Estreia pela selecção principal aos 15 anos, 1500 minutos de primeira divisão norueguesa e contratado pelo Real Madrid aos 16 (após uma batalha entre todos os outros colossos europeus pelos seus serviços). A carreira de Martin Ödegaard tornou-se assunto relevante na cabeça da maior parte dos adeptos do futebol europeu – mesmo que nunca o tivessem visto nas quatro linhas. O mediatismo da transferência levou a que muitos previssem o pior para o jogador, independentemente do seu talento. Jogou a totalidade de uma partida na Taça do Rei, meia-hora na La Liga, mas em Espanha passou a maior parte do tempo com o Castilla, na 2ª Divisão B.

O “hype” foi-se dissipando, complementado pelo facto do Real Madrid ter investido mais de 100 milhões de euros em dois outros adolescentes (Vinícius Júnior e Rodrygo), que muito desviaram o olhar mediático e a pressão dos ombros de Ödegaard. O norueguês, nascido em 1998, entretanto já somou mais de 10 mil minutos em campo na sua carreira, com ajuda de duas épocas verdadeiramente impressionantes em terras holandesas, cedido a título de empréstimo. Na última temporada pelo Heerenveen e este ano no Vitesse, Ödegaard tem feito mais que suficiente para não ser esquecido pelos “madridistas”.

Canhoto e com os requisitos clássicos de um “número 10”, Ödegaard tem assumido sempre posições no corredor direito, a partir do qual deambula para o corredor central. No entanto, apesar de a base do seu jogo se manter clara, evidenciam-se também ligeiras diferenças ligadas à mudança de uma equipa de posse como o Heerenveen para os comandados de Slutsky, uma equipa que acumula menos passes.

Um municiador de ataque

Tecnicamente exímio, mostra toda a sua qualidade na forma como serve os colegas em zonas avançadas do terreno. Com 70% de passes certos para a frente, 79% de entregas certas no último terço do terreno e 0,5 passes de ruptura a cada jogo, vai perfurando blocos defensivos com facilidade. É mesmo responsável por deixar colegas em situações de finalização com frequência, mais ainda nesta temporada, na qual aumentou para 2,8 passes para finalização por 90 minutos muito graças à sua responsabilidade sobre as bolas paradas (1,4 passes para finalização de bola parada) e consequente relação da sua equipa com as mesmas – o Vitesse é a segunda equipa da Eredivisie que mais remata a partir destes lances e a que mais dispara de cabeça.

Martin mostra também imensa qualidade no passe longo – 76% eficácia mesmo quando direccionados ao último terço –, noutra característica muito ligada ao sistema onde está inserido, até pela frequência com que os executa para esta zona final do terreno (2,1). Ainda com bola, o norueguês procura lances de um-para-um cerca de metade (2,6) das (5,1) vezes que tentava na época passada, mas mantém a agilidade e qualidade técnica que o faz ultrapassar adversários na maioria dos cenários – até quando o espaço aperta (65% eficácia de drible no último terço). Não sendo um rematador frequente, o seu pé esquerdo mostra qualidade quando requisitado: os 33% eficácia de disparos de fora-de-área podem até ser bem menor que os 45% da última época, mas deixam-no bem acima da média neste capítulo.

Odegaard-Ronaldo
Quando Cristiano Ronaldo passava testemunho ao jovem norueguês

O grande aumento de acções defensivas têm sido o resultado da influência de Slutsky no craque nórdico: quase triplicou os seus bloqueios de passe (1,3), faz muito mais desarmes (2,3) e diminuiu drasticamente percentagem de desarmes falhados de 49% para 27%. Tendo em conta que a maior produção sem bola não afectou a sua capacidade de influenciar a equipa com o esférico nos pés, Martin Ödegaard é hoje um jogador muito mais completo do que no momento da sua chegada ao Real Madrid. Numa altura em que correm rumores de uma possível saída de Isco do Bernabéu, o norueguês tem o “skill-set” para encarnar o papel do internacional espanhol – e se Solari vai dando oportunidades a Reguilón, Vinicius e Marcos Llorente, não há razão para não deixar “Öde” mostrar ao mundo que o seu talento foi mais do que uma compra impulsiva.