Muito poucos esperavam esta mudança repentina de Jorge Jesus para o Sporting Clube de Portugal. Apesar do mau-estar evidente entre Bruno de Carvalho e Marco Silva, que já durava há meses, ainda se vislumbrava a possibilidade de permanência do técnico, após a vitória leonina na Taça de Portugal.

Olhando para os dois treinadores, a pergunta fica: de que forma Marco Silva e Jorge Jesus são comparáveis, ou dito de outra forma, será que existem pontos de contacto entre ambos? Que impacto terá Jorge Jesus no universo leonino.

Em primeiro lugar considero que Marco Silva tem potencial para ser um treinador tão bom, ou até melhor que Jorge Jesus. O ex-Estoril Praia é ainda bastante novo, tem uma assinalável capacidade de adaptação e resposta às situações de jogo e há que ter em atenção que à sua disposição tinha o pior plantel dos “três grandes”. Contudo, conseguiu fazer uma época razoável. No banco de suplentes não havia qualquer solução credível e sobretudo consequente, para fazer mudar a dinâmica do jogo. Ainda assim, o jovem treinador conseguiu alterar o rumo de jogo e até dar a volta ao resultado em diversas ocasiões, devido à excelente capacidade de análise e a uma alteração do plano.

Marco Silva conseguiu ainda tirar um bom rendimento de diversos jogadores. Fez subir Tobias Figueiredo à equipa principal e deu excelente regularidade a André Carrillo. A meu ver, caso no mercado de Inverno tivesse havido uma melhor política de contratações, mais incisiva e cirúrgica, o Sporting teria tido condições para lutar pelo campeonato nacional até ao fim e apresentado maiores ambições na Liga Europa.

No entanto, Marco Silva não correspondeu, na minha opinião, em certos domínios. A equipa fazia um pressing pouco agressivo e organizado, optando muitas vezes por realizar uma recuperação defensiva intensiva, procurando ocupar o espaço de forma a poder formar um bloco médio/baixo. Por outro lado, não se entende a não aposta em jogadores como Wallyson, Rubio e até Palhinha, que demonstraram ao longo da época uma elevada qualidade, podendo merecer uma gradual integração na equipa principal “verde-e-branca”.

A opção por ter um Adrien Silva mais recuado em certos momentos do jogo também me pareceu prejudicar William Carvalho, que joga bastante melhor estando mais fixo no posicionamento à frente da defesa leonina. A etapa de construção baixa ganhou uma maior panóplia de acções ofensivas e soluções. Porém, na transição ataque-defesa, e quando o Sporting usava ataque posicional, a equipa sentia algumas dificuldades.

E AGORA COM JESUS?

Jorge Jesus foi a escolha de Bruno de Carvalho para a próxima época leonina, sendo que irá ganhar quase cinco vezes mais do que Marco auferia. Será que o esforço financeiro compensará?

Em primeiro lugar acredito que Jesus irá quebrar um paradigma, quer na equipa principal, quer na formação, uma vez que com toda a certeza irá fazer uma mudança de sistema táctico. Caso adopte um 4x4x2, Montero poderá aparecer onde, a meu ver, renderá mais, como segundo- avançado. Esta mudança irá demorar tempo a implementar, pois além das rotinas criadas em 4x3x3, temos ainda de nos lembrar que existe um modelo transversal de jogo a todos os escalões que terá de ser modificado. Jesus tem ainda um “handicap” em relação a Marco Silva; é que o experiente treinador parece menos eficaz a usar o banco de suplentes para dar volta aos resultados durante o jogo.

No início da época do Benfica, Jesus apostou fortemente no recurso ao jogo directo, privilegiando assim a etapa de criação e dando pouca luz às etapas que ocorrem na parte recuada do terreno de jogo. Este não é um sistema assimilado no Sporting, mas Slimani tem todas as características para encaixar bem nesta ideia de jogo. Haverá também uma maior velocidade de processos, com bastante recurso a movimentos de “over-lapping” e diagonais, com os médios e segundo avançado a explorarem os espaços vazios criados.

Em segundo lugar, o tipo de contratações será também diferente. Marco Silva teve de se contentar com jogadores do fraco calibre como Maurício, Sarr, Rossell, entre outros… Jesus terá, certamente, um orçamento para transferências bastante superior e de ambições mais elevadas.

Caso Jesus consiga aproveitar jogadores saídos da formação leonina, teremos uma combinação sem dúvida alguma vencedora. Será que é desta que veremos Carlos Mané rotinado a defesa-direito, Esgaio a médio “box-to-box” e Iuri  ou Gauld a “10”? E será que vamos assistir a uma chegada de brasileiros, argentinos e sérvios em charters, comprometendo assim o ADN leonino baseado na sua academia?

A capacidade motivacional e movedora de massas que Jesus tem poderá, a meu ver, ser um murro na mesa catalisador no universo sportinguista. Caso haja harmonia entre presidente e treinador – coisa que ainda não aconteceu no mandato de Bruno de Carvalho -, podemos assistir, quem sabe, a um regresso do Sporting à conquista do campeonato nacional.