Isto é que foi uma semana hein? Milhões para aqui, direitos para acolá, “olha que eu encaixei mais”, “olha para a azia daquele”… O futebol tem essa magia: num país profundamente magoado por uma longa história de milhões, uns mais voadores, outros meramente virtuais, outros ainda totalmente fictícios, se há coisa que o cidadão adepto de clube (que, por cá, raramente coincide com o ser adepto de futebol, infelizmente) não se importa e até alegra é de ver uns milhões valentes a serem comunicados à CMVM (o que é também diferente de entrarem no clube, mas vou acabar com estas nuances entre parêntesis senão nem eu consigo reler isto) pelo seu emblema.

Afinal quem ficou a ganhar?

É a pergunta que todas as “tabelinhas de excel” que circulam tentam responder. Umas feitas por fontes “oficiais”, outras por meros adeptos, quase todas enfermam de um ou todos estes males: ou são produzidas por quem tem dificuldade com números, ou são propostas por uma visão clubística toldada ou são ainda (todas) feitas com muito pouca informação disponível, as chamadas “letras pequenas” que vão muito além dos comunicados à CMVM. Como por aqui gostamos de fazer as coisas com um mínimo de seriedade e apenas aquelas que nos sentimos capazes de analisar com rigor, não contribuímos para esse campeonato. Não o fazemos também porque essa é uma dialéctica do futebol do passado, mesmo que ainda seja (infelizmente) o do presente. Desde o início que trabalhamos para uma forma de olhar o futebol orientada para o futuro, um futuro no qual já sentimos em quem nos acompanha e do qual já não faço sequer parte (em termos etários).

… E quem perdeu?

Não entrando na análise de quem mais ganhou, entramos sim na identificação, fácil, de quem mais perdeu: o futebol português. Manuel Machado já o disse e muitos mais o pensam, mas calam-se perante a corrente, até porque são vários os dirigentes de clubes de menor dimensão que, vendo também a sua situação melhorar, se mostram resignados com as migalhas de um futebol disforme e que assinou nos últimos meses um compromisso definitivo com a sua deficiência. Mas a verdade é que esta questão do “fosso” cavado entre os três grandes e os demais e a consequente morte de qualquer aspiração a uma Liga realmente competitiva é desilusão de meia dúzia de hipsters sonhadores (mas a quem o tempo acabará por dar razão). Sejamos honestos: a esmagadora maioria dos adeptos dos “três grandes” não deseja uma Liga realmente competitiva, deseja sim é que o seu clube ganhe, seja lá de que forma for. Então mas daqui a dez ou 20 anos o meu emblema ia não só ter de se bater com os outros dois mas ainda ver um Vitória, Braga ou Marítimo a competir pelos títulos? Era só o que faltava, quem são eles?

NOS a má da fita?

Será a NOS então a má da fita ao passar o cheque milionário? Era só o que faltava. A NOS, bem como a Altice, são empresas com objectivos, que investem o seu dinheiro de sponsorização precisamente de acordo com a realidade do contexto no qual decidem investir. As empresas que investem no futebol não têm culpa do desequilíbrio do futebol português, única e exclusiva responsabilidade do próprio, nomeadamente dos seus dirigentes. Em boa verdade, e num contexto actual em que os principais clubes são tudo menos liderados de forma pública compatível com os melhores exemplos internacionais, os patrocinadores e investidores estão a fazer sim o papel de verdadeiros “Pais Natal”, ao investirem como nunca num futebol cujos seus máximos expoentes de tudo fazem, numa base já quase diária, para demonstrar total inaptidão para a valorização conjunta de um negócio que, noutras paragens, se enquadra como entretenimento, mas que por cá mais parece algo entre o militar e escatológico.

Não prevendo grandes melhorias no “clima futebolístico” que nos rodeia, por aqui continuaremos a trabalhar para o futuro, em comunhão com as novas gerações que gostam mesmo é de futebol e que não se rendem perante a dialéctica destrutiva e beligerante que nos circunda. Porque um dia o futuro chegará, o dia em que uma tabela de melhores marcadores terá realmente mais interesse para os (verdadeiros) amantes do futebol do que uma “liga da verdade” ou um excel mal amanhado e ainda menos informado sobre negócios que em nada afectam a vida do cidadão adepto.

Um bom ano de 2016 a todos os GoalPointers!