Leverkusen 3 – Benfica 1: Derrota (demasiado) natural

O Benfica saiu derrotado da Alemanha por 3-1 e o que deverá preocupar mais Jorge jesus é a naturalidade com que aconteceu, bem como a falência do “miolo” e dos extremos.

Cristante foi um dos presentes no "apagão encarnado" em Leverkusen (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Cristante foi um dos presentes no “apagão encarnado” em Leverkusen (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

No já longo reinado de Jorge Jesus poucas terão sido as vezes em que o Benfica mostrou uma impotência tão grande perante um adversário. Certamente que aconteceu mais vezes nas provas europeias, mas esta quarta-feira, frente ao Bayer Leverkusen, a “águia” simplesmente não teve coração nem asas para voar. E até Júlio César contribuiu para o lote de erros, ao largar a bola no 1-0, da autoria de Stefan Kiessling, aos 25 minutos.

Coração porque o meio-campo simplesmente não funcionou, em especial na primeira parte. Se é verdade que no futebol de ataque de Jorge Jesus costuma ser a “arte de defender com poucos” (citando o treinador) que costuma dar as primeiras mostras de claudicar, perante adversários que se superiorizam na intermediária, também é certo que o “miolo” benfiquista pelo menos costuma dar um ar da sua graça a atacar. Nesta segunda jornada do Grupo C, e depois da derrota caseira contra o Zenit, os “encarnados” voltaram a mostrar debilidades idênticas, em especial nas marcações e na forma de contrariar o futebol de tabelas e desmarcações dos alemães.

“Miolo” desfeito

Bryan Cristante foi a grande novidade no 4-4-2 benfiquista, ao lado de Enzo Pérez, e começou aqui a derrocada lusa. A forma como o jogo se foi desenrolando reflectiu a ideia de uma estrutura mal montada e desadequada a este adversário, em especial no posicionamento táctico. O Leverkusen, num clássico 4-2-3-1, asfixiou totalmente o primeiro momento de construção benfiquista, com três e quadro jogadores a pressionarem bem à frente e a anularem Cristante e Enzo, bem como qualquer linha de passe. A meio da primeira parte os germânicos levavam já sete remates, contra zero do Benfica, sendo dois deles enquadrados. E chegou aos 12 (seis com boa direcção) antes de os visitantes conseguirem os dois primeiros (ambos bloqueados e na mesma jogada).

Os homens da Luz simplesmente não conseguiam fazer transições pelo meio e as “asas” Nico Gaitán (17 perdas de bola) e Salvio (22) não funcionavam, perante a velocidade e impecável posicionamento de Wendell (14 roubos de bola e seis entradas) e Roberto Hilbert (seis e oito). Defensivamente as dificuldades eram notórias, com Cristante e Enzo posicionados lado a lado e sem saberem bem o que fazer. O italiano mostrou-se perdido, não pressionando nem nas alas nem no eixo, e quando ajudava os laterais criava-se um buraco enorme em zona frontal, como aconteceu no 2-0, da autoria do espectacular Heung-Min Son.

Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)

Números pobres

Assim o Benfica chegou ao intervalo com números pobres. Apenas dois remates à baliza, nenhum enquadrado, e todos de fora da área, dois cantos, 172 passes, com uma eficácia de somente 70,3% e 47,3% de posse de bola. Ao invés, o Leverkusen apresentava 14 disparos à baliza, seis deles enquadrados e sete já dentro da área, 58,5% dos duelos ganhos, 77,4% de passes certos (de 186) e 52,7% de posse de bola. Individualmente, o coreano Heung-Min Son era o grande quebra-cabeças, um jogador exímio a explorar os espaços dados pelos “encarnados”.

Jorge Jesus reagiu ao intervalo e lançou Maxi Pereira e Lima, para os lugares de Cristante e Talisca, ambos muito apagados e quase sem participação no jogo (o italiano, por exemplo, só recuperou duas vezes a bola e perdeu-a oito vezes em 45 minutos). A ideia era simples, mover André Almeida da direita para a posição de “trinco”, permitindo a Enzo subir e pressionar mais, e dar outra acutilância ofensiva com Lima. Em parte resultou, pois o Benfica conseguiu um golo, mais remates, teve mais a bola e foi mais afoito, mas os problemas mantiveram-se nas alas e defensivamente os alemães continuaram a fazer combinações em progressão que não tinham resposta adequada por parte do meio-campo benfiquista, e os laterais (em especial Eliseu) eram demasiadas vezes apanhados em contra-pé, não sabendo o que fazer perante dois adversários e deixando sempre aparecer um nas costas.

Alemães rematadores, coreano de luxo

No final os números são esmagadores e traduzem fielmente a incapacidade da formação portuguesa perante a germânica. Seis remates contra 22 do Leverkusen (apenas um enquadrado contra dez), 12 disparos alemães na grande área contra três do Benfica, 318 passes do Bayer, 412 das “águias”. As alterações de Jesus conseguiram virar os valores de posse de bola (56,1%) a favor dos “encarnados”, e melhorar a precisão de passe (75%) nos números finais, mas nada conseguiu alterar o rumo natural dos acontecimentos.

Luisão e Enzo Pérez, com dois remates cada, tentaram remar contra a maré e o único disparo de Salvio acabou por dar o 2-1, antes de Hakan Calhanoglu fazer o 3-1 de penalty. No passe apenas os defesas se destacaram, o que demonstra a dificuldade benfiquista no meio-campo e nas transições. Luisão foi mesmo dos melhores, com uma entrada, oito alívios, três intercepções.

Do lado contrário, um nome destacou-se claramente. O coreano Heung-Min Son mostrou velocidade, técnica, inteligência táctica, mobilidade e simplicidade de processos. Terminou com sete remates à baliza (cinco enquadrados), marcou um golo, criou quatro oportunidades de golo (tantas quantas Calhanoglu), 30 passes, com 86,7% de eficácia, 26 passes no meio-campo benfiquista (84,6% certos) e 51 toques na bola (o quarto com mais na sua equipa). Verdadeiramente endiabrado.