A Última Dança. Serão poucos os apreciadores de desporto que não deram ainda pela notoriedade da nova referência no que toca ao documentário desportivo, o “The Last Dance”, um lançamento da ESPN em parceria com a Netflix. E nem é preciso ter visto já a obra para confirmar esta relevância, basta acompanhar a quantidade de conteúdo relacionado com os gloriosos anos 90 da NBA que tem sido publicado. A série tem o condão de não só relatar o trajecto de Michael Jordan e dos “seus” Chicago Bulls, como de o fazer de uma forma empolgante, que cativa até os que não nutrem especial interesse pelo basketball.

[ That’s jushe way it is… memórias da “década de Jordan” ]

Mas porque interrompemos nós o Futebol para falar de Michael Jordan e do “seu” documentário? Não é só a qualidade do “The Last Dance” que nos motiva, nem sequer a “memory lane” que oferece a quem recorda uma infância marcada pelo magazine NBA Action, ao fim-de-semana, sonorizado pelo clássico “that’s just The way it is”, de Bruce Hornsby.

O motivo da nossa atenção é bem mais racional e relacionável com o nosso foco futebolístico: abordar a discussão sobre  o “GOAT” – Greatest of All Time – da NBA (melhor de sempre) com recurso aos analytics, sublinhando a forma como o aproveitamento da estatística e análise sucede, com naturalidade, noutros desportos, permitindo sustentar (e até encurtar) discussões que, no Futebol, tendem a assentam quase sempre no “achómetro” individual de cada um.

Who’s the GOAT?

Na discussão do “GOAT” da NBA surgem duas alas fundamentais: a do passado (Michael Jordan) e a do presente (Lebron James). Esta bipolaridade é quebrada aqui e ali, sobretudo quando a questão é colocada a jogadores e ex-jogadores, com o elogio a lendas que também brilharam ao mais alto nível, marcando fases e somando feitos memoráveis (Kareem Abdul-Jabbar, Wilt Chamberlain, Magic Johnson, Larry Bird, Kobe Bryant, Bill Russell…), mas sem gerarem os consensos alargados que Jordan e Lebron carregam.

[ O trailer the “The Last Dance”, a série documental de que “toda a gente fala” ]

Quem tem razão? Podem os analytics ajudar a resolver esta questão rapidamente? Atacamos o tema fazendo as devidas ressalvas. Em primeiro lugar convém relembrar que a carreira de Lebron James ainda não terminou, logo este é um balanço à condição. Em segundo há que fazer notar que a NBA não foi sempre a mesma, embora seja, ainda assim, mais propícia a este tipo de comparações do que o Futebol (exemplo: não existe algo comparável com uma era pré e pós-Bosman a separar os protagonistas), sendo unânime a noção de que a era Jordan foi mais física e permissiva (quanto ao contacto físico) do que o é a NBA da geração Lebron.

Mas chega de “ressalvas metodológicas”. Avancemos então para o comparativo Jordan vs Lebron em quatro vectores (quadros) comparativos (mas sem GoalPoint Rating, esse fica para o leitor decidir, à falta de algoritmo GoalPoint específico para os hoops), começando pelas estatísticas clássicas do basquetebol, baseado num fantástico vídeo analítico que pode encontrar na conclusão deste artigo.

1. A carreira (e os feitos)

Lebron já ganhou a “Air Jordan” numa variável: a longevidade. A actual figura-maior da NBA leva 17 épocas, contra as 15 de Jordan. Mas se a longevidade já premeia o actual Laker, convém recordarmos que Jordan decidiu “reformar-se” por duas vezes (uma delas para inclusivamente tentar lançar-se no baseball), antes do último adeus à competição. Das duas vezes regressou com qualidade, mesmo que a última delas, já nos Wizards, não tenha sido coroada de glória.

Pelo caminho MJ somou os feitos que o quadro acima resume: seis campeonatos em seis oportunidades (Lebron atingiu oito mas ganhu metade dos títulos de Jordan), cinco eleições como MVP da época (contra quatro de Lebron em mais épocas) e 10 vezes o melhor “marcador” da prova, contra apenas uma de Lebron. James ainda pode compor o seu “quadro de honra”, mas será justo concluir que, no que toca ao currículo, a vantagem vai para Jordan.

[ Os últimos 3 minutos de Jordan pelos Bulls são o exemplo do gigantismo com que surgia nos grandes momentos ]

2. As “stats” tradicionais

Pelas médias tradicionais da NBA estamos na presença de… duas lendas. Se por um lado Jordan foi mais prolífico (points), Lebron leva vantagem na criação de oportunidades de “cesto” para os colegas (assists). Mas num quadro todo ele admirável, sobressai outra qualidade de Jordan, menos focada nos “vídeos promocionais” do seu reportório: o seu jogo defensivo e consistência. MJ “roubou” e bloqueou mais bolas, ao mesmo tempo que permitiu uma média mais baixa de turnovers (perda da posse para o adversário) ao longo da carreira. No deve e haver de um comparativo estatístico tradicional, Jordan volta a ganhar vantagem a Lebron, apresentando números de jogador completo, em ambas as extremidades do campo.

3. Os rankings liderados

Jordan e Lebron jogaram/jogam em funções distintas, ainda que provavelmente das mais aproximadas do basquetebol, dependendo do estilo de jogo dos seus intérpretes. MJ jogou sobretudo como shooting guard, um papel do qual se esperam pontos, sobretudo de média/longa distância, e um papel decisivo no bloqueio defensivo e recuperação da posse. Já Lebron, que até à paragem da Liga norte-americana era o base titular dos Lakers, alinha maioritariamente como small forward (posição promordial) e power forward, posições ofensivas de maior proximidade ao cesto e onde a conquista de ressaltos (rebounds) e de faltas são mais relevantes.

Comparando os rankings de cada um dos gigantes na sua posição, concluímos que, sendo ambos brutais, Jordan “embrutece” para níveis de outra galáxia quando comparado com os demais, integrando o top-10 da sua posição em seis dos sete rankings nucleares. Lebron confirma a dimensão de “lenda”… mas fica-se pelos três tops, longe do ícone de Chicago.

4. A machadada “analytica”

A quarta e última dimensão deste duelo é talvez a mais interessante e complexa. Pesem as diferenças (incontornáveis) entre os desportos, a NBA é um bom exemplo do longo caminho que o Futebol tem a percorrer, no que toca ao auto-conhecimento oferecido pelos analytics. Para lá das estatísticas tradicionais já aqui abordadas, são vários os indicadores de advanded analytics que foram integrando a normal avaliação da qualidade de desempenho das estrelas da NBA. Os indicadores que apresentamos em seguida são apenas uma selecção, dos muitos que podem ser encontrados (inclusivamente na estatística oficial da competição), nas mais diversas fontes.

A “monotonia cromática” do comparativo acima publicado confirma o que, a esta altura, já esperávamos: Michael Jordan suplanta Lebron em tudo, mesmo que, em alguns casos, de forma marginal. E não só suplanta Lebron como lidera todos os rankings apresentados, tornando cada vez menos fundamentada a discussão sobre o GOAT.

Mas Michael suplanta exactamente em quê? Eis o enquadramento rápido de cada um destes indicadores, para quem não os conhece ou recorda.

Player Efficiency Rating (PER) – É um sistema de rating que procura avaliar quantitativamente o desempenho por minuto dos atletas da NBA, sendo a média da Liga estabelecida em 15.00. A métrica criada por John Hollinger (Analista, Autor e ex-Director dos Grizzlies)  é hoje universalmente aceite e utilizada, na hora de avaliar o desempenho dos atletas.

Nas palavras do seu criador:
O PER soma os feitos positivos de um jogador, subtrai os negativos e atribui um rating por minuto ao seu desempenho

Win Shares (WS) – Um cálculo relativamente recente, introduzido em 2002 por Bill James (Autor e analista), que visa estimar o contributo de cada atleta nas vitórias da sua equipa, num dado período. Apesar de novo, é mais um conceito recorrente na análise da NBA, na actualidade.

Box Plus/Minus (BPM) – Métrica que visa estimar o contributo de um atleta para o desempenho da sua equipa, quando está no court, por 100 posses, comparado com a média da Liga. Confuso? Eis um exemplo que ajuda a perceber melhor o conceito: um valor de +5.0 BPM significa que a equipa consegue mais 5 pontos por 100 posses, com o jogador em causa no court, do que teria com outro jogador de produção média.

Curiosidade: esta métrica, para lá de igualmente recente, sofreu uma revisão metodológica em 2017.
Clique neste link para mais informação.

Value Over Replacement Player (VORP) – Métrica que estima a pontuação gerada por um jogador a cada 100 posses colectivas, comparadas com o valor de um substituto hipotético (-2.0). Segundo o Basketball Reference, este indicador não é mais do que a conversão do BPM (Box Plus/Minus) numa estimativa da contribuição individual comparada de cada jogador no desempenho colectivo.

Por esta altura já todos percebemos até que ponto vai a riqueza dos advanced analytics aplicados à NBA, versus a postura “a estatística vale o que vale”, que só nos últimos anos começou a ser questionada, no nosso Futebol. Percebemos também que Lebron terá de palmilhar muitos courts, ofensiva e defensivamente, para realmente conseguir rivalizar com os números do protagonista de “The Last Dance“, Michael Jordan.

Em jeito de conclusão, convidamo-lo a encerrar connosco o tema, apreciando os últimos minutos do vídeo de análise que inspirou este artigo.

Michael Jordan is the real life version of an overpowered videogame character