Mundial 2014: “Blitzkrieg” no Mineirão

A pior derrota e sempre do Brasil, e logo em sua casa, perante a Alemanha, por 7-1, é um aglomerado de recordes históricos difíceis de explicar. Mas vamos aos números.

A Alemanha encontrou rapidamente no jogo o caminho para a final (foto: Shutterstock/AGIF Infografia: GoalPoint)
A Alemanha encontrou rapidamente no jogo o caminho para a final (foto: Shutterstock/AGIF Infografia: GoalPoint)

O Estádio Mineirão viveu a versão futebolística da chamada “blitzkrieg”, ou “guerra-relâmpago”, a táctica que as tropas alemãs usavam na II Grande Guerra. Ataques massivos e rápidos, esmagadores, que causavam grandes danos ao inimigo. Numa versão menos bélica, foi isso que aconteceu nesta histórica meia-final do Mundial 2014. E já se fala em Mineiraço!

Um role de equívocos tácticos de Luiz Felipe Scolari provocou a derrocada defensiva da “canarinha”, reflectida em números que perdurarão. Esta foi a maior derrota de sempre do Brasil em Mundiais; a maior diferença de golos em meias-finais; nunca uma equipa chegara tão rapidamente aos 5-0 (29 minutos, sendo quatro apontados em seis minutos e 41 segundos); Miroslav Klose tornou-se no melhor marcador de sempre em Mundiais, com 16 golos; e a ideia que fica é que a Alemanha não se esforçou para marcar mais…

A Alemanha foi melhor em tudo, mas importa focarmo-nos na primeira parte. O Brasil atirou-se para o ataque e descurou a defesa e o contra-golpe germânico. As entradas “à queima” e a pressão desenfreada e desorganizada contrastaram com a tranquilidade alemã. As subidas dos laterais Marcelo e Maicon, sem controlo, abriram auto-estradas para a goleada. Só na primeira parte a Alemanha atacou 49% das vezes pelo lado direito, onde estava Marcelo. O lateral-esquerdo do Real Madrid, por seu turno, apresentou números de médio/avançado: três remates (menos um apenas que Oscar e Ramires); o quarto jogador brasileiro com mais passes (51), sendo que 40 (77,5% certos) aconteceram já no meio-campo adversário; segundo com mais toques (78, David Luiz 79), sendo que esteve pobre nos cortes (um), nas intercepções (uma) e perdeu a bola 13 vezes.

Clique na imagem para ler em detalhe (foto: Shutterstock/AGIF Infografia: GoalPoint)
Clique na imagem para ler em detalhe (foto: Shutterstock/AGIF Infografia: GoalPoint)

O Brasil voltou a sentir dificuldade na construção de jogo, patente na matriz de passes. Luiz Gustavo trocou 43 (!) só com David Luiz e Dante. Paulinho e Fernandinho praticamente não tocaram na bola e efectuaram cada um apenas 18 passes, e o ataque, no primeiro tempo, não existiu (primeiro remate enquadrado à baliza de Neuer apenas aos 52 minutos). Ao invés, Toni Kroos e Thomas Müller foram gigantes na Alemanha. Kroos marcou dois golos, fez uma assistência, fez mais remates (os mesmos três que M. Klose), criou duas oportunidades, foi o rei do passe, com 71 e uns impressionantes 93% de eficácia, a maioria deles (46) no meio-campo brasileiro (o seguinte foi M. Özil, com 39 na metade adversária). E depois houve Müller, que mesmo com 18 perdas de bola ganhou 20 duelos (apenas 55%).

No primeiro tempo, o Brasil rematou duas vezes, ambas para fora, contra dez da Alemanha. Os germânicos acertaram sete vezes na baliza, sendo que sete do total dos remates aconteceram na grande área brasileira – o que mostra a facilidade com que os comandados de Joachim Löw chegavam à área contrária. A formação europeia chegou ao intervalo com 56% dos duelos ganhos e uma posse de bola de 53,6%. No segundo tempo, com o abrandamento alemão e a persistência “canarinha”, os números inverteram-se e o Brasil rematou 16 vezes, oito à baliza, contra quatro da Alemanha, mas a eficácia desta manteve-se impressionante (71,4%). No final, um número destaca-se dos demais: 29% de eficácia aérea do Brasil contra 71% da Alemanha.

 

Apontamento táctico

Um “onze” inicial que ditou desde início o destino dos brasileiros e mostrou as limitações a nível táctico de Luiz Filipe Scolari. Ao jogar com Bernard, Óscar, Hulk e ainda Fred no meio-campo ofensivo “canarinho”, a equipa ficou desequilibrada. Os alemães criavam rupturas sempre que contra-atacavam após a perda de bola brasileira, e a linha defensiva da casa demonstrou estar completamente destruída mentalmente, descoordenada e pouco compacta. Com as alterações ao intervalo houve algumas melhorias na transição ofensiva brasileira, mas a distância entre sectores e o fraco trabalho defensivo ditou este resultado que perdurará para sempre na memória de todos os adeptos.

Nota: Mais grave que a utilização de jogadores tão ofensivos como fez o Brasil foi o facto de o seu posicionamento ser incorrecto. Hulk não joga bem no lado esquerdo e quando tenta fazer o seu movimento-tipo de flectir para o centro fica sem o seu pé esquerdo enquadrado para o remate. O segundo aspecto é o facto de Bernard ser um jogador vertical e de linha, isto é, Oscar fica completamente sem apoio no momento ofensivo, visto que também é mais forte na condução de bola que na construção de jogo.

O “Apontamento Táctico” é assinado por Miguel Pontes.

Que motivos encontra para o desenrolar do jogo e resultado final na estreia de Portugal no Mundial? Que alterações considera mais adequadas para o embate com os Estados Unidos? Deixe-nos a sua opinião.