José Mourinho (foto: Tsutomu Takasu)

Falar de derrotas e falhanços é fácil, em especial depois de acontecerem, e os treinadores são alvos fáceis. Se perdeu é porque errou; se ganhou então teve um golpe de génio. É, talvez, o que está a acontecer com José Mourinho, eliminado justamente pelo PSG da Liga dos Campeões, a jogar quase 1h30 com mais um jogador. Mas há mais que se lhe diga.

Desde já faço um ponto prévio: sou confesso admirador de Mourinho desde o início da carreira do sadino, e não é um jogo que define uma carreira ímpar. Mas pode ser um jogo a dar sinais evidentes de uma tendência, que na minha opinião já se nota há vários anos: José Mourinho perdeu a irreverência. Não fora de campo. Essa mantém-se, é rei das conferências de imprensa e dos “mind games” – como voltou a mostrar a seguir ao empate com o PSG –, das respostas sem resposta. Mas dentro de campo muito mudou.

Há quem lhe chame experiência, amadurecimento, mas o José Mourinho que colocou o FC Porto a jogar num revolucionário modelo de jogo asfixiante e totalmente em cima dos adversários, o “Special One” do primeiro ano da primeira passagem pelo Chelsea, esse já não o vemos. Recordo um Benfica 0 – Porto 1 de 2002/03, na Luz, em que as “águias” praticamente não fizeram um ataque; um Chelsea 4 – Barcelona 2, em que os catalães de Ronaldinho estiveram a perder 3-0; um Tottenham-Chelsea em que Mourinho fez uma substituição que poucos pensariam e os seus comandados “trituraram” os “spurs”.

No Inter de Milão, o português é visto como um “Deus”, ganhou tudo, criou uma equipa poderosa, mas adaptada ao estilo italiano, calculista, a olhar para o resultado – o ponto alto foi a meia-final da Champions em Camp Nou, com uma estratégia fortemente defensiva, mas ninguém esquece a “obra-prima táctica”, segundo os jornais italianos da altura, quando o Inter afastou o “seu” Chelsea.

No Real Madrid o cenário mudou um pouco, perante a necessidade de reinventar-se para potenciar Cristiano Ronaldo e combater o “rolo compressor” do Barça de Guardiola, mas no Chelsea, parece que vemos de novo Mourinho “à italiana”. O chamado “autocarro” esteve presente nas meias-finais da época passada na visita ao Atlético de Madrid e em vários jogos da Premier League. Este ano voltou a aparecer no Parc des Princes; e em Stamford Bridge, perante um PSG com dez jogadores – e sem Ibrahimovic -, Mourinho só arriscou no prolongamento, mas antes tirou Oscar para apostar na velocidade de Willian e aproveitar o balanceamento francês. Mas contra dez, em casa, exigia-se outra resposta, uma resposta tacticamente irreverente, como era Mourinho dos bons velhos tempos. E não vale culpar os jogadores e a pressão, ou qualquer outra situação.

Esperemos que o tal Mourinho que ajudou a mudar o futebol na Europa tenha apenas tirado férias, faça uma introspecção e, a bem do futebol mundial, volte depressa.