A ascensão de José Mourinho, primeiro no FC Porto e posteriormente no Chelsea (não incluo Internazionale por razões que a seguir explicarei), foi das raras histórias que me entusiasmou futebolisticamente na idade adulta. A originalidade táctica e estratégica (coisas diferentes, apesar de nem todos o saberem), a irreverência e sobretudo o feeling de “algo novo” no futebol moderno de então motivavam-me a não perder um jogo do “Special One”, sobretudo aquando da sua primeira passagem por Inglaterra. O facto de ser português também somava à equação, como é óbvio. Quem segue o treinador luso desde então com a devida atenção percebeu há muito que o Mourinho de hoje nada tem que ver com o de então. Resta saber porquê.

A (VOLÚVEL) LIDERANÇA

Uma das coisas que percebi aquando da minha passagem pelo futebol de clubes é a importância que tem para um emblema contar com o treinador certo, no momento certo. Outra coisa que aprendi, numa era em que jovens de tenra idade acumulam salários que pulverizam (mesmo que à proporção) o que grandes figuras do passado que os precederam recebiam, é que os cada vez mais avançados (e acessíveis) conhecimentos técnicos ao dispor dos treinadores contam menos, quando comparados com a capacidade que estes têm (ou não) para mobilizar emocionalmente os cidadãos sob o seu comando, muitos deles ainda em processo de formação enquanto homens. Uma decisão injusta, um momento errático, uma postura insegura são fenómenos que bastam para que o todo (ou parte) de um grupo de jogadores deixe de acreditar no mais importante para um treinador moderno: que o que aquele senhor manda fazer lhes trará benefícios, desportivos, económicos e profissionais. O mais injusto para o treinador é saber que esta capacidade não é sequer permanente. Existem os que nunca a chegam a ter, outros têm-na durante curtos espaços (o que explica em parte os efeitos curiosamente positivos de algumas “chicotadas”) e outros têm-na quase sempre. Quase sempre porque… falamos de Mourinho.

“CIAO” ITÁLIA

O que se passa então com José Mourinho, para lá dos inexplicáveis resultados da época em curso? Na minha opinião, que o sigo com a devida atenção desde sempre (mas sempre como espectador, realce-se, apenas o conheço pelo que dele me dizem as pessoas que com ele já privaram), a metamorfose de Mourinho deu-se ainda em Milão, e não em Madrid como é mais comum apontar-se. O “Special One” que chegou a Itália era atrevido, arrojado, inovador. Recordo-me de o ver abordar os últimos minutos de um encontro em 3-3-4 porque havia que ganhar aquele jogo, aliás todos os jogos. Mourinho personificava na altura, um pouco como Guardiola hoje, um futebol diferente do resto, mas menos mastigado e mais agressivo que o do espanhol. E destacava-se por isso. Em Itália deixei de conseguir apreciar os jogos das equipas de José Mourinho. O Inter venceu, é certo, mas (para o meu gosto e para o que eu identificava no treinador) sem a chama que marcara o futebol das equipas do técnico até então. E aí penso que se iniciou parte da mudança de José Mourinho, que aprendeu que podia ganhar tanto (ou até mais) com uma fórmula mais conservadora, menos inventiva mas mais segura, menos inovadora mas mais compacta.

“HOLA” MADRID

Mas mesmo tendo em conta a alteração na forma como Mourinho aborda o futebol, identificável na passagem pelo Inter, nem aí Mourinho perdeu outra das suas valências: a capacidade para reunir as tropas em seu redor, num compromisso emocional inigualável. Quando Mourinho abandonou o Porto houve emoção. Quando Mourinho foi despedido do Chelsea houve drama. Quando o “Special One” partiu de Milão, Materazzi chorou como um menino. Mourinho podia ser odiado fora do grupo e alimentava já esse ódio como catalisador dessa união, mas dentro do balneário mantinha intactas as qualidades que faziam dele o único treinador em actividade capaz de dar “pernas” a jogadores inaptos sob qualquer outro comando. Mas até isso Mourinho perdeu. Onde? Em Madrid.

“BACK TO LONDON”

Madrid foi certamente uma experiência traumatizante para Mourinho. Mas pior que isso profundamente transformadora. Se Mourinho havia já perdido o arrojo futebolístico que o caracterizara na primeira fase da sua carreira, na capital espanhola soube perder (ou a isso foi obrigado) a sua capacidade para unir e mobilizar, trocando-a por uma apetência súbita para uma lógica de conflito interno. Pouco interessa se foi vítima ou culpado do processo, o que importa é o resultado e esse foi desastroso para o “arsenal” com que o treinador matava os “bichos” que deixou de ser capaz de matar.

Mourinho: Sky Sports
A análise ao eventual “sindrome da terceira época” da Sky Sports, ainda a procissão ia no adro (Agosto 2015)

O regresso a Londres levantou algumas dúvidas a muita gente, recordando até o célebre ditado: “não regresses onde já foste feliz”. Mourinho regressou e pulverizou o dito, mesmo que sem impressionar fora de portas e sem nunca reproduzir o desempenho da primeira passagem (vide infografia). Mas os sinais do novo Mourinho já se faziam sentir (ex.: relação com Eden Hazard). O início desta época confirmava o problema: o “Special One” pode ainda ter os adeptos do Chelsea com ele, agradecidos (com justiça) por um passado ainda recente que transformou os “blues” no clube que não era, mas pouco mais terá, desde jogadores, dirigentes e imprensa. O episódio Eva Carneiro, cuja insignificância real é inversamente proporcional à dimensão que problema terá ganho interna e publicamente, é um exemplo claro de que Mourinho já não é o mesmo.

“SEE YOU AGAIN JOSÉ?”

O futuro é uma incógnita. O momento actual é um teste à capacidade de Mourinho, num cenário que nunca viveu. Se recuperar reafirmará ainda mais o seu perfil mítico no mundo do futebol. Se tombar talvez a clarividência lhe permita parar para recuperar o centro, o propósito e as características que perdeu algures pelo caminho pois… seria fantástico ainda voltarmos a ver o verdadeiro José Mourinho, que para muitos apenas “desapareceu” esta época mas que para quem o segue com atenção desde sempre se foi desvanecendo há bastante mais tempo. Se alguém é capaz de o conseguir é ele.