Marítimo | “Se pudesse jogava com mais quatro defesas” 🚌

-

[vc_table][/vc_table]

A 22 de Setembro de 2016 o Marítimo abriu as portas a Daniel Ramos para este assumir o comando da equipa técnica da equipa madeirense. Desde esse momento, os insulares partiram para uma fantástica sequência de resultados que dura até hoje. O mau início da temporada passada, aos comandos de PC Gusmão, foi corrigido, a equipa acabou no quinto lugar (que deu acesso à Europa) e – talvez mais impressionante que isso – em 2017/18 continua a mostrar resultados.

GoalPoint-Preview-Jornada15-Porto-Maritimo-LIGA-NOS-201718-infog
Clique para ampliar

Daniel Ramos tornou-se num dos treinadores mais respeitados em Portugal, tendo ficado nos pódios de Treinador do ano GoalPoint da época passada, tanto da Primeira como da Segunda Liga, e esta época vai repetindo a façanha. No início desta jornada 15, está a um ponto apenas do quarto posto, quando se prepara para defrontar o FC Porto, no Dragão. Numa segunda-feira em que vão tentar fazer o líder tropeçar em casa, tentaremos explorar as ideias por detrás do sucesso dos “verde-rubros”.

Tudo parte do momento sem bola. Com a terceira melhor defesa da Liga em 2016/17, e agora a quarta em 2017/18, este Marítimo defende muito bem e – ao contrário de uma equipa como o Rio Ave, por exemplo – escolhe fazê-lo sem bola na maior parte do tempo. Com linhas bastante recuadas e o objectivo primário de não sofrer golos, à primeira vista poderia olhar-se para este Marítimo como mais uma “equipa pequena” a fazer o seu jogo natural. Mas se aprofundarmos a análise, entendemos que é muito mais que isso.

Sem medo de dar a iniciativa

Os insulares encontram-se muitas vezes recuados no terreno, é certo, mas nem sempre forçados a tal. É sim, por interesse próprio. Os homens de Daniel Ramos mantêm a quarta menor percentagem de posse de bola do campeonato e encaram com naturalidade ainda o facto de só seis equipas sofrerem mais remates por jogo – 12,9. Tudo isto porque os madeirenses não deixam que estes se transformem em oportunidades para os seus oponentes. A grande maioria dos disparos partem de zonas pouco perigosas e, mesmo quando ocorrem mais próximos, os maritimistas tendem a ter muitos homens a dificultar o remate – só três equipas bloqueiam mais remates por jogo.

[vc_table vc_table_theme=”simple”][bg#000000;c#ffffff],[align-center;bg#000000;c#ffffff]M%C3%A9dia%20%2F%20Jogo,[align-center;bg#000000;c#ffffff]Rank%20na%20Liga%20NOS|[b]Golos%20sofridos,[align-center;b]0%2C7,[align-center;b]4|Remates%20permitidos,[align-center]12%2C9,[align-center]12|Ocasi%C3%B5es%20flagrantes%20permitidas,[align-center]1%2C2,[align-center]5|[b]Desarmes,[align-center;b]19%2C4,[align-center;b]1|[b]Intercep%C3%A7%C3%B5es,[align-center;b]15%2C6,[align-center;b]3|[b]Bloqueios%20de%20remate,[align-center;b]3%2C1,[align-center;b]4|[b]Bloqueios%20de%20cruzamentos,[align-center;b]3%2C0,[align-center;b]1|[b]Al%C3%ADvios,[align-center;b]30%2C6,[align-center;b]1|[b]Duelos%20a%C3%A9reos%20defensivos,[align-center;b]19%2C7,[align-center;b]1|Faltas%20cometidas,[align-center]17%2C8,[align-center]5|[b]Erros%20defensivos,[align-center;b]0%2C0,[align-center;b]1[/vc_table]

Muito bem organizados e coordenados entre sectores, tornam difícil aos adversários fazer aquele tipo de passe fulcral que coloca um jogador isolado em posição de finalização, já que se abrem poucos espaços entre linhas. Assim, só os “três grandes” e o Vitória de Guimarães permitem menos ocasiões flagrantes por jogo que o Marítimo (que regista 1,2).

Não sobram muito mais vias de criação de perigo para além dos cruzamentos, pelo que melhor o plano será mesmo empurrar os adversários para as alas e forçá-los a tentar cruzar – e há poucas equipas em Portugal tão boas a lidar com os cruzamentos do que a formação madeirense. Os laterais fazem um bom trabalho a não deixar que a bola entre na grande área – ninguém bloqueia tantos cruzamentos como o Marítimo, com três por jogo – e, mesmo quando ela passa, os centrais tendem a ser imperiais. Zainadine e Dráusio, a dupla de eleição do momento, vencem um combinado de oito duelos aéreos defensivos por jogo – números só comparáveis aos da aclamada dupla do FC Porto, composta por Marcano e Felipe.

Para bater este Marítimo é preciso atrair os seus defesas para fora de posição para, depois, romper pelos espaços que se possam abrir. Por cá são poucas as equipas com tendência natural ou jogadores para tal, logo a maior parte das vezes acabam por cair no jogo que os maritimistas desejam e torna-se difícil batê-los.

Ataque pragmático e eficaz

Olhemos agora ao prisma ofensivo da equipa. Se o Marítimo já tinha finalizado 2016/17 como o nono melhor ataque, esta temporada tem o décimo registo, com 15 golos marcados. Mais impressionante só mesmo o facto de ninguém no campeonato fazer menos remates por jogo.

[vc_table vc_table_theme=”simple”][bg#000000;c#ffffff],[align-center;bg#000000;c#ffffff]M%C3%A9dia%20%2F%20Jogo,[align-center;bg#000000;c#ffffff]Rank%20na%20Liga%20NOS|[]Golos%20marcados,[align-center]1%2C1,[align-center]10|Ocasi%C3%B5es%20flagrantes,[align-center]1%2C4,[align-center]6|%25%20Ocasi%C3%B5es%20flagrantes%20convertidas,[align-center]52%2C6%25,[align-center]4|[b]Remates,[align-center;b]8%2C6,[align-center;b]18|[b]Cruzamentos%20(bola%20corrida),[align-center;b]11%2C3,[align-center;b]16|[b]Passes,[align-center;b]297,[align-center;b]17|[b]Passes%20(meio-campo%20contr%C3%A1rio),[align-center;b]169,[align-center;b]18[/vc_table]

Quando recuperam a bola em zonas recuadas, os maritimistas tiram o máximo proveito dos contra-ataques. Sendo o segundo conjunto que menos passes faz no geral e o primeiro que menos passes executa no último terço do adversário, os números demonstram também esse jogo directo. Em situações de contra-ataque, os adversários são geralmente apanhados descompensados e há espaço por onde atacar – logo os remates tendem a ser feitos de zonas favoráveis, sendo que 55% dos do Marítimo ocorrem na área.

A excelente forma dos atacantes do clube ajuda: só os “três grandes” marcam uma maior percentagem de remates que o Marítimo (que regista 12,4%), para além de terem a quarta mais alta taxa de conversão de oportunidades flagrantes. Os remates podem não ser muitos, mas a eficácia está lá.

Os dois melhores marcadores – Ricardo Valente, a partir de uma ala, e Rodrigo Pinho, ao centro do ataque – encontram-se num momento tal que será difícil de continuar a replicar por muito mais tempo. Com uma taxa de conversão de cerca de 21% e 15%, respectivamente, estão a transformar em golo uma grande porção dos seus remates. Independentemente de serem bons finalizadores – principalmente o brasileiro –, é natural estes números irem caindo ao longo da época.

Trabalho de casa bem feito

Já um factor que parece continuar a dar garantias neste ataque são as bolas paradas. Enquanto na temporada passada foram o grande alicerce ofensivo da equipa, nesta constituem apenas 27% dos golos marcados. Se o rácio de finalização for caindo ao longo da época, será aqui que se vão apoiar para continuar a fazer golos. Apesar da perda de jogadores como Raúl Silva ou Maurício, os seus substitutos não têm problemas no jogo aéreo e devem corresponder.

Ninguém no campeonato tem mais passes para finalização a partir de livres do que Edgar Costa – um aumento em comparação com o ano passado –, o que nos indica que as ocasiões até se mantêm. Já o decréscimo de oportunidades de canto estará ligado também ao facto de Luís Martins, lateral de grande qualidade nestas situações, ter somado poucos minutos. No fundo, é previsível um Marítimo a nivelar a eventual queda da frequência com que os seus avançados marcam, através das bolas paradas ofensivas de onde extraíram sucesso na época passada.

Ao falarmos desta equipa não podemos deixar de mencionar a impressionante sequência de resultados em casa – a formação de Daniel Ramos ainda não foi derrotada na Madeira para o campeonato desde a sua chegada. Sendo a equipa que regista uma maior diferença entre o apoio dos adeptos em casa e o que se verifica fora – poucos são os que viajam até ao continente a cada duas semanas, mas ocupam constantemente a maioria do seu renovado estádio –, tal torna-se compreensível.

A simplicidade do sistema teve um enorme impacto também na transição para esta temporada. Após perderem vários jogadores de relevo que eram habituais no “onze” titular, incluindo os dois centrais que eram as suas pedras basilares, os “leões da Madeira” reergueram-se sem grandes dificuldades. As características que se pedem de um central ou um médio-defensivo neste sistema, por exemplo, não são de elevada complexidade. Tal leva a um aumento do leque de escolhas no mercado, já que bastantes se encaixam no perfil, tanto para as exigências em campo, como para aquilo que é necessário para a integração no grupo.

Este último detalhe parece de relevo: Ramos juntou um grupo unido, de mentalidade forte, no qual apenas dois jogadores de campo não têm o português como língua materna, e onde não parece haver atritos fora de campo. Apesar de os insulares terem pouco poder no mercado de transferências, uma grande porção das entradas têm tido sucesso, para além de haver um grande trabalho do treinador a moldar certos atletas. Ricardo Valente tem 26 anos e, neste momento, está já com números próximos dos que obteve nas suas épocas mais produtivas; Jean Cléber era o médio-defensivo suplente da equipa e foi transformado na peça mais ofensiva do miolo para esta temporada, aos 27 anos.

Não seria surpresa se, após levar a equipa a bom-porto de novo nesta temporada, o treinador ganhe mesmo a oportunidade num outro mercado, algo que já tem vindo a ser aventado. Se é compreensível que muitos não se identifiquem com este modelo de jogo, menos apaixonante, será difícil não apreciar o sucesso quando este vem de um trabalho meticuloso e inteligente.

Tiago Estêvão
Tiago Estêvão
Performance Analyst na GoalPoint, já colaborou com a Statsbomb e WhoScored, entre outros.
GoalPoint

GRÁTIS
BAIXAR