Liga NOS | Doumbia é flop entre flops 👎

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A posição de ponta-de-lança é talvez aquela que exige mais cuidados na altura de ir ao mercado. Falamos de uma das funções mais decisivas dentro das quatro linhas, tendo em conta que, em muitos casos, o trabalho de toda uma equipa depende da eficácia do, ou dos, homens da frente, para ser convertido em algo “palpável”. Mas não só. Os goleadores são também, habitualmente, os activos de mercado mais dispendiosos, precisamente pelo grau decisivo (e até mediático) que têm associado.

Ora a história recente da Liga NOS está cheia de contratações para essa posição que surpreenderam os menos conhecedores, tanto pela negativa como pela positiva. Jonas, por exemplo, melhor marcador da edição actual, chegou ao Benfica a custo zero e dispensado por um Valência que acabava de pagar €30M por Rodrigo Moreno, autor de tantos golos em três épocas de Benfica (27) como Jonas já leva na actual em apenas 24 jornadas. Mas há mais, como Mitroglou, que em Portugal e na Grécia foi sempre garantia de rendimento elevado e tem definhado em França, tal como já tinha acontecido em Inglaterra.

Pelo Dragão, também tem havido de tudo um pouco. Na época passada chegou Laurent Depoitre a troco de €6M enquanto Vincent Aboubakar e Moussa Marega (e até Gonçalo Paciência) eram emprestados. Apenas um ano depois, parece inacreditável como isso pôde acontecer. Mas aconteceu.

GoalPoint-Depoitre-Porto
Depoitre chegou num Verão em que saíram Aboubakar e Marega

 

O Sporting é um caso paradigmático de sucesso em duas opções bem diferentes. Uma bastante barata, Islam Slimani, e outra bastante cara, Bas Dost. Em qualquer um dos casos o rendimento foi elevadíssimo, mas o mesmo não se pode dizer das alternativas para os seus lugares. Slimani teve como “sombras” Tanaka, Hernán Barcos e André, enquanto Bas Dost foi tendo como alternativa Luc Castaignos e agora o marfinense Seydou Doumbia. É sobre este último que temos que falar.

Há pouco tempo escrevi que um dos grandes problemas da falta de rendimento de Doumbia era o facto da equipa lhe “pedir” as mesmas coisas que “pede” habitualmente a Bas Dost. Um mês passou, as coisas mudaram ligeiramente no que toca ao modelo de jogo, mas o rendimento do marfinense continua sofrível. Doumbia trazia da Suíça um registo de golos muito interessante. Foram 20 ao todo, mas é curioso que quase metade (sete) tenham surgido em período de descontos de jogos em que saltou do banco. A referência de ataque, curiosamente, era o ex-Porto, Marc Janko (13 golos), que esta época foi substituído pelo ex-Sporting, Ricky van Wolfswinkel (7 golos em 13 jogos). Serve isto para mostrar duas coisas elementares. A primeira é que o nível da Liga Suíça está longe de servir de referência, a segunda é que Doumbia raramente era utilizado como principal referência do ataque do Basileia.

GoalPoint-Doumbia-Basel
Os 20 golos de Doumbia na Liga Suíça devem ser relativizados

 

Jorge Jesus afirmou publicamente que Doumbia e Bas Dost não “colam” um com o outro, portanto o marfinense foi visto como alternativa directa ao holandês e não como complemento. Vamos então comparar os seus números na Liga NOS com o de outros avançados recentes do Sporting (Barcos e Castaignos não entram na análise por não terem sequer completando 180 minutos), mas também com duas referências ofensivas (Depoitre e Derley) que falharam indiscutivelmente em cada um dos outros “dois grandes”.

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Médias por 90 minutos em jogos da Liga NOS
Fonte: GoalPoint/Opta

Desde logo destaque para o facto de, em mais de 500 minutos, Doumbia não ter ainda registado nenhum golo ou assistência. Qualquer um dos jogadores em comparação conseguiram pelo menos um de cada, e o japonês Tanaka, aquele que tem o tempo de utilização mais próximo, anotou um total de cinco golos.

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Com quase o mesmo tempo de jogo, Tanaka esteve envolvido directamente em 6 golos

 

Olhando aos números, não é difícil perceber porquê que os golos não aparecem. O marfinense falhou as cinco ocasiões flagrantes de que dispôs no campeonato (quase uma por jogo) mas, pior que isso, falhou a baliza em 81% dos remates que executou dentro da grande área. Entre os quatro “flops” da comparação, Derley é quem mais se aproxima, mas ainda assim dobra a eficácia do marfinense.

A falta de acerto na finalização não é compensada por jogo associativo, visto que Doumbia em 512 minutos só soma dois passes para finalização (25% dos de Tanaka), e é preciso olhar aos dribles para encontrar algo em que o africano é mais forte que os outros e que… Bas Dost. É sabido que este é um recurso que o holandês praticamente não usa, por isso ficam bem claras as diferenças de perfil entre os dois jogadores que Jorge Jesus vê como ocupantes da mesma posição.

As culpas deste “tiro ao lado” terão que ser tripartidas. Entre o próprio jogador que falha demasiado, os dirigentes que decidiram a contratação (por três milhões de euros) de um atleta em claro ocaso de carreira, e o treinador que lhe pede que seja algo que nunca foi. O veredicto, no entanto, é bem claro: Doumbia é dos maiores “flops” das últimas épocas no futebol português. Ao pé dele, nomes como Depoitre e André, que foram motivos de gozo (com ou sem razão) quase unânime, apresentaram rendimento superior, e isso é uma nódoa que será dificilmente esquecida.

Hernâni Ribeiro
Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e gestão de informação, e Data Scientist profissional. É Head of Analytics na GoalPoint e responsável pela GoalPointPro
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