Quem aprecia a banda desenhada de Uderzo e Goscinny reconhecerá de imediato a referência a Alésia, o nome do local (hoje Alise-Saint-Reine, perto de Dijon em França) que dá nome à batalha que ditou a conquista da Gália por parte dos romanos, na altura liderados por Júlio César.

Nas aventuras de Astérix a derrota de Alésia é um tabu recorrente, uma referência proibida entre os gauleses, que contestam quase sempre sequer a sua existência ou se recusam a comentá-la. Vem isto a propósito de uma breve “pesquisa de bolso” que fiz nas horas posteriores ao brilhante feito do FC Porto frente ao Bayern, que o é independentemente do que vier a suceder na segunda volta.

Nas redes sociais, palco de escassa riqueza de conteúdo, mas inversamente proporcional fartura de indícios sobre a natureza e psique humana, encontrei, sem rigor científico, três tendências recorrentes no rescaldo da vitória dos “dragões” sobre o Bayern:

1) a natural euforia dos adeptos “azuis-e-brancos”
2) Algumas referências elogiosas ao feito por parte de adeptos leoninos (por vezes a contragosto o que no meu entender até valoriza o reconhecimento público do mérito do adversário local) embora emolduradas por um silêncio generalizado
3) A praticamente inexistente (entre os meus contactos, convém realçar) referência ao jogo realizado pelo Porto, quebrada por raríssimas excepções todas elas depreciativas, por parte de contactos afectos ao Benfica

Nas referências pejorativas a que considerei mais divertida foi a desconsideração para com o “onze” apresentado pelos germânicos, alheia ao facto de no “onze” titular constarem nada menos do que 11 internacionais pelas respectivas selecções, seis deles campeões do Mundo. Mas como referi o que mais encontrei foi um enorme silêncio, ao estilo gaulês, certamente aliado à falta de noção da importância que tem para o futuro do futebol português momentos como este, sejam eles protagonizados por que emblema for.

Não sou defensor da obrigatoriedade de apoiarmos os clubes rivais na Europa, outra “mania” nacional sem qualquer paralelismo lá fora e totalmente alheia às naturais emoções que o futebol de clubes envolve. Mas a natural schadenfreude que decorre das derrotas dos clubes rivais à incapacidade de reconhecimento do mérito e importância de momentos como aquele que foi vivido no Estádio do Dragão na última quarta-feira ainda vai uma certa distância, ainda que os motivos sejam relativamente compreensíveis. Para alguns adeptos “encarnados” será difícil aceitar o sucesso rival numa prova na qual esperavam uma campanha bem mais aceitável do que aquela que o Benfica protagonizou esta época, enquanto entre (alguns) adeptos “verde-e-brancos”, mais focados nas políticas fora das quatro-linhas, o sucesso desportivo e financeiro de um rival que nestes momentos demonstra o lado positivo de uma realidade (os fundos) na qual apenas pretendem encontrar aspectos negativos motivará uma reflexão necessariamente incómoda para os que vivem a paixão clubística sem espírito crítico.

Suspeito, pelo que oiço dos mais velhos e mais sábios, que nem sempre o futebol português foi assim. Nem sempre o adepto preferia a vitória das suas cores a qualquer custo, vivendo quase com a mesma intensidade a derrota do adversário mesmo que em contextos que nada influenciavam o sucesso do seu emblema. Esta forma de viver o futebol que identifico grosseiramente e sem rigor sociológico como nascida na década de 80 do século passado acaba por influenciar tudo: a prova, os clubes, os dirigentes e as dificuldades que temos. Mas isso fica para outra ocasião, que a prosa vai longa e ganhei a súbita vontade de revisitar as aventuras do pequeno gaulês.