Isoladamente, uma média ou uma percentagem pouco significam para o leitor. Estes dados pedem uma contextualização que cabe a quem os propõe oferecer, não só para informar mas também para conferir verdadeiro valor analítico à proposta.

Se há coisa de que fiz questão e dar importância desde o primeiro dia em que me juntei ao GoalPoint foi a necessidade de tratar bem uma coisa que, por norma, já tem tão mau nome e é tão mal compreendida em Portugal, os números. Basta lembrar as paixões que a matemática (não) desperta nas crianças, o que resulta ano após ano em “tops” de insucesso escolar liderados pela disciplina “maldita”, para perceber que vivemos num país com uma enraizada, e grave, “iliteracia” matemática.

Juntar algo com tão profunda má fama a um fenómeno tão aglutinador e tão gerador de paixões (essas sim verdadeiras) como o futebol tem a sua complexidade, mas o nosso rápido crescimento também mostra que as coisas estão a mudar, e que há uma nova geração já bem mais preparada, e acima de tudo necessitada de números, factos e análise, num mundo futebolístico que, sobretudo em Portugal, é dominado pela opinião subjectiva e pouco fundamentada.

Seria previsível que, com o crescimento do GoalPoint, se seguissem (e bem) mais exemplos de utilização de dados estatísticos na base de conteúdo informativo. O que eu particularmente não gosto de ver é o conteúdo informativo a ser gerado da mesma maneira de sempre (o tal “achómetro”) e a ser enfeitado com um número só porque aparentemente isso dá mais credibilidade à “parangona”.

É aí que entra o tratar bem dos números. Isoladamente, uma média ou uma percentagem pouco significam para o leitor. Estes dados pedem uma contextualização que cabe a quem os propõe oferecer, não só para informar mas também para conferir verdadeiro valor analítico à proposta.

Hoje quando acordei vi um jornal desportivo fazer tema de capa da suposta influência de Sebastián Coates na melhoria da qualidade na primeira fase de construção do Sporting.  À primeira reacção de espanto por ver uma percentagem com uma casa decimal na capa de um jornal desportivo português, seguiu-se um momento de intriga, ao saber que o tema vem na sequência de uma partida na qual o Sporting bateu o recorde de passes falhados num jogo, entre todas as equipas da primeira metade da tabela, mais precisamente 131. Claro que o uruguaio podia não ter nada que ver com isso, o problema é que teve, falhando dez passes, e registando uma eficácia de passe de 72% na visita a Moreira de Cónegos.

Serve isto não para criticar Coates, que até tem tido um impacto positivo no Sporting em outras valências que analisaremos noutras “núpcias”, mas para criticar a falta de contexto dado aos números que muitas vezes resultam em conclusões erradas.

O mesmo jornal refere que “recorrendo aos dados recolhidos num portal especializado” o uruguaio tem uma eficácia de passe de 82,6%. Talvez devido ao método de recolha não ser o mais recomendado, até o número está errado (a eficácia global não se calcula através da média das eficácias individuais), mas o mais grave é mesmo a opção de não suportar o “facto” numa comparação com os restantes centrais da mesma equipa.

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Fonte: GoalPoint / Opta

Uma análise cuidada do tema resultaria não só em melhor informação para quem lê, como também na conclusão de que nem sempre o que percebemos “a olho” é confirmado pelos números. Como se pode perceber, neste caso, até acaba por ser o outro “reforço de inverno” (Rúben Semedo) aquele que tem um impacto mais significativo na melhoria da eficácia de passe da primeira fase de construção leonina, mas mesmo em relação a Naldo e Ewerton, Coates não veio acrescentar no que toca a essa valência.

É importante e enriquecedor que se continue a usar a estatística para informar quem, cada vez mais, anseia por factos para suportar ou moldar as suas opiniões. Mas é igualmente fundamental não contribuir para a difícil aceitação dos números no futebol, e isso passa por evitar utilizar a estatística como mero recurso editorial “cosmético”, abordando a análise com ligeireza e/ou incorrendo em grosseiros erros metodológicos. Na dúvida… contacte-nos, podemos e queremos ajudar.