Itália: o país onde a evolução não tem idade

Métodos de treino inovadores, alimentação, mentalidade. Em Itália os jogadores têm uma longevidade incomum, como constatámos ao observar os jogos da Serie, e tentámos perceber porquê.

Encerrará o futebol italiano um mistério ou apenas uma cultura futebolística diferente? (foto: Paolo Bona / Shutterstock)
Encerrará o futebol italiano um mistério ou apenas uma cultura futebolística diferente? (foto: Paolo Bona / Shutterstock)

O futebol italiano (de clubes) é frequentemente associado à ideia de longevidade e veterania dos seus intérpretes. Mas será esta ideia consubstanciada em dados? Será que em Itália, ao contrário dos outros países, os jogadores conseguem suster o seu patamar evolutivo por mais tempo?

Ao dissecar as equipas da primeira e segunda Ligas italianas, mais concretamente ao olhar para jovens jogadores como Ciro Immobile, Alessio Cerci ou Matteo Darmian, entre outros, apercebemo-nos que todos estes se situavam entre os 23 e os 26 anos de idade.

Comparando com os jovens valores que começaram a despontar e a dar cartas no futebol europeu, como James Ward-Prowse, Timo Werner ou Deulofeu, notamos que estes atletas são bastante mais jovens (18-20 anos). Além do facto de terem contacto com a primeira Liga do país em foco bastante mais cedo, acresce ainda um aspecto importantíssimo nesta análise, o de que em Itália os jogadores duram até bastante mais tarde. Em Itália um aspecto que parece ter influência é o facto de os grandes clubes como Inter, Milan ou Roma emprestarem e usarem o sistema de co-propriedade muita vez com clubes de série B/C/D, o que dá aos jovens atletas um progressivo incremento no ritmo competitivo muito importante no seu crescimento.

 

Será da alimentação? Será dos métodos de treino? Ou serão apenas diferentes culturas e, sobretudo, diferentes mentalidades na perspectiva de formar jogadores de futebol? Inequivocamente a resposta a todas estas perguntas é sempre afirmativa. E pegando especificamente no exemplo do Milan Lab, que é o Centro de Pesquisa Científica de Alto Conteúdo Tecnológico desenvolvido pelo AC Milan e operacionalmente activo desde Março de 2002. Segundo os “rossoneri”este departamento procura optimizar a gestão psicofísica dos seus atletas através de uma abordagem que conjuga o conhecimento de diversas disciplinas: as neurociências, as ciências bioquímicas e biomecânicas, a psicologia, as ciências cognitivas, a inteligência artificial e as ciências motoras sempre com o grande objectivo de alcançar e manter o nível de excelência da performance desportiva.

O objectivo do Milan Lab é, segundo o mesmo: “Optimizar os resultados da equipa através de uma metodologia voltada para o melhoramento do desempenho dos atletas, a prevenir os riscos de lesões, e assim suportar o processo de decisão do staff técnico e da administração do Clube na gestão dos recursos humanos. A metodologia do Milan Lab tem como fim a tutela do bem-estar psicofísico do jogador individualmente. A integridade psicofísica dos campeões é o património mais precioso de uma sociedade futebolística”, pode ler-se na página do clube.

Este laboratório desportivo e médico dos milaneses tem ainda recentemente o apoio e consultoria de uma universidade belga que procura optimizar os processos de treino e tem ainda a colaboração da Microsoft na área do software.

Toda esta tecnologia e know-how empregue pelos italianos aumenta consideravelmente a longevidade dos jogadores (ex: Nesta, Maldini, Gattuso, Zanetti, Buffon, etc.), contudo a média de idades das equipas tem vindo baixar, sendo que na época passada era raro o colectivo que não tinha uma média inferior a 25 anos:

JogadorIdadeJogosRemates
pjg
GolosAprov.
(%)
Passes
pjg
Ef. de
passe (%)
Ef. duelos
aéreos (%)
Cortes
pjg
Intercep.
pjg
M.Ballotelli23305.1149.2%2172.5%40.4%0.40.2
A.Cerci26373.31310.7%2074.1%18.9%0.50.1
A.Ranocchia26240.517.7%3783.9%64.2%2.01.9
C.Immobile24333.12221.8%1971.4%31.2%0.50.3
L.De Silvestri26350.5211.1%3677.2%69.5%2.11.8
M.Destro23201.91333.3%1273.0%32.1%0.60.3
M.Darmian24370.300.0%4083.1%70.6%2.91.3
S.Zaza23332.7910.2%1570.2%35.5%0.80.3
L.Siligardi26261.7511.4%1877.4%21.4%0.70.3
A.Bertolacci23251.625.0%3680.3%54.5%2.11.6
A.Ekdal24220.915.0%3882.5%45.6%2.41.3
R.Khrin24270.700.0%3382.8%61.9%1.61.6
R.Acquafresca26191.600.0%1080.3%26.4%0.20.2
A.Paloschi24341.91320.3%1470.7%29.9%0.80.1
J.Biabiany26361.4611.5%2184.8%15.2%1.40.6
Legenda: pjg - dados médios por jogo; Aprov. (%) - taxa de conversão em golo dos remates efectuados; Ef. - Eficácia (medida percentualmente)

Tendo em conta os factos acima enumerados é sustentável afirmar que os jogadores em Itália, por diversas razões (quer contextuais ou técnicas), conseguem prolongar bastante mais o seu pico evolutivo. Isto dá-lhes, por um lado, uma experiência e maturidade bastante superiores aos outros jovens que começam a aparecer noutros países, mas faz-nos também questionar se esta linha evolutiva mais estável e menos abrupta não lhes traz alguma limitação em termos de melhorias técnico-tácticas.