(este artigo está escrito em português do Brasil)

No futebol é costume dizer-se, sobre uma partida importante com um desfecho inesperadamente trágico, que se trata de “um jogo que não terminou”. A expressão, metafórica, é utilizada em outros campos de interesse como, por exemplo, na obra literária de Zuenir Ventura “1968: o ano que não terminou” (ano que reuniu os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy – irmão de JFK, morto cinco anos antes, que era também contra a continuidade da Guerra do Vietnã, provável motivo que levou ao homicídio do irmão, e lançara pouco antes sua pré-candidatura à presidência do país – e, no Brasil, a promulgação do AI-5), ou no poema de Sandra Feldman, “The Non-Ending game”.

Pois bem, a torcida brasileira costuma designar com tal etiqueta o Brasil 2-3 Itália de 1982, denominado “A Tragédia do Sarriá”, e o Brasil 1-2 Uruguai de 1950, o dito “Maracanazo”. São partidas em que a seleção brasileira era a franca favorita, mas obteve um resultado desfavorável em virtude de uma atuação abaixo do que se esperava. Não obstante, foram jogos equilibrados, decididos em detalhes, com a equipe “canarinho” lutando até o fim pelo gol salvador – já que apenas um bastaria para lhe dar a classificação, no primeiro caso, ou o título, no segundo.

A nossa história de hoje começa em 15 de julho de 1950. Rodoviária do Rio de Janeiro. O meu avô – nascido em Portugal, em Vila Nova de Gaia, em 1923, e que emigrou para o Brasil somente com quatro anos, em 1927 -, então com 27 anos de idade, desembarca, vindo de uma viagem de mais de meio dia, com origem no Sul de Minas Gerais, acompanhado por dois amigos. Com pouco dinheiro e a roupa do corpo, o trio caminha pelos arredores em busca de uma hospedaria com preço acessível para passar a noite. Estão todas lotadas. Resolvem então tomar uma condução até as adjacências do Maracanã, onde, segundo os locais, ainda haveria vagas disponíveis. Acabam mesmo conseguindo um quarto apertado a algumas quadras do “Gigante”. No dia seguinte, levantam bem cedo, tomam o pequeno-almoço e partem rumo ao estádio. Embora lá cheguem com uma antecedência de mais de quatro horas para o início da partida, as filas para aquisição de ingressos já são quilométricas. Não arredando o pé sequer para almoçar, conseguem finalmente ingressar já faltando muito pouco tempo para o pontapé inicial, se juntando a outros quase 200 mil adeptos (segundo estimativa da organização), até hoje o recorde de público de toda a história do futebol brasileiro.

A Copa do Mundo de futebol de 1950 se decidiria numa partida entre Brasil e Uruguai, última de quadrangular final que reunira também Suécia e Espanha. O Brasil vencera as duas partidas anteriores por 7-1 (Suécia) e 6-1 (Espanha), enquanto o Uruguai empatara uma (2-2 com a Espanha) e vencera a outra com dificuldades (3-2 sobre a Suécia). Assim, o Brasil, comandado pelo artilheiro da competição, Ademir Menezes, tinha a vantagem de poder apenas empatar para se sagrar campeão do mundo, pela primeira vez em sua história.

A “tragédia”

O meu avô, à época um trabalhador braçal, com renda módica, pai de família, decidira embarcar naquela aventura poucos dias antes, mais exatamente após a vitória avassaladora do Brasil sobre a Espanha no dia 13 de julho, a qual acompanhara pelo rádio. Reuniu suas parcas economias, conseguiu convencer dois amigos e partiram rumo à então capital do país. A empolgação dos adeptos era imensa, com gente de todos os rincões do país se fazendo presente. A imprensa dava a vitória como certa, pois o Brasil tinha mostrado credenciais suficientes para bater o Uruguai com facilidade.

Sabe-se, contudo, que o futebol é capaz de pregar surpresas. O primeiro tempo do jogo transcorreu com intenso equilíbrio entre os contendores e um clima de absoluta tensão nas arquibancadas. O Brasil, ao contrário do que se esperava, não conseguia se impor perante a bem organizada estratégia uruguaia, que discutia o domínio campal ao invés de se encolher na defesa, o contrário do que a maioria dos especialistas imaginara. Todavia, logo no início do segundo tempo, a sorte sorriu para o Brasil e o avançado Friaça, aos 47’, abriu a contagem. “Passa boi, passa boiada”, “abriu a porteira”, era a expectativa entre os adeptos. O Uruguai, contudo, tinha equipe “cascuda”, comandada pelo experiente trinco Obdulio Varela, remanescente da Copa de 1938, e pelo genial Schiaffino. E foi justamente deste último o gol de empate, aos 66’. A partir daí, o ambiente foi de absoluta tensão, em campo e fora dele. O Uruguai crescia aos poucos na partida. Segundo relato de meu avô, a meados do segundo tempo, Obdulio Varela agrediu o zagueiro brasileiro Bigode, que recebeu orientação do técnico Flávio Costa para não reagir, e foi a partir dali que a equipe brasileira se perdeu emocionalmente na partida e o Uruguai tomou definitivamente as rédeas. Ghiggia então fez o gol de desempate aos 79’, em falha justamente de Bigode e também do goleiro Barbosa. Completamente atordoado, o Brasil não conseguiu reagir e viu aquele que seria seu primeiro título mundial, em casa, escorrer por entre os dedos. Era o fim de um sonho fielmente alimentado ao longo dos últimos anos.

Alguns jogadores brasileiros se retiraram do futebol imediatamente após a partida, tamanha a desilusão. Vários outros jamais voltaram a vestir a camisa “canarinho”. O goleiro Barbosa carregou até a morte (em 07/04/2000, aos 79 anos de idade) o fardo pela derrota. A Confederação Brasileira de Desportos optou até mesmo por mudar a cor dos uniformes (até então, o titular era composto de camisa branca com gola azul e calções brancos, tendo sido alterado para o que é usado até hoje, de camisa amarela com gola verde e calção azul). O Maracanazo ingressou de vez no imaginário popular e muitas histórias, sem veracidade comprovada, foram contadas desde então. Há quem diga que Obdulio Varela, após a partida, ter-se-ia sentado num bar no Rio de Janeiro, para saborear algumas cervejas, quando testemunhou a imensa tristeza do povo brasileiro, o que chegou a deixá-lo consternado, a ponto de tentar consolar alguns adeptos sob o argumento de que era apenas um jogo.

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