Cinquenta e uma faltas. Começo logo pelo exorbitante número que dá origem a este artigo. O registo aconteceu na última partida da jornada 14 da Liga NOS, jogo entre o Marítimo e o Sporting de Braga.

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Um olhar atento aos dados revela que se viram mais faltas (51) do que bolas a entrar nas grandes áreas (50), tentativas de drible (45), desarmes (43) ou passes certos de 26 dos 28 jogadores envolvidos no jogo (só Marcelo Goiano e Ricardo Ferreira acertaram mais que 51 passes).

Mas terá sido o jogo, arbitrado por Rui Costa, assim tão agressivo? Ele próprio entende que não, porque mostrou apenas cinco cartões amarelos, e dois deles foram por comportamento anti-desportivo.

O que se passou então nos Barreiros, para se atingir este número recorde em jogos da Liga NOS? A resposta é: nada de especial. Num jogo bem disputado, mas que foi apenas o 22º no ranking de duelos disputados (excluindo faltas) da nossa Liga, Rui Costa achou por bem interromper o jogo 51 vezes por lances às margens das leis. Um hábito muito português que contribui (também) para a falta de qualidade do nosso futebol.

Três jogadores (Raúl Silva, Fábio Martins e Jean Cléber) terminaram o jogo com um total de seis faltas cometidas, mas apenas Raúl Silva foi admoestado. Se por um lado se verifica um extremo rigor no uso do apito, esse rigor não é acompanhado no uso dos cartões, tal como (aí sim) manda a lei. Serve isto para criticar, com dados concretos, um estilo de arbitragem que vigora no futebol português e que não tem paralelo em outros campeonatos. Veja-se o “top” de equipas mais faltosas da Europa.

#EquipaFaltas / Jogo (Campeonato)Faltas / Jogo (Europa)
1Tondela19,4-
2Braga18,515,2
3Vitória SC18,111,7
4Feirense17,9-
5Marítimo17,8-
6Moreirense17,7-
6Benfica17,710,8
8Getafe17,5-
9Paços de Ferreira17,4
10Toulouse17,0-
26Sporting15,515,8
28Porto15,414,8
116Bournemouth8,5-

Fonte: GoalPoint / Opta

Está a ver bem. Há oito equipas portugueses no “top 10” das mais faltosas da Europa, mas há outro dado que salta à vista. Mesmo encontrando nas competições europeias jogos com grau de dificuldade teoricamente mais elevado, as equipas portuguesas cometem muito menos faltas “lá fora” do que “cá dentro”.

Só um elemento pode explicar este facto e prende-se com o estilo conservador das arbitragens em Portugal. Apita-se a tudo, porque sim. Porque o medo do erro também é maior e ninguém quer correr o risco de não assinalar aquele “toquezinho” que deu origem a uma jogada de perigo.

É claro que a solução para o problema tem que ser transversal. Esse medo só vai parar de existir quando o “clima” reinante no futebol português for mais leve, mas existe também uma reinvenção de estilo que tem que ser feita. Para bem do futebol e de quem paga para o ver e acaba não o vendo.

Não é aceitável ter 50 faltas num jogo ou uma média de 33. Em Inglaterra, metade dos jogos não chegam às 20 faltas, e não se pode dizer que o futebol seja menos agressivo e que os espectáculos sejam piores. Urge dar lugar aos protagonistas, até nisto, e essa mudança passa por todos, mas também pelos juízes.