(…) Os “foxes” não fizeram “mind games”, não atacaram adversários ou realizaram conferências de imprensa e entrevistas a pressionar árbitros. Ranieri não sentiu qualquer necessidade de humilhar colegas de profissão no seu percurso de vitória e ainda hoje não se conhecem os nomes de directores desportivos ou responsáveis de comunicação ao serviço do campeão (…)

Hoje o mundo do futebol está feliz com o feito do Leicester. Não faltam por aí artigos que dão conta da epopeia inacreditável, das (im)probabilidades e dos heróis com nome que, na relva ou no banco, ficarão para sempre na História, não só do futebol mas de todos os desportos colectivos, como talvez o maior exemplo de superação, numa era em que nos habituamos a associar o sucesso competitivo à capacidade de investimento inatingível pela maioria dos emblemas do futebol europeu. Mas será que a felicidade é genuína por parte de todos? Se o for será, no mínimo, incoerente.

Campeão… fora do relvado

Para lá de tudo o resto há uma particularidade que marca o inacreditável feito do Leicester que me parece particularmente interessante referir, sobretudo numa ligação ao futebol português. O Leicester foi campeão não só ganhando mais pontos com menos recursos, contra todas as previsões, como o fez sem… pressões. Os “foxes” não fizeram “mind games”, não atacaram adversários ou realizaram conferências de imprensa e entrevistas a pressionar árbitros. Ranieri não sentiu qualquer necessidade de humilhar colegas de profissão no seu percurso de vitória e ainda hoje não se conhecem os nomes de directores desportivos ou responsáveis de comunicação ao serviço do campeão, pelo menos pelos motivos pelos quais se tornam conhecidos em Portugal.

“Paineleiros”? O mais conhecido, Gary Lineker, notabiliza-se pelo humor, boa disposição e “viralidade” e não por acusações, bitaites de suspeição e outros recursos que nos são tão familiares. “Ah mas por lá é diferente, os árbitros são melhores e o ambiente é diferente”. “Bullshit my friend”, como por lá diriam. O Leicester vem de dois jogos em que foi claramente prejudicado por uma arbitragem que comete tantos ou mais erros que a portuguesa e, no entanto, manteve uma postura irrepreensível e focada no que dependia sim das suas pernas, esquecendo desculpas que já só convencem adeptos do “futebol medieval”.

Does any of this ring a bell? Alguns leitores já terão percebido a relevância do paralelismo. Outros provavelmente ainda não perceberam que o paradoxo os envolve, partilhando entusiasticamente vídeos e imagens do feito o Leicester para, dentro de dois dias, regressarem à partilha e discussão de bocas de dirigentes, imagens de foras de jogo e tabelas das chamadas “Ligas da Verdade”, aplaudindo pelo caminho qualquer alarvidade proferida pelos representantes (desde que da sua cor) desta forma de estar que torna o futebol português cada vez mais irrespirável.

E as estatísticas?

Sim, é verdade, o Leicester recorre às estatísticas. Assim como o fazem todos os clubes ingleses. Não é por aí que se explica o sucesso dos “Foxes” que, quanto muito, trabalharam com maior acerto que os demais, sendo esse apenas mais um factor que explica o seu sucesso, mas longe de ser o principal.

A grande questão não passa tanto pelo facto de o campeão trabalhar os números (melhor e em maior profundidade o que qualquer emblema português, o que não deixa de ser paradoxal), mas sim por o futebol inglês já ter percebido há muito tempo a relevância dos mesmos, garantindo hoje uma cobertura transversal estatística das quatro (!) principais divisões. Em Inglaterra todos os clubes da Premier têm um “GoalPoint” no seu seio. Não vale a pena sequer discutir esse tema. Falamos de um mundo à parte, aproveitemos dele sim o que realmente está ao nosso alcance no imediato: a opção por olhar, discutir e viver o futebol de forma saudável e, já agora, com um pouco de vergonha das figuras que (por cá) fazemos, na ânsia de ganhar.