. Dizem que foi, sobretudo, um atentado à liberdade de expressão. Se calhar foi, admito que sim.

A fronteira entre o razoável e o exagero deu-se quando se começou a desfraldar a bandeira do “Je suis Charlie”. Parece que quem não tinha esse avatar no facebook (ou uma t-shirt, ou um pin, ou um soutien ou mesmo uns boxers) com essa inscrição estava a beliscar o direito à liberdade de expressão.

Nas horas seguintes à terceira Bola de Ouro conquistada por Ronaldo percebeu-se que havia um treinador português que não tinha votado no compatriota. Sacrilégio. Como é possível?

Fiquei a saber que Jorge Costa, seleccionador do Gabão, não tinha direito, por ter a mesma nacionalidade que Ronaldo, a votar noutro jogador estrangeiro, muito menos em Messi. Possivelmente o antigo capitão do FC Porto vai dizer que houve uma troca de votos ou que no Gabão o seleccionador dá a cara pelos treinadores de todas as equipas do campeonato no seu conjunto. É uma possibilidade…

Quero acreditar que nada disso se passou. No momento em que escrevo estas linhas, a Bola de Ouro já foi entregue há mais de 24 horas e Jorge Costa ainda não se pronunciou. Se calhar teve a ousadia de votar mesmo em Messi como o melhor do Mundo em 2014, uma opinião que para muitos não podia ter sido exercida. Possivelmente os arautos da liberdade de expressão consideram mais honesto Messi não votar em Ronaldo e Ronaldo não votar em Messi. Ou Ronaldo só votar em colegas do Real Madrid. É outra possibilidade…

Jorge Costa tem o meu respeito, embora não concorde com o seu voto. Para mim Ronaldo foi o melhor em 2014, mas, deixem-me que vos diga, isto de ser Charlie é mesmo quando dá jeito.