Julian Weigl: que rating é esse, GoalPoint?

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O apito final no “clássico” entre Porto e Benfica trouxe a promessa de polémica nos GoalPoint Ratings. Ao mesmo tempo que a SportTV elegia Julian Weigl como a figura do jogo (e atrás dela veio depois a imprensa desportiva, de forma unânime), o algoritmo GoalPoint Ratings atribuía um 5.5 ao médio alemão com… 14 jogadores de ambas as equipas à sua frente. O nosso Antunes ficou “à rasca” e soltou um “Oh jeeezus…”, ao estilo de Bill Burr.

Seria hora de fechar isto? Claro que não. Era hora sim de analisar, compreender, contextualizar e depois explicar, partilhando algumas considerações. Vamos a isso?

[ Os mapas de passe do clássico fundamentam a ideia de que Weigl foi peça central no jogo “encarnado” mas… até que ponto? ]

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Em primeiro lugar convém ter em conta que o rating de 5.5 obtido por Julian Weigl traduz um desempenho positivo, tendo em conta a “inclemência” do nosso algoritmo, quando comparado com outros, mais amigos da sensibilidade do adepto. Ainda assim não há como esconder: mesmo tratando-se de um “clássico” português, já por si habitualmente avesso a grandes desempenhos estatísticos, há que explicar como fica o alemão tão longe da “glorificação” que recolheu nos media tradicionais.

Weigl mandou no jogo?

O médio somou 93 acções com bola no “clássico”, o que fez dele o jogador com mais jogo na fria noite do Dragão. O registo, sendo relevante, não é impressionante. Porquê? Em primeiro lugar porque convém relembrar que Benfica jogou cerca de 25 minutos em superioridade numérica, facto que criou (ou devia ter criado) condições ainda mais propícias do que as iniciais (ausência de Otávio, jogador fundamental na agressividade “azul-e-branca” na saída de bola do adversário) para as características/exigências habituais de Julian: distribuir e preservar a posse, sem incorrer em grandes riscos. Em segundo lugar, se tivermos em conta que a média de acções com bola de Weigl é de 100 interacções a cada 90 minutos, o seu registo está dentro do que é nele normal tendo em conta o papel que desempenha neste Benfica.

Ainda assim é justo concluir que Weigl acabou por ser (a par de Gilberto, com 91 acções) o jogador com mais bola. Se isso permite afirmar que mandou no jogo, talvez o que venhamos a partilhar em seguida permita uma conclusão mais fundamentada.

O alemão brilhou no passe?

Ninguém somou mais passes certos do que Weigl no “clássico”, com 69 entregas. E se olharmos à eficácia, apenas Pizzi se equiparou, ambos com 90% de sucesso. Mas que passes fez Weigl? Aos nossos olhos, os passes não são todos iguais, e a coisa é um pouco mais elaborada que isso. Eis os números do jogo de passe de Weigl, no empate do Dragão:

Tentativas de passe: 77
Passes eficazes: 69 (90%) 👍
Passes falhados: 8
Passes de risco falhados: 2 ⚠️
Passes longos: 11
Passes longos eficazes: 7 (64%)
Passes progressivos*: 10 👍🔝
Passes ofensivos valiosos**: 0 ⚠️
Passes p/ finalização: 0 ⚠️
Tentativas de cruzamento: 4
Cruzamentos eficazes: 1
Perdas de posse: 13
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* passes certos que fazem a equipa avançar 15 ou mais metros no terreno
** passes certos a 25 ou menos metros da baliza adversária

Os críticos do jogador referem que Weigl só passa “para trás e para os lados”, mas o médio até terminou o jogo com o registo mais elevado de passes progressivos do jogo, feito ao qual não são alheios os sete passes longos eficazes que somou, também esse um registo máximo do “clássico”. Mas feitos os elogios, e mesmo tendo em conta o seu papel (de “6”), não seria de esperar um pouco mais de Weigl no plano ofensivo, tendo em conta a já referida superioridade numérica durante 26% do tempo de jogo? A verdade é que, apesar do acerto no passe e até de alguma verticalidade que nem sempre apresentou no passado, Julian não fez qualquer entrega para os últimos 25 metros ou para situações de remate.

