“Mineirazo”, o jogo que não começou ⏳

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A “farsa”

Avancemos muitos anos no tempo: 05 de julho de 2014, Estádio Mané Garrincha, em Brasília. O jogo, válido pelos quartos-de-final da Copa, era Argentina x Bélgica. Após 64 anos de espera, o Brasil voltava a sediar o torneio. Ainda que, neste ínterim, houvesse conquistado cinco títulos mundiais e se tornado o maior campeão do torneio, a grande decepção de 1950 tornava uma obrigação a vitória em casa. Afinal, todas as demais seleções mais tradicionais (Alemanha, Itália, Argentina e Uruguai) e até mesmo França e Inglaterra, detentoras de um único título, venceram ao menos uma vez como sede.

Descrente com o ambiente duvidoso que envolveu especialmente a escolha das sedes e a construção dos estádios, eu optara, nas primeiras fases de venda de ingressos, por não comparecer a nenhuma partida, o que já fizera na Copa das Confederações, realizada no ano anterior. Entretanto, a enorme paixão pelo futebol acabou por fazer ruir a resistência às vésperas do torneio, mas o tempo já era curto. Sem muita disponibilidade, acabei obtendo ingressos para jogos esparsos, nenhum do Brasil. Inaugurei a minha participação naquela Copa no Colômbia 3-0 Grécia, em Belo Horizonte, a 14 de junho. Na sequência, embarquei para testemunhar o decisivo Uruguai 2-1 Inglaterra, em São Paulo, a 19 de junho. De lá para Fortaleza, onde compareci a dois jogos: Alemanha 2-2 Gana, a 21 de junho, e Grécia 2-1 Costa do Marfim, a 24 de junho. Por fim, a Brasília, para Portugal 2-1 Gana, a 26 de junho, ainda pela primeira fase, França 2-0 Nigéria, a 30 de junho, já pelos oitavos-de-final, e o já mencionado Argentina 1-0 Bélgica. Esta era a última partida para a qual eu tinha obtido ingresso, diretamente pelo site da FIFA ou de segunda mão. A partir dali, era assistir pela televisão de casa. E para esta eu retornava, no dia 07 de julho de 2014, quando recebi o telefonema de um amigo. Estava numa parada na estrada, para lanche, a meio caminho entre Belo Horizonte e Governador Valadares, quando recebi a notícia sobre a disponibilidade de um ingresso, a preço de custo, para a semifinal entre Brasil e Alemanha, no dia seguinte. Dei meia volta e regressei a Belo Horizonte. É claro que me passou pela cabeça, supersticioso que sou, o ocorrido com o meu avô em 1950, mas, pensei: “não era final, nem Maracanã, dava para correr o risco”.

“A História repete-se. A primeira vez como uma tragédia, a segunda como farsa”

(Karl Marx em “O 18 de Brumário de Louis Bonaparte”, sobre a revolução de 1848 em França)

O jogo que não começou! Seria inapropriado, tanto em magnitude como em adequação, dizer que se tem aí, como nos exemplos anteriores, um jogo que não terminou. Aqueles não terminaram, pois, desde um ponto de vista objetivo, faltou mesmo apenas um gol (e, especialmente em 1982, o Brasil não esteve longe de consegui-lo), e, numa visão subjetiva, a equipe teve entrega suficiente para buscar o resultado. Então, creio que é mais correto dizer que o Brasil 1-7 Alemanha sequer começou, pois o Brasil, ao sequer oferecer resistência mínima, deixou a sensação de que não entrou em campo, de que não houve jogo propriamente dito. A reação dos adeptos que estavam no estádio não era, como em 1950, um misto de tristeza e irritação. Era uma “não-reação”, de incredulidade, de quem se sentia dentro de um sonho (ou, melhor dizendo, de um “pesadelo”), em outro plano. A reação máxima possível de ser vista era um sorriso nervoso. Nos dias seguintes e até hoje, ao invés de uma implacável “caça aos culpados”, como em 1950, o que o brasileiro se viu capaz de fazer foi apenas piada de si mesmo. É claro que surgiram “teorias da conspiração”. Há, por exemplo, quem acredite até que a CBF teria dado a ordem para a derrota com vistas a influenciar na eleição presidencial que ocorreria em outubro daquele ano. Eu, que não chego a tanto, percebo que ao menos uma grave contenda entre os jogadores, possivelmente já dentro do vestiário, ocorreu. De todo modo, quando me lembro daquele jogo, não o vejo acontecendo, mas sim me acomete um sentimento permanente de espera, um estado de embriaguez que não passa, a sensação de que aquilo não aconteceu realmente, que o jogo de verdade ainda vai – algum dia, sem prévio aviso – acontecer. Trata-se de um cenário semelhante, guardadas as devidas (e muito devidas) proporções, ao trágico acidente fatal de Ayrton Senna, acontecimento o qual também, após mais de 20 anos, não logrei superar desde um ponto de vista mental (e não propriamente – ou, apenas neste último caso, somente – emocional).

Vou à Copa do Mundo de 2018, na Rússia, em busca desse jogo, do pontapé inicial. Por tal razão, foi uma decisão que – embora envolva vários aspectos relevantes, financeiros e de logística – tomei sem muito pestanejar. Preciso ir à Copa. É uma necessidade, uma imposição, não é uma comodidade, desejo ou escolha. E, dessa vez, partirei já tendo adquirido previamente ingressos para todos os jogos do Brasil, inclusive a final, dos oitavos-de-final em diante. Talvez encorajado pela inédita conquista da Eurocopa por Portugal em 2016, a qual presenciei, carrego comigo a sensação de que voltarei de lá com a “Copa”. Ou talvez por acreditar que a única possibilidade de redenção pela humilhação sofrida em 2014 seja o título em 2018. É tudo ou nada! Do contrário, aquele jogo nunca mais irá começar…

Rafael Vasconcelos Porto
Rafael Vasconcelos Porto
Luso-brasileiro, juiz federal e professor no Brasil e um verdadeiro "Globetrotter" das grandes competições. Fez-se presente, como adepto, em inúmeras provas, como a Copa do Mundo de 2014, a Eurocopa de 2016, os Jogos Olímpicos de 2016, fases finais da Liga dos Campeões e da Libertadores da América. Visitou os palcos das finais das Copas de 1930, 1938, 1950, 1954, 1962, 1966, 1974, 1978, 1982, 1998, 2006, 2010 e 2014. Estará presente em 15 partidas da Copa do Mundo da Rússia em 2018, inclusive em jogos de Portugal.