Lille – FC Porto: Seria pecado a derrota do “dragão”

O FC Porto é mais equipa, tem melhores individualidades, é mais experiente e competitivo que o Lille e mostrou-o em toda a linha na visita a França.

O Porto foi superior ao emblema francês em practicamente todas as variáveis (infografia: GoalPoint)
O Porto foi superior ao emblema francês em practicamente todas as variáveis (infografia: GoalPoint)

Após a primeira mão do “play-off” da Liga dos Campeões fica a forte ideia de que o FC Porto vai estar presente na fase de grupos da competição pela 19ª vez, após vencer fora por 1-0 (golo de Herrera), e que se o Lille conseguisse afastar a formação portuguesa, tal seria um “crime” lesa-futebol.

Julen Lopetegui efectuou uma transformação na forma de jogar da equipa, reforçando o “miolo” para anular o previsível estilo de jogo de contra-ataque do Lille. Se muitos terão questionado a opção de deixar Ricardo Quaresma no banco para apostar em Casemiro, a verdade é que a alteração da estrutura resultou em pleno, mostrando que as alternativas tácticas deste Porto não se resumem a criatividades do momento, mas obedecem a uma lógica que a equipa trabalha objectivamente.

Em comparação com o jogo do Marítimo (sim, são adversários e competições diferentes), o FC Porto não caiu no erro de repetir a tendência de ataque continuado e defesa extremamente subida, mostrando que conhecia o adversário – o Lille jogou no erro portista, apostando nas transições rápidas. Num sistema de 4-1-4-1, os “dragões” atacavam e defendiam em bloco, criando duas linhas defensivas quando o Lille tinha a bola. Assim os franceses pouco ou nada fizeram.

A meio do primeiro tempo o Lille não tinha qualquer remate, os passes errados eram imensos (apenas 60% certos) e apenas perto do intervalo a situação mudou um pouco, com os da casa a terminarem com quatro disparos – todos para fora -, contra três do FC Porto (dois enquadrados). Os 80% de eficácia de passe do Porto contra os 61% do Lille explicam muito do porquê de os franceses apenas perto do descanso terem chegado à baliza contrária com perigo. Os portugueses acabaram o primeiro tempo com 65% de posse de bola, contra 35%. O cenário alterou-se ligeiramente no segundo tempo, perante a pressão do Lille para responder ao golo portista, terminando a formação lusa com 59% de posse contra 41%, e 77% de passes certos (contra 65%). No entanto, a diferença no número de passes foi enorme e reflecte bem a forma como o Porto jogou: 514 perante 365 dos franceses. Um futebol apoiado que permitiu levar a bola até perto da baliza contrária, e dos seis remates portistas, quatro foram efectuados dentro da grande área (quatro com boa direcção). Apenas nos duelos aéreos o Lille conseguiu ser superior – 70% vs 30%.

 

Talento precoce

Em termos individuais, o jovem Rúben Neves, de apenas 17 anos, foi novamente a estrela. Ao intervalo tinha 45 toques na bola, os mesmos que Casemiro, e tal como contra o Marítimo, no final foi um dos mais rematadores com três disparos (o máximo da equipa), um enquadrado, apesar de ter saído a meio da etapa complementar. Teve também mais dribles (cinco) e fez um passe para ocasião, para além de nove (!) cruzamentos, embora nenhum com sequência. Em contraponto, Óliver Torres, na esquerda, não deu seguimento ao bom jogo de sexta-feira passada, tal como Brahimi na direita. A saída do argelino coincidiu de imediato com o golo do Porto, após cruzamento de quem o substituiu, Cristian Tello. Óscar terminou apenas com um passe para ocasião, zero remates e 74% dos 27 passes certos, enquanto Brahimi teve ainda menos (25), embora com melhor aproveitamento (80%). Destaque para Maicon que, com 13 alívios, quatro desarmes e duas intercepções foi dos melhores do Porto.

Em suma, o segredo do triunfo portista esteve na forma como abordou o jogo e se adaptou ao adversário, com conhecimento e competência, criando um núcleo de meio-campo intransponível que anulou quase por completo um Lille frágil e sem soluções.

Apontamento táctico*

Neste jogo já a ”doer” com os franceses do Lille, Lopetegui parece ter encontrado o seu “onze” inicial base que lhe garante maior segurança táctica e física. Com uma dinâmica de jogo já bastante bem trabalhada e incorporada pelos jogadores, este FC Porto mostra um momento ofensivo que assenta num ataque posicional onde a bola assume o papel principal e onde os jogadores realizam bastantes movimentos e combinações de rotura com as linhas defensivas.

A nível defensivo os “dragões” usam um bloco baixo bastante compacto de duas linhas com método à zona que dá bastante iniciativa aos adversários mas que, contudo, mostra ser uma defesa bem organizada e rotinada.

Rúben Neves voltou a demonstrar o porquê da sua aposta, com um futebol e maturidade bastante acima da média e sempre com decisões acertadas e com bom timing. É, sem dúvida, a melhor surpresa deste Porto até agora.

* O “apontamento táctico” é uma rubrica da autoria de Miguel Pontes.