[O mapa das 77 tentativas de passe de Weigl ]

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Por fim, num encontro com 45 passes falhados em zonas de risco, e com homens com registos bem menos positivos (Otamendi 5, Pepe e Gilberto 4) neste capítulo, os seus dois passes falhados em zona mais perigosa para a própria equipa acabam por também prejudicar o seu rating. É daqueles pormenores que provavelmente nenhum eleitor de Weigl como MVP reparou, mas… é também para isso que cá estamos.

E no plano defensivo, houve “patrão”?

Saltamos já para o plano defensivo pela simples razão de que Weigl não somou qualquer tentativa de alvejar a baliza contrária, o que, não lhe sendo porventura exigível, merece referência, sobretudo quando percebemos que o seu homólogo “azul-e-branco” (Uribe) tentou a sorte em duas ocasiões, uma delas enquadrada. E nem voltamos a referir a superioridade numérica na fase final da partida, para não aborrecer.

Weigl somou seis recuperações de posse. É fraco? Não, está aliás dentro da sua média por jogo (7). No entanto, mais uma vez convém relativizar e dar contexto: é difícil valorizar excessivamente a meia-dúzia de recuperações de posse do germânico quando, por exemplo, o adversário Sérgio Oliveira somou 11 e até o colega Rafa terminou com nove (em menos minutos). Passamos então ao detalhe do trabalho defensivo de Julian:

Acções defensivas: 5 (Uribe 9)
Acções defensivas no meio-campo contrário: 2 (Vertonghen com máximo do jogo, 3)
Desarmes: 3 👍 (Gilberto com máximo do jogo, 5)
Intercepções: 1 (Uribe terminou com 5)
Dribles consentidos: 2 (mais só Gilberto, com 3)
Faltas cometidas: 1
Faltas sofridas: 2

Também no plano defensivo o jogo de Weigl, sendo melhor do que já foi noutras ocasiões, não foi particularmente generoso, sobretudo quando comparado com outros colegas mais focados sexta-feira na cobertura defensiva (Vertonghen 6, Gilberto 9).

[ Os feitos dois “6” de serviço no clássico, lado a lado ]

Sobra o posicional?

Um dos aspectos mais referidos por quem elegeu Weigl como a figura do “clássico” foi o seu jogo posicional. Ora este é um aspecto não só muitas vezes subjectivo como, também por isso, excluído de uma avaliação estatística centrada nas acções de jogo, o foco da nossa ponderação.

Mas será o eventual excelente jogo posicional de Weigl razão suficiente para um destaque tão unânime, quando comparado com os restantes intervenientes?
Não seria de esperar uma maior preponderância ofensiva de um MVP eleito, num jogo em que o Benfica, por mérito próprio e fruto das circunstâncias (expulsão de Taremi) dispôs de 25 minutos para tentar algo mais (e não o conseguiu) e durante o qual mostrou quase sempre maior iniciativa ofensiva?

As perguntas ficam aqui, à mercê da vossa reflexão e resposta.
Da nossa parte ficam também as explicações do porquê de Weigl ter falhado o MVP estatístico (no GoalPoint e em qualquer site que use dados estatísticos para tal). Terminamos reafirmando o que dizemos desde 2014: os analytics visam complementar outras formas de entender o jogo, não as substituem. Ainda assim, há casos em que é difícil justificar os fundamentos de uma avaliação “a olho”. Este, apesar de menos polémico que outros, foi um deles.

Leia também: Weigl 🆚 Gabriel, o duelo que divide os adeptos

Pedro Ferreira
Pedro Ferreirahttps://goalpoint.pt
Co-fundador da GoalPoint Partners, em 2014. Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting.