O insuspeito FC Midtjylland, da Dinamarca, atingiu ontem um feito curioso: no caminho para a fase de grupos da Liga Europa, eliminou o FC Southampton, também ele clube sensação no passado recente da Premier League.

O emblema dinamarquês sagrou-se também campeão da Superliga do seu país pela primeira vez a época passada, após um passado recente marcado por classificações entre o sexto e o terceiro lugar. O que sucedeu? Matthew Benham, proprietário do Brentford de Inglaterra, adquiriu o clube em 2004 e de imediato instituiu uma mudança cultural arriscada: o Midtjylland substituiu os métodos tradicionais de scouting (100% observacionais ou, em muitos casos, de “achómetro”) e introduziu a análise estatística como vértice fundamental na escolha dos melhores (e mais baratos) jogadores para reforçar as suas ambições. Enquanto isso, o Brentford, onde foi implementada a mesma filosofia, atingiu também pela primeira vez os play-offs do Championship (na primeira época no escalão), contra todas as expectativas. Pode ser tudo uma enorme coincidência. Ou talvez não.

Regressamos ao Midtjylland. A “experiência” não ficou por aqui. A “task force” de analistas do clube dinamarquês aplicou o conceito à análise de desempenho da própria equipa, dos adversários e até a factores-chave que envolvem o treino e a preparação dos jogos. O resultado, já o referimos: o clube foi campeão. E esta semana eliminou o Southampton. É cedo para conclusões, pois falamos de números e (sobretudo) da capacidade e inteligência para os analisar e aplicar às necessidades práticas de um clube de futebol, mas não só. Não deixa de ser um bom prenúncio.

O Midtjylland teve a coragem de inovar, talvez por ser um clube pequeno. Noutros contextos, nomeadamente em Portugal, será muito mais difícil identificar clube(s) apostados em experimentar os benefícios da análise. Porquê? A cultura observacional, a lógica de que com três, seis, dez, 20 observações de um jogador sabemos tudo sobre ele reina no futebol português. As culturas instaladas defendem-se perante a inovação e estamos longe de contar com dirigentes com a visão e o brilhantismo de um Matthew Benham.

A análise estatística nunca ditará tudo no futebol. Quem o tentou fazer, levando o conceito “sabermetrics” popularizado em “Moneyball”, não se deu bem. Os números (ainda) não nos permitem quantificar boa parte do que sucede dentro das quatro linhas como a qualidade de posicionamento sem bola, por exemplo. No entanto, é da conjugação de todas as “ciências” hoje à disposição do futebol que advirá o sucesso. E nesta área (a da análise de desempenho ao serviço dos clubes) está quase tudo por fazer em Portugal.

Enquanto isso, aqui no GoalPoint, vamos trabalhando. Aquilo que lhe oferecemos, diariamente, é apenas uma (muito) pequena amostra do que estamos a desenvolver, a criar e a experimentar. O futebol português não tem, infelizmente, capacidade financeira para fazer proliferar gabinetes de análise, “on top” do investimento feito na última década no scouting observacional. As competências também não se ganham de um dia para o outro. Mas para mercados pequenos, soluções engenhosas. Cá estaremos para ajudar quem quiser ser ajudado. É uma questão de tempo.