Um golo em 450 minutos, de penálti. Sendo certo que Messi pode ainda melhorar este registo no (irrelevante) jogo de disputa do terceiro lugar, já nada evitará a conclusão óbvia: a Copa América 2019 foi mais uma oportunidade falhada para a Argentina e para o jogador que é, actualmente, maior do que o escudo da AFA que carrega ao peito.

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O pecúlio é muito curto, não só para um Messi, mas sobretudo para o Messi 2018/19, que no futebol de clubes rivalizou com as suas melhores “colheitas” do passado. Ainda assim o argentino esteve longe de estar “desaparecido”, como alguns “haters” foram afirmando. A “pulga” terminou como o argentino mais rematador (16) e ninguém enquadrou mais disparos (6) ou ofereceu mais situações de remate (9) aos colegas, fechando, até ver, com o maior número de dribles eficazes entre todos os participantes do torneio (20). Ainda assim todos pensam o mesmo, “não chega”, incluindo o próprio, que confessou não estar ao seu melhor nível, no decorrer da prova.

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Não faltam teorias para os consecutivos “tangos sofridos” de Messi ao serviço da sua selecção. Uns dirão que o argentino desaparece quando perde a qualidade que o rodeia no Barcelona, outros dirão que não encontra na Argentina condições para mostrar o que de mais genial tem para oferecer.

Cada um escolherá um campo, eu escolho o intermédio. A forma como a Argentina de Scaloni se apresentou na Copa América transmitiu-me as mesmas sensações que outras Argentinas recentes têm deixado. Se por um lado simpatizei com a forma vertiginosa como a “albiceleste” procura retomar a posse, desiludi-me (sem surpresa) com o modo como dificilmente a mantém, de uma forma condizente com a objectividade ofensiva que a qualidade individual dos seus jogadores devia permitir. A garra com que Paredes e Cia recuperam bola dá invariavelmente lugar a uma dificuldade crónica em construir, que termina tantas vezes com um Messi acossado, procurando replicar a velocidade da sua edição “blaugrana”, que tudo o resto não acompanha. Lá na frente mora aquele que para muitos é o melhor avançado da Premier League, Sergio Aguero, igualmente “apagado” pela pressão de aproveitar o que aparece, por oposição a maximizar um fio de jogo que há muito não se vê numa Selecção que, outrora, foi sinónimo de real candidatura aos títulos.

Perante sinais semelhantes, como esperar resultados diferentes? Os jogadores podem mudar, brilhar alto pelos seus clubes, mas os problemas da Argentina parecem ser os mesmos de há muito. A memória é curta mas também muitos de nós, portugueses, chegámos a acreditar que nunca contaríamos com o verdadeiro Cristiano Ronaldo na Selecção. Não terá sido apenas o próprio a mudar essa percepção. Cristiano beneficiou também de tudo aquilo que fez com que a Selecção deixasse de ser um conjunto capaz de um ou outro fogacho para se assumir como uma equipa capaz de lutar por títulos, mesmo que nem sempre o “produto” agrade a todos. Mas Portugal teve, nos últimos dez anos, três seleccionadores. A Argentina já leva nada menos que sete.

É justo pensar algo que há 15 anos seria uma afirmação infundada: sorte teve Ronaldo (e tantos outros) em não ter nascido argentino. Messi, Aguero, Lautaro e tantos outros… estão condenados a aguardar por uma viragem, que ultrapassa muito o que são capazes de influenciar individualmente dentro de campo, enquanto Maradona fuma um charuto, relembrando os tempos em o Futebol permitia que um génio conquistasse troféus “sozinho”.