A conquista do bicampeonato marcou o fim de um ciclo no SL Benfica. O sinal mais visível disso mesmo é a saída de Jorge Jesus, mas a inabilidade de Luís Filipe Vieira para segurar o treinador que devolveu o clube a um relativo domínio poderá não ser mais do que um sintoma preocupante para os benfiquistas.

O presidente do Benfica falou da estrutura do clube como estando no cerne dos recentes êxitos desportivos, mas os acontecimentos dos últimos dias, a forma como Vieira lidou com o dossier Jorge Jesus, atiram o futebol “encarnado” para uma forma de gerir que tão maus resultados teve na era pré-Jesus. É precisamente aqui que Vieira poderá ter cometido o maior erro de gestão desde que chegou para liderar os destinos benfiquistas, numa proporção diametralmente oposta à que lhe permitiu segurar o treinador depois da hecatombe de Maio de 2013.

Os factos são incontornáveis: o Benfica era, com praticamente a mesma estrutura de agora – menos a equipa técnica de Jesus -, um crónico candidato ao título que apenas com Trapattoni e José Veiga conseguiu interromper a caminhada triunfal do FC Porto. Treinadores, uns atrás dos outros, erros de casting, políticas desportivas questionáveis caracterizavam o Benfica pré-Jesus e foi preciso chegar o agora novo homem-forte do Sporting CP para as “águias” ganharem três em seis campeonatos, com um bicampeonato como climax, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga e estar presente em duas finais europeias consecutivas pela primeira vez em mais de 50 anos. Terá sido apenas coincidência? Foi a estrutura? Ou foi Jorge Jesus?

Agora, Luís Filipe Vieira quer fazer crer – e o mais insólito é que talvez acredite mesmo nisso – que foi a sua capacidade de gestor de futebol que devolveu o Benfica às conquistas regulares e que, seja com que treinador for, voltará o clube a ganhar como até aqui. Mas não será o simples facto de ter perdido Jesus da forma como o perdeu para o rival um sintoma de que o Luís Filipe Vieira de agora é o mesmo do pré-2009? Será que Vieira aprendeu algo com o passado, na gestão de treinadores (casos das fugas de Trap, Ronald Koeman e saída de Fernando Santos), na venda e compra de jogadores (a perda de estrelas para os rivais, como James, Falcao, Danilo, Alex Sandro). Será a estrutura suficiente? Estas são apenas algumas questões que ficam no ar.

Outras dúvidas poderão ser colocadas e advêm das informações que cada vez mais vão sendo do conhecimento público: Será que o Benfica não quis mesmo renovar com Jorge Jesus e que Luís Filipe Vieira confiava que o treinador, em Portugal, só treinaria o Benfica e iria para o estrangeiro? Se sim, então é caso para dizer que não conhecia minimamente o homem com quem trabalhou durante seis anos. Terá o Benfica tentado cortar para metade o ordenado de um treinador que lhe garantia lucros desportivos e financeiros substanciais? Se sim, então é certo que pouco ou nada aprendeu sobre gestão de clubes. É verdade que Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes tentaram colocar Jesus no estrangeiro, incluindo no Médio Oriente e China? Se sim, questiona-se de novo se Vieira conhecia verdadeiramente Jesus e o que ganhava o Benfica com isso. Acreditará mesmo o presidente do Benfica que poderá continuar a ganhar com regularidade mudando o paradigma de investimento em jogadores para uma aposta na formação? Se sim, questionamos há quantos anos Vieira vê futebol e que bons exemplos destes conhece. Terá Jesus saído do Benfica apenas porque quis, ou foi empurrado por Vieira?

No fundo o que estamos a assistir com os dois maiores clubes de Lisboa é uma troca de identidade, uma forma de “sportinguização” do Benfica e de “benfiquização” do Sporting relativamente aos paradigmas de aposta na formação/investimento em jogadores. Mas isto sem que um e outro saibam muito bem como se faz uma e outra coisa.

O que espera agora o presidente das “águias”? Provavelmente que tudo se vá manter como antes, com as camisolas (ou a estrutura) a ganharem jogos e troféus só por si, os sócios do clube a apoiarem-no incondicionalmente. Mas não acredito que a vida de Luís Filipe Vieira como líder “encarnado” volte a ser a mesma. A responsabilidade de perder Jorge Jesus é sua e os adeptos saberão apontar-lhe isso mesmo quando e se as coisas começarem a correr mal com um novo treinador; quando e se Jorge Jesus tiver sucesso no Sporting, mais do que o novo Benfica; quando e se o FC Porto recuperar o domínio nas provas internas. Nessa altura, nem mesmo se Vieira tiver optado por Marco Silva em vez de Rui Vitória a sua vida será fácil, e poderemos estar a assistir aos derradeiros momentos do presidente do Benfica na cadeira da Luz. O Benfica “fez” Jesus e Jesus “fez” Vieira, mas o presidente do Benfica parece não ter percebido isso.

Entretanto, um outro presidente e um outro treinador foram praticamente esquecidos. Pinto da Costa e Julen Lopetegui entregaram-se inteligentemente ao silêncio. Poucos falam disto perante a “guerra” entre Sporting e Benfica, mas provavelmente o grande beneficiado com estes golpes palacianos chama-se mesmo FC Porto.

Pinto da Costa defendeu há poucos anos que era Jorge Jesus o grande responsável pelos bons resultados da equipa. José Mourinho referiu há dias que o mérito é todo de Luís Filipe Vieira. Suspeitamos que no final de 2015/16 ficaremos a saber quem tem razão.