Uma tese muito propalada em Portugal, quando o assunto são estatísticas, é a de que mostram tudo menos o essencial. A opinião não fica habitualmente confinada ao futebol, mas, centrando-me nele, gostaria de desmistificar um pouco essa ideia.

Primeiro, lembrando que o essencial no futebol é o golo. Por muito pouco romântica que seja esta visão, as regras do futebol não deixam grande margem para dúvidas. É mesmo esse o objectivo do jogo: fazer com que a bola entre na baliza do adversário, se possível mais vezes do que as que entra na nossa. A essa contagem, das bolas dentro da baliza, dá-se habitualmente o nome de resultado e, tenho más notícias para quem nunca reparou nisso, essa contagem é ela própria uma estatística.

Gostava por isso que me fosse permitido reformular a muito propalada tese. Não sendo eu um extremista que pensa que o resultado é tudo o que interessa no jogo, a estatística – essa estatística – mostra mesmo o essencial. Aquilo que determina as vitórias, as derrotas, os troféus, as descidas de divisão, etc. É assim porque, como em muitas outras coisas na vida, é necessário encontrar uma medida objectiva para premiar os mais competentes.

Se eu acho que a estatística do resultado revela tudo? Claro que não. Revela apenas o essencial, mas é aí que entra a estatística avançada, precisamente para ir além do essencial. Porque sim, há estatísticas enganadoras e o resultado é muitas vezes uma delas.

Nos dias de hoje, em que como espectadores somos assoberbados de conteúdo, futebolístico e não só, procuramos um pouco mais do que o resultado na hora de escolher o que queremos consumir com os olhos. Naturalmente, pelo menos quando não joga o clube do coração, procuramos algo que nos entretenha, nos divirta, nos conquiste pela inventividade ou pela organização. Enquanto espectadores temos todo o direito de procurar isso em vez do resultado e da equipa que ganha mais vezes. Talvez seja isto que muitos definem como essencial, apesar de não o ser, mas que tem efectivamente a sua importância.

Essa identidade e personalidade das equipas não é tão fácil de medir com estatísticas, mas foi isso que tentei fazer. Com dois eixos de comportamento muito simples, tentei caracterizar as 18 equipas da Liga NOS em termos de controlo e objectividade, que defini desta forma:

  • Controlo: A média de tempo que cada equipa mantém a bola quando a tem em posse. Isto mostra a capacidade da equipa em reter a bola e evitar que o adversário a recupere, e tem acopolado um estilo de jogo mais paciente e associativo.
  • Objectividade: A percentagem de posses de bola que resultam em ocasiões de perigo. Por ocasião de perigo entenda-se um remate com probabilidade de terminar em golo superior a 10%, de acordo com o nosso modelo de Expected Goals (xG).

Para cada um destes parâmetros, medimos não só o que faz cada equipa, mas também o que cada uma delas permite aos adversários, o que nos dá uma avaliação quantitativa e qualitativa dos processos ofensivos e defensivos de cada conjunto.

PROCESSO OFENSIVO

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Posicionando cada uma das equipas em dois eixos relativos a cada um dos parâmetros, conseguimos perceber desde logo algumas características relativas à forma como cada uma das formações tenta impor o seu jogo quando tem a bola.

Benfica e Porto estão num nível de domínio completamente à parte, sobretudo pela capacidade de criar perigo, mas desde logo se nota um conjunto de três outras equipas (Braga, Rio Ave e Belenenses) com muita qualidade na hora de atacar. O Rio Ave é mesmo, a par do Benfica, a que mantém a posse de bola com mais qualidade. Em média demora 10,3 segundos a perdê-la, algo que era ainda mais vincado na “era José Gomes” (11,2 segundos).

Quanto ao Benfica, a grande diferença entre Rui Vitória e Bruno Lage no processo ofensivo é a objectividade e a facilidade com que passou a criar lances de perigo, visto que em termos de controlo estão praticamente iguais.

Por processo inverso passou o Sporting com a entrada de Marcel Keizer. A equipa manteve a objectividade com que tenta chegar à baliza, mas com o holandês as posses de bola são mais prolongadas.

Uma das mudanças mais drásticas deu-se no Marítimo. Cláudio Braga foi o segundo treinador a ser alvo da chamada “chicotada psicológica”, mas o resultado não foi particularmente positivo, como se percebe no gráfico abaixo, com os insulares a piorarem em ambos os parâmetros.

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Outra equipa com tentativa muito vincada de controlar os jogos é o Belenenses, de Silas. Em relação a Braga e Rio Ave, a diferença é sobretudo a de o fazer em zonas mais recuadas. Nenhuma equipa da Liga NOS começa as suas posses de bola tão atrás no terreno, e a progressão média por posse é de apenas 14,8 metros (só Boavista e Feirense fazem pior).

Menos impositivos, mas também com características bem definidas no seu processo ofensivo, temos o Tondela e o Aves. Claramente estão bastante mais confortáveis num estilo de jogo directo, mas que não deixa de ser eficaz na criação de perigo. O Aves é mesmo a formação que menos trocas de passes faz (dois a cada posse), e o Tondela a que menor percentagem de posses tem com cinco passes seguidos (apenas 10%), mas conseguem igualar equipas como Sporting e Vitória de Guimarães na objectividade.

PROCESSO DEFENSIVO

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Aqui olhamos da perspectiva inversa, ou seja, aquilo que cada equipa permite aos adversários fazer. Neste caso, a competência defensiva do Porto fica bem demarcada dos demais. Não só é o conjunto mais efectivo a recuperar rapidamente a posse de bola (apenas 11% das posses adversárias têm cinco passes ou mais), como é o que menos criação de perigo permite aos adversários. Isso fica claramente consubstanciado pelos escassos 15 golos que sofreu, menos oito que Benfica e Vitória de Guimarães.

Os quatro primeiros classificados têm os processos defensivos mais sólidos, mas há um curioso “intruso” neste lote: o Vitória de Setúbal. Tanto com Lito Vidigal como com Sandro Mendes, os sadinos estão muito confortáveis com as suas linhas bem recuadas e nem sequer procuram recuperar rapidamente a bola, mas é muito complicado penetrar a sua “muralha” e criar perigo. Os 27 golos sofridos no campeonato – tantos como o Sporting – validam a análise.

Quem também tem aplicado essa fórmula com extremo sucesso é Augusto Inácio no Aves. A partir da jornada 18, apenas 0,8% das posses de bola dos adversários terminam em situações de perigo, mais do que dobrando a eficácia defensiva apresentada na “era José Mota” (1,7%).

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Destaque curioso neste gráfico é também a grande mudança a nível defensivo no Boavista. Se com Jorge Simão a equipa era bastante competente a recuperar rapidamente a bola, mas quando não o fazia revelava muita permeabilidade, com Lito Vidigal não tem problemas em deixar jogar, mas tornou-se mais difícil criar situações de perigo.

Ficam também aqui bem expostas as carências do Rio Ave, apesar do já elogiado bom processo ofensivo. É que, tanto com José Gomes como com Daniel Ramos, a equipa denota grande dificuldade em organização defensiva.

RESUMO

Claramente há duas equipas que se destacam das demais pela competência nas diferentes valências e não é por acaso que estão a lutar pelo título. O Benfica, mais ofensivo e objectivo – sobretudo com Bruno Lage -, e o Porto, com uma solidez defensiva muito acima da média.

Fica também bem claro o porquê de o Sporting não ser ainda um verdadeiro candidato ao título. As bolas paradas, sobretudo as grandes penalidades, têm ajudado a mascarar imensas dificuldades ao nível do processo ofensivo para uma equipa deste nível.

Braga, Vitória de Guimarães e Belenenses são formações sólidas e equilibradas, que estarão muito provavelmente “condenadas” a terminar nos seis primeiros lugares, com Moreirense, Santa Clara e Portimonense num segundo patamar de solidez em ambos os níveis.

Sobram depois algumas equipas com características bem vincadas, que apontam a diferentes públicos. O Rio Ave é – mas já foi mais – garantia de jogos entretidos, com muitos golos em ambas as balizas, algo que o Nacional replica, mas sem tanta qualidade no processo ofensivo.

Aves e Vitória de Setúbal são equipas a seguir para quem aprecia blocos baixos e bem fechados, complementadas com jogo vertical e directo, algo também privilegiado pelo Tondela, mas com mais permeabilidade a nível defensivo. O Aves é também uma equipa a seguir pela qualidade ímpar nas bolas paradas, algo que não coube nesta análise.

O Feirense é claramente a equipa mais pobre ao nível da criação, mas Boavista, Vitória de Setúbal e Marítimo, com os actuais treinadores, também apresentam preocupações a esse nível, agora que vamos entrar na recta final do campeonato e são precisos golos para escapar aos últimos lugares.

A enorme quantidade de dados estatísticos recolhidos nos dias de hoje permitem-nos este tipo de exercício, e outros, ainda bem mais complexos. Aqui, a “aventura” foi resumir algo tão subjectivo como a identidade das equipas em apenas quatro variáveis, mas o nível de detalhe a que se pode ir no sentido de traçar o perfil de uma equipa de futebol e dos seus jogadores é cada vez mais extenso, e temos o gosto de fazer isso profissionalmente.

Para já, fica assim feito aquilo que chamámos de teste de identidade para as 18 equipas da Liga NOS. Com estatísticas, pois claro, porque é o que fazemos por aqui, mas sobretudo com cérebro, o verdadeiro elemento essencial em qualquer análise.