
Os sistemas tácticos de três centrais julgavam-se perdidos, à beira da extinção, depois de uma década de 90 em que pareciam querer tomar conta do futebol. A Argentina, de Carlos Bilardo, surpreendeu tudo e todos ao surgir pela primeira vez com um sistema de três defesas-centrais, em 3-5-2. Ideia que sustentou a cavalgada triunfal de Maradona e companhia rumo ao título no México 86.
O Mundial de 1990 provou ser o da “moda” do 3-5-2, com dois laterais bem abertos e subidos. A Alemanha arrecadou a taça neste sistema e repetiu-o em 1996, no Europeu de Inglaterra. Até Bobby Robson, no Itália 90, rendeu-se a este esquema táctico. Sven-Göran Eriksson foi expectador atento da prova e tentou introduzir esta nova ideia no Benfica de 1990/91, com pouco sucesso – quase lhe custou o título em casa, na recepção ao Sporting (1-1), logo após o triunfo por 2-0 no Estádio das Antas. Mas aos poucos começou a desaparecer, pela dificuldade em apresentar laterais com capacidade física para fazer todo um corredor e porque começaram a estar em voga os esquemas de apenas um ponta-de-lança, tornando desnecessários tantos defensores.
Regresso ao passado
Surpreendentemente, muitas das equipas que se apresentaram no Brasil 2014 recuperaram o esquema de três centrais. Com variantes, muitas, desde as mais conservadoras – a Costa Rica não desfez o seu 5-4-1 sólido – às mais audazes – a Holanda chegou a apresentar-se em 3-4-3 e mesmo 3-3-4. Olhando para os números, deparamo-nos com 22 ocasiões em que equipas usaram três centrais – em alguns casos as duas selecções em simultâneo. O desempenho dessas equipas é, no total, de 11 vitórias, sete empates e quatro derrotas, com 30 golos marcados e apenas 14 sofridos.
Costa Rica (cinco golos), Holanda (15), Uruguai (quatro), Chile (seis), México (cinco), Itália (dois), a própria Argentina (oito) – mas apenas no primeiro jogo – apresentaram-se neste esquema, e a performance atacante destas selecções remete, de novo, para 1990, o Mundial dos três centrais, que é ainda o que pior média de golos teve até hoje: 2,21 por jogo. Este grupo de equipas não se destaca pela veia goleadora, com excepção para a Holanda, embora se trate de um caso especial, pelo seu pendor ofensivo – marcou 15 golos, sendo a segunda com mais tentos, atrás da campeã Alemanha (18).
Defensivamente, porém, o sistema resulta… até certo ponto. Costa Rica (dois), México (três), Itália (três), Holanda (quatro), Argentina (quatro), Chile (quatro), Uruguai (seis) sofreram poucos golos, muito por culpa de a principal estratégia dos adversários neste Mundial passar pela utilização de um ponta-de-lança apenas. Foram usados 74 esquemas com apenas um avançado em cunha, em 64 jogos. No total, em 57,8% das vezes as equipas apresentaram-se com um homem só na frente. Não espantam os oito prolongamentos registados, recorde que pertencia ao… Mundial de 1990.
Sistemas utilizados pelas selecções presentes no Mundial 2014
| Sistema | Nº utilizações |
|---|---|
| 4-2-3-1 | 52 |
| 3-5-2 / 5-3-2 | 11 |
| 4-5-1 | 12 |
| 4-3-3 | 21 |
| 4-4-2 | 9 |
| 4-2-4 | 2 |
| 4-2-2-2 | 3 |
| 5-4-1 | 5 |
| 3-4-3 | 1 |
| 4-3-2-1 | 2 |
| 4-4-1-1 | 3 |
| 3-5-2 | 5 |
A lei do mais forte: o 4-2-3-1
No final, esta consistência defensiva de pouco valeu, pois das selecções que usaram regularmente os três centrais, apenas a Holanda (a mais ofensiva) chegou às meias-finais e a Costa Rica aos “quartos”. O grande “vencedor” foi mesmo o 4-2-3-1, utilizado em 52 ocasiões, seguindo-se o 4-3-3. Se levarmos em conta que este foi o esquema táctico preferido de Alejandro Sabella e da sua Argentina, e que o 4-3-3 da Alemanha foi, em grande parte das vezes, um 4-2-3-1 declarado, fica claro qual a tendência dominante desde Brasil 2014. E daqui podemos partir para outras discussões… como por exemplo a aparente “crise existencial” em que se encontram os tradicionais, os puros pontas-de-lança, os números 9, cada vez mais escassos.
Selecções como a Inglaterra, Alemanha e Holanda, elas próprias deixaram cair este espécime raro, com excepções de Miroslav Klose e Klaas-Jan Huntelaar. Se a lógica dos anos 90 imperar, este pode ser o ponto de partida para mais um abandono do esquema de três centrais.





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