Matheus Uribe, o “panzer” azul que dominou a Luz

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Sólido, robusto, inteligente, boa leitura de jogo, grande capacidade de luta e de choque. Matheus Uribe foi o melhor em campo no empate entre Benfica e FC Porto, esta quinta-feira, no Estádio da Luz, dono de uma exibição a todos os níveis notável, como se reflecte no GoalPoint Rating final, pouco habitual em jogos deste calibre e em jogadores com as responsabilidades conferidas ao médio.

O colombiano foi um pouco de tudo: médio-defensivo, médio-centro, elo de ligação entre todo o futebol “azul-e-branco” e, ao mesmo tempo, principal foco de desagregação do “miolo” benfiquista, fruto da sua capacidade de luta, posicionamento, leitura de jogo e entrega a tarefas defensivas. E ainda fez o golo da sua equipa. No fundo, esta exibição foi como que o retrato da época, não só do Porto, mas também das diferenças que se vão notando entre “dragões” e “águias”, e na capacidade que o meio-campo portista vem evidenciando em 2020/21, uma força que o mesmo sector, do lado do Benfica, nunca conseguiu ter.

[ O statscard de Uribe no “clássico” da Luz ]

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Em todo o lado. É onde esteve Uribe no clássico. Desde muito cedo, mas em especial após o golo do Benfica, apontado por Everton “Cebolinha”, o meio-campo do Porto assumiu o comando das operações, apagando por completo o das “águias”, que se passaram a valer dos três centrais e a apostar nas rápidas transições – e conseguiram-no, definindo depois mal os lances no último terço. O autêntico “vácuo” em que se transformou o meio-campo benfiquista teve como responsáveis Sérgio Oliveira e também Otávio Monteiro, este último motivo de desequilíbrio naquela zona a favor dos visitantes. Mas Uribe foi o ponto de referência.

A construir, a ligar jogo, a defender, Matheus esteve insuperável, como podemos constatar pelos mapas de passes (à esquerda), rede de passes com ligação aos colegas de equipa (centro) e de recuperações de posse (à direita), nada menos que nove, às quais juntou ainda oito acções defensivas, com destaque para três intercepções.

O mapa do centro (da rede de passes) mostra-o claramente como o epicentro de todo o futebol portista do clássico. O número 8 (Uribe) fez rodar toda a equipa, numa distribuição de jogo que encarou pouca oposição “encarnada”, e que teve em Otávio (número 25) o principal destinatário, com dez passes endereçados ao luso-brasileiro. E sempre que se conseguiu soltar, integrou-se no ataque terminando como um dos mais rematadores do jogo, com três disparos, um deles que deu golo.

[ O golo de Uribe ao Benfica ]

Um rochedo ao longo da época

Esta é a segunda temporada de Uribe no FC Porto e, com a saída de Danilo Pereira para o Paris Saint-Germain, por empréstimo, o colombiano assumiu uma preponderância impar na equipa portista. Atrevo-me defender que a vantagem que o Porto teve neste jogo e continua a ter no campeonato em relação aos “encarnados” é mesmo a força do seu meio-campo, o músculo e capacidade de luta que os lisboetas continuam a mostrar não possuir. Para muitos técnicos, analistas de futebol, o meio-campo é o sector mais importante de uma equipa de futebol que procura o sucesso, e Matheus dá ao Porto essa qualidade.

[ Os principais números acumulados de Uribe na Liga NOS 20/21 ]

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O “heat map” de acções de jogo diz quase tudo. Como suporte a Sérgio Oliveira, ou alternando em termos posicionais com o internacional português, o raio de acção de Uribe é verdadeiramente notável. Em terrenos mais recuados, ou integrando-se mais no meio-campo contrário, abrange uma amplitude de terreno assinalável, a defender, a construir, a atacar – como podemos constatar pelos números acima.

A certeza no passe é uma das suas qualidades, mas apesar de ser maioritariamente curto, muitos são ofensivos valiosos (ou seja, para os últimos 25 metros), como demonstram os 2,2 por 90 minutos, número interessante para um jogador de cariz mais perto de médio-defensivo. Porém, é nos momentos defensivos que mais se destaca.

[ Todas as acções defensivas e recuperações de posse de Uribe esta época na Liga ]

À esquerda o mapa das acções defensivas de Uribe esta temporada, que compreendem desarmes, intercepções, alívios, bloqueios de remate, de passe e cruzamento. Ao todo são 165, um número relevante, mas que, ainda assim, não chega aos valores de recuperações de posse. Estas são essencialmente posicionais, que beneficiam da leitura de jogo exímia de um jogador. O mapa da direita mostra as 209 recuperações que o colombiano regista esta temporada no campeonato luso, à 31ª jornada, o valor máximo absoluto da prova, mais 19 que o segundo mais elevado, pertencente a Stephen Eustáquio, do Paços de Ferreira.

Em termos de acções defensivas no meio-campo contrário, Uribe é o terceiro com média mais elevada na Liga – entre jogadores com mais de 1395 minutos de utilização -, registando 2,2 a cada 90 minutos, atrás de João Palhinha (2,8) e Rafa Silva (2,6), o que mostra a sua importância nos momentos de pressão portista em zonas adiantadas do terreno. Uribe é mesmo o jogador do Porto com mais tentativas de desarme (5,7), conseguindo em média 2,3.

Ao longo das últimas décadas – sim, já acompanho o fenómeno do futebol há muitos anos -, uma das razões da superioridade do Porto, com períodos largos de hegemonia, foi a compreensão, no seu seio, da importância que os meios-campos têm na construção de plantéis e equipas sólidas, superiores aos seus adversários. O “mestre” José Maria Pedroto foi o precursor, no Porto, dessa forma de ver o futebol e que, passados estes anos todos, continua actual. Que o diga Uribe.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.