O desfecho era mais do que previsível. Para alguns desde o último terço da época passada (alguns como eu, antes), outros mais recentemente: Lopetegui abandona o FC Porto sem honra e sem glória, protagonizando um invulgar segundo desaire consecutivo dos “dragões” na escolha do treinador. O fracasso foi evidente, logo mais relevante do que detalhar a sua dimensão importa talvez perceber as eventuais causas.

Se há coisa que a minha (curta mas intensa) passagem pelo futebol de clubes me permitiu foi compreender, in loco, as razões pelas quais os treinadores mais falham no futebol moderno. E talvez por isso me tenha convencido, desde muito cedo, que Lopetegui teria vida necessariamente mais curta do que ambicionava ao serviço de um clube que, sob o seu comando, investiu como nunca no sucesso desportivo que, com ele, nunca chegou.

Num exercício meramente observacional avanço aquelas que, no meu entender, poderão ser as principais razões do falhanço do espanhol, algumas sua responsabilidade, outras nem por isso.

1. A opção

Em momento algum acredito que Lopetegui tenha sido uma opção decorrente de uma escolha da exclusiva responsabilidade de Pinto da Costa ou dos responsáveis do futebol portista. Resulta claro, até pelo que se seguiu em termos de opções de mercado dos “azuis-e-brancos”, que o espanhol chegou ao Porto por recomendação e/ou indicação de parceiros do FC Porto. Em teoria o processo em si poderia não representar um problema, caso o treinador correspondesse ao perfil desejado, o que não veio a suceder, pelas diversas razões que se seguem. Mas os indicadores de risco estavam à vista desde o início, com particular ênfase na quase total inexperiência na liderança no contexto de futebol sénior, profissional, de clubes e tudo o que ele implica. Sendo certo que quem acreditou que Lopetegui seria “promissor” pouco mais teria para se agarrar do que isso, num momento em que o FC Porto não se podia dar ao luxo de experimentar “promessas”, ao mesmo tempo em que investia forte no regresso aos títulos.

2. O modelo de jogo

A evolução do Porto 2015/16 vs 2014/15 sob o comando de Lopetegui
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Abordámos aqui, por diversas vezes, os sinais (quantificáveis) de fraqueza do modelo de jogo que o espanhol escolheu implementar no “dragão”. Dedicámos até especial atenção a tudo o que Lopetegui poderia ter encontrado, nos números que afirmou publicamente desconsiderar, que o poderiam ter ajudado a reformular a sua forma de abordar os jogos e que tantas vezes desbocou em redondos números de posse… inofensiva. E a coisa não mudou muito na época em curso. O Porto foi, durante um ano, a equipa que mais passou e com mais eficácia mas raramente aquela que mais oportunidades de golo criou. E sempre teve equipa para o ser. As razões para tamanha “teimosia” apenas o espanhol as deverá conhecer mas arrisco uma já referida no ponto 1: a inexperiência. As restantes poderão estar ligadas às razões que se seguem, de índole mais comportamental.

Um aspecto curioso da passagem por Lopetegui passa pela sua aparente incapacidade para potenciar jogadores. Regra geral os jogadores que estiveram ao seu serviço arrancaram bem, em termos de desempenho quantificável, para caírem ou entrarem em regime de “intermitência”. Não me ocorre qualquer jogador que se possa dizer tenha subido patamares ao serviço do espanhol. Um registo muito pobre para um treinador teoricamente associado ao sucesso do futebol espanhol de formação.

3. O relacionamento

Lopetegui assumiu desde o início, voluntária ou involuntariamente, um postura de quem fazia um significativo “favor” ao futebol português ao assumir o FC Porto. A sua relação com adeptos e imprensa foi sempre fria, distante, agressiva. Nunca o vi sorrir publicamente, embora admita que possa ter sucedido. Numa indústria de entretenimento este tipo de postura é possível, mas não é, em nada, recomendável, ainda para mais num treinador que chega a um clube centenário, vencedor, num país que não o conhece. Ainda no tema da imprensa caiu no erro de privilegiar a imprensa espanhola, até na hora do adeus. Neste particular, enquanto escrevia este texto fui alertado pelo GoalPointer Hernâni Ribeiro para as curiosas razões indicadas pelo espanhol AS para a saída de Lopetegui: a falta (pasme-se!) de reforços de qualidade e o bloqueio mental dos jovens jogadores portistas. Provavelmente está a sorrir perante estas “justificações”, da mesma forma que estará a imaginar, como nós, de onde vêm e como teve a imprensa espanhola acesso prioritário à notícia da saída do técnico. Tudo curioso, conclusivo, mas tremendamente errado.

4. A liderança

Num futebol altamente competitivo e (ainda mais) bem pago a diferença entre o sucesso e o insucesso está, muito mais do que nos conhecimentos técnicos hoje disponíveis a todos, na capacidade de mobilizar um plantel. Quando os jogadores acreditam no líder seguem-no, porque sabem que estarão mais perto de atingir os seus objectivos, por mais egoístas que estes sejam. Quando ocorre o inverso não há metodologias de treino, opções tácticas e “génio de banco” que salve um treinador. Veja-se o caso recente de José Mourinho, que foi, no passado, um exemplo neste aspecto.

Agregar pela liderança não passa por fazer “cara de mau” mas sim por muitos outros factores, directa ou indirectamente relacionados com o plantel, que condicionam a fé do grupo no líder e nas suas ideias. Não faltaram exemplos, nas últimas duas épocas, de sinais de que os jogadores do FC Porto não acreditavam no comandante, o mais recente Brahimi, na Madeira. Lopetegui beneficiou, apesar de tudo, de uma reformulação radical do plantel no último Verão mas nem assim conseguiu demonstrar sinais de evolução neste capítulo. Das entradas e saídas inexplicáveis das opções à incapacidade quase total de vencer nos momentos decisivos, passando pela inépcia na hora de inverter o rumo dos acontecimentos, não faltaram razões para que os jogadores do Porto se sentissem entregues a alguém incapaz de os levar à vitória.

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Concluída a novela Lopetegui fica-me apenas a legítima dúvida: quis o espanhol realmente  treinar o FC Porto? A ideia que fica é que nunca foi feliz na “invicta” e que a sua mente esteve sempre num regresso a Espanha, até tendo em conta as competições que, erradamente, decidiu priorizar. Uma passagem infeliz que nem o próprio nem o FC Porto, que é o que mais interessa numa perspectiva da competitividade do futebol português, quererão recordar por muito tempo.

Quanto ao FC Porto a margem é cada vez mais curta. Nos últimos três anos os “dragões” falharam nas duas abordagens possíveis: a escolha de Pinto da Costa (Paulo Fonseca) e a escolha recomendada (Julen Lopetegui). E se no primeiro caso o contexto tenha sido muito mais madrasto do que a real capacidade do treinador para a tarefa (que talvez tenha chegado cedo demais), já o segundo apenas poderá levar o FC Porto a reclamar novamente para si uma decisão tão importante como é a de escolher o próximo treinador de um clube habituado a ganhar. O falhanço foi duro demais. E quem paga (em todos os sentidos) é Pinto da Costa, não quem lhe recomendou o timoneiro